Escrito por: Ricardo Grecchi Aguiar (@Ricardo_Grecchi)
Revisado por: Laís Ribeiro (@laisribgomes)
Revisão final por: Kai (@_ckantz)

Introdução

Ao analisar as origens de qualquer crise devemos nos concentrar nos anos que a precederam. No caso da crise de 2008 vou iniciar minha explicação 15 anos antes. Sem tal retrocesso temporal seria impossível entender o funcionamento do ciclo econômico.

Em 1992, um estudo feito por uma entidade do Federal Reserve de Boston, alegou ter encontrado evidências de discriminação na área de empréstimos para minorias. Esse estudo gerou uma grande repercussão recolocando em discussão uma lei do final dos anos 70 conhecida como Community Reinvestment Act. Essa lei passou a valer em 1995, e obrigava os bancos a conceder empréstimos para pessoas classificadas como subprime para a compra de imóveis, sem que o banco pudesse fazer a análise dos critérios de risco. Em situações normais (quero dizer, sem a interferência do Estado) um banco não emprestaria quantidades elevadas para essas pessoas pois a chance de não ocorrer o pagamento da dívida era alto. “Os reguladores bancários federais exigiram que os bancos fizessem empréstimos ruins baseando-se em padrões de crédito inexistentes”.

Ainda na década de 90, vale ressaltar outro importante evento: duas empresas foram criadas pelo congresso norte-americano conhecidas como Fannie Mae (Federal National Mortgage Association) e Freddie Mac (Federal Home Loan Mortgage Corporation).  Que tinham como função garantir a liquidez do mercado de hipotecas, pela compra dos empréstimos bancários. Desta forma, os bancos não esbarravam na regulamentação que não permitia que o número de ativos passasse do seu patrimônio líquido. Assim sendo, o banco poderia realizar novos empréstimos. Com a posse dos títulos, Fannie e Freddie passaram a ser a responsáveis pelos empréstimos, ou seja, caso ocorresse um calote, elas que teriam enormes prejuízos. Assim sendo, as empresas tinham duas opções: manter sob sua posse os empréstimos ou criar um pacote conhecido como “títulos lastreados em hipotecas” para revender a investidores ao redor do mundo.

Freddie e Fannie garantiam todas as hipotecas que empacotavam e vendiam no mercado secundário, pois usufruíam uma linha especial de crédito junto ao Tesouro americano. Isso significa que, em tese, quem comprasse as hipotecas vendidas por Freddie e Fannie estava segurado pelo governo americano. [2]

Essa garantia implícita de proteção conseguiu atrair um contínuo financiamento de investidores — que investiam dinheiro nestas empresas e compravam seus títulos lastreados em hipotecas —, pois estes investidores sabiam que, caso houvesse calotes nas hipotecas, Fannie e Freddie cobririam tudo. E caso a coisa degringolasse e Fannie e Freddie quebrassem, ambas seriam socorridas pelo governo americano. [2]

A Freddie e Fannie juntamente com a Community Reinvestment Act estimularam todo o mercado imobiliário. No gráfico fica claro. Observe a partir de 1993. Além disso, vale ressaltar que até o começo da década de 1970 os preços imobiliários se mantiveram constantes. Isso se deu pelo fato de existir resquícios de padrão-ouro, que teve seu fim no ano seguinte. Já após 1970 os preços se elevaram muito devido inflação.

Essa facilidade para tomar empréstimos foi (e ainda é) um incentivo para a especulação. Passou a ser algo comum comprar uma casa, trocar o piso por exemplo, e vender por um valor muito maior ou tomar empréstimos sempre que o imóvel se valorizava e sair esbanjando (aqui fica claro que a cadeia produtiva de toda economia está sendo alargada).

Anos 2000

Duas políticas governamentais foram citadas, porém cabe ressaltar que as agências de classificação de risco tiveram um papel importante.

Como citado anteriormente, os bancos revendiam os ativos para as empresas Fannie Mae e Freddie Mac (em setembro de 2008 já detinham 50% das hipotecas americanas e 75% das recém-concedidas), que muitas vezes mantinham os ativos em suas carteiras, como citado. Porém, esses ativos também eram oferecidos ao redor do mundo para investidores, até aqui faz sentido, mas qual o motivo de grandes conglomerados financeiros terem confiado nesses ativos imobiliários?

Primeiramente vamos entender um ponto crucial: Revender vários ativos em um pacote é chamado securitização. Nesse processo ocorre a mistura de ativos de bons mutuários (recebedor do empréstimo com bom histórico creditício) com o de ruins mutuários (recebedor do empréstimo com ruim histórico creditício). Com isso, o comprador de um pacote com bons ativos, inevitavelmente, compraria os ruins. Essa junção foi chamada de Collaterized Debt Obligation (CDO), algo como Obrigação de Dívida Colateralizada.

Agora vamos a resposta. As agências de classificação de risco como Moody’s, Fitch e Standard & Poor’s deram classificação máxima (AAA) para estes ativos, desta forma, os investidores tiveram sua confiança elevada. A explicação para tais classificações nos remete as barreiras de entrada no setor. Para ocorrer a permanência em qualquer área regulamentada, é necessário atender as normas da agência cartelizadora do setor (no Brasil temos o exemplo da ANATEL). Nesse caso a SEC (Securities and Exchange Commission) que decide quem pode ou não entrar nesse mercado. Com isso, é impossível ocorrer concorrência externa pois é proibido. Logo, essas três empresas formavam um cartel que ficava a mercê das vontades da SEC. É plausível afirmar que as classificações foram concedidas pois as agências não estavam dispostas a colocar em risco sua exclusividade de mercado e, consequentemente, terem perdas financeiras. Elas obedeceram as ordens do governo.

Nova economia

O início da década era corrente a ideia de que estávamos vendo o nascer de uma “nova economia”, como afirmou o presidente do Banco Central americano, na época, Alan Greenspan. Adeptos dessa nova abordagem acreditavam ingenuamente (ou não) que poderíamos ter um boom permanente, caso uma recessão se aproximasse bastaria ligar a impressora, derrubar os juros e a economia iria decolar, o céu era o limite. Sendo assim, tinham a crença que o ciclo econômico estava domado pelo chicote estatal. Porém, o que difere essa crença dos contos de fadas, é que no final todos não foram felizes para sempre.

O fim do sonho se deu em 2001. Com o estouro da bolha da internet ficou claro que a nova era não estava alheia as leis econômicas. A crise se deu exatamente pelo crescimento insustentável, gerado pela enorme quantidade de crédito barato injetado na economia, apesar disso, o presidente do Banco Central não quis alterar os rumos da política econômica. Pelo contrário, o FED voltou a abaixar as taxas de juros chegando a 1% em 2003, ou seja, para aliviar a bolha da internet, outra foi criada.

Causas

O governo expandiu a base monetária injetando enormes quantidades de moeda fiduciária na economia, abaixando as taxas de juros (gráfico 2). Desta forma, a cadeia produtiva foi expandida de forma artificial.

Tudo isso não teria começado caso o governo não tivesse criado dinheiro do absoluto nada. Somente pela intervenção que foi possível: bancos concederem empréstimos arriscados – disparada do preço dos imóveis gerando uma imensa especulação -, capacidade de compra de ativos pela Fannie Mae e Freddie Mac (que contavam com uma linha especial de crédito). Logo, a gêneses do problema foi a interferência irresponsável e criminosa do Estado.

 A Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos

A TACE é uma teoria que explica como crises se formam pela expansão de crédito. Quando bancos centrais juntamente com bancos privados expandem a base monetária abaixando a taxa de juros, ocorre uma elevação na quantidade de empréstimos bancários – apesar de não existir uma quantidade de poupanças reais que justifique essa taxa. Essa taxa de juros está em descompasso com o “nível natural”, que se eleva ou não de acordo com a quantidade de dinheiro poupado. Logo, ocorre um desestímulo para a poupança e um incentivo a elevação do consumo. Em outras palavras, com a distorção feita pelo Estado, as preferências temporais tendem a se elevar. Por exemplo: José tinha 5 mil dólares na poupança, porém, esse dinheiro não estava rendendo nada pois os juros abaixaram. Desta forma, ele retira o dinheiro e utiliza para a entrada no financiamento de um carro de 25 mil dólares, e os outros 20 mil ele vai conseguir em um empréstimo pelos juros de 1% ao ano.

Com isso, ocorre um boom de crescimento econômico, ou seja, várias pessoas vão retirar esse crédito e usá-lo estimulando vários outros setores que somente existem pelos juros artificialmente baixos. Assim sendo, a cadeia produtiva se expande. Exemplo: pelos empréstimos serem de fácil acesso, várias pessoas vão trocar de carro, isso vai elevar a demanda por compartimentos do veículo. Logo, a produção de pneu, vidro e plástico serão estimuladas, e, com isso, essas empresas vão precisar de mais funcionários. Os contratados agora tem dinheiro e podem comprar uma televisão, que vai fazer com que a produção na empresa de TV se eleve, desta forma, o fabricante vai precisar comprar mais máquinas, logo, vão estimular a empresa que as produz.

Entretanto, toda essa expansão da cadeia produtiva é sustentada pelos juros artificialmente baixos. Quando sobem, tudo isso deixa de existir. Isso é o que conhecemos como crise. Porém, o Banco Central temendo ser responsabilizado abaixa as taxas de juros novamente, e com isso, várias empresas se mantém. Porém, funcionam exclusivamente via crédito e aos poucos a economia vai se japanificando*.

Leia mais sobre a teoria austríaca dos ciclos econômicos neste artigo escrito pelo Daniel Campos.

Efeitos

Em agosto de 2007, tudo começou a vir à tona com o anúncio da suspensão dos saques em dois fundos com títulos lastreados em hipotecas americanas. Com isso, o banco britânico Northern Rock foi fortemente afetado pois dependia desses fundos de investimento para garantir a liquidez. Após a notícia sobre o banco estar insolvente vazar, ocorreu a maior corrida aos bancos desde 1930. O governo britânico assegurou que iria garantir todos os depósitos. No dia 17 de fevereiro de 2008 o banco Northern Rock foi estatizado. Isso foi o começo do desmoronamento. As empresas Fannie Mae e Freddie Mac foram também estatizadas. Foi ordenado pelo Tesouro americano a aquisição do banco de investimentos Bear Sterns pelo JP Morgan. No dia 15 de setembro, o até então renomado banco Lenhman Brothers faliu. Por fim:

A seguradora AIG, de alcance global, também anunciou que estava sem dinheiro. O caso da AIG é interessante. Ela repentinamente se descobriu sem dinheiro não porque havia investido em títulos lastreados em hipotecas, mas sim, porque havia emitidos seguros contra o calote de hipotecas (os chamados “credit default swaps“). Sempre que uma instituição era caloteada por algum devedor, ela recorria à AIG, que havia emitido apólices contra esses calotes hipotecários.

Com a súbita disparada nos calotes, a AIG repentinamente foi para o vermelho.

E por que a AIG havia emitido tantas apólices de seguro contra calotes de hipotecas? Porque ela havia sido informada pelo governo de que os preços dos imóveis jamais cairiam, e havia também sido informada pelas três agências de classificação de risco que os títulos lastreados em hipotecas eram AAA — isto é, extremamente confiáveis e seguros.  

Ou seja, em troca desta segurança prometida, a AIG emitiu várias apólices e coletou uma boa soma em prêmios. Até que tudo se reverteu, e todos os bancos foram correndo reclamar suas indenizações.

No total, até o fim do ano de 2008, o FED viria a emprestar US$ 125 bilhões para a AIG em troca de 80% da empresa. Segundo o The New York Times, esta foi “a mais radical intervenção no setor privado em toda a história do Banco Central” [2].

Conclusão:

A crise de 2008 demonstrou com clareza como governos criam colapsos econômicos. Os economistas austríacos tem um histórico de identificação de crises. Em 1922, no livro Socialismo, Mises afirmou que, caso o socialismo fosse de fato implementado, seria impossível seu funcionamento (a URSS não colapsou antes devido a tentativa da utilização de preços de mercado). Em 2008 não foi diferente com as análises de Ron Paul. Essas previsões ocorrem pela identificação de padrões pela ótica da TACE.

Os governos nada fizeram para acabar com o ciclo do “boom-and-bust”. Pelo contrário, suas massivas intervenções somente elevaram a onda de crescimento artificial e, consequentemente, a distorção dos preços, elevando o potencial destrutivo da crise que está por vir.

Portanto, não faz o menor sentido afirmar que a crise de 2008 foi causada pela falta de regulação estatal, mas sim pelo oposto. Ideólogos incapazes de lidar com a verdade distorcem os fatos para propagar suas mentiras e assim tentam alterar o passado para modificar o futuro.

Abaixo alguns dados complementares:

O FED injetou dinheiro na economia abaixando os juros. Com os atentados de 11 de setembro, as injeções foram intensificadas. Nesse período, a taxa de juros caiu de 6% para 1% permanecendo dessa forma até 2004:

Deflationary Spiral of Commodities/Hyper Inflation to follow ...

No gráfico acima fica clara a relação entre juros (em azul) e base monetária (em vermelho) no período da crise.

Evolução do crédito total concedido pelo setor bancário (linha azul) e evolução do crédito total concedido à compra de imóveis (linha vermelha).  Vale observar que, de 2000 a 2008, o crédito total aumenta incríveis 100%, de US$ 3,5 para US$ 7 trilhões. Isso significa que o sistema bancário, estimulado pelo FED, jogou US$ 3,5 trilhões na economia americana em apenas 8 anos. [2]
Inadimplência total dos empréstimos garantidos por imóveis

* https://www.mises.org.br/Article.aspx?id=184

Referências bibliográficas:

[1] Documentário: A CRISE DE 2008 Segundo a Escola Austríaca. Disponível em:

[2]: ROQUE, Leandro. Como ocorreu a crise financeira americana. Instituto Mises Brasil. Disponível em: <https://www.mises.org.br/article/1696/como-ocorreu-a-crise-financeira-americana>. Acesso em 30 Jul 2020.

[3]: ROTHBARD, Murray N. A Grande Depressão Americana, São Paulo: LVM Editora, 2012. Disponível em: <https://amzn.to/3hLZiTa>.
(essencial para entender o ciclo econômico)

[4]: ROTHBARD, Murray N. O Que governo Fez Com Nosso Dinheiro?, São Paulo: LVM Editora, 2012, Capítulo V. Disponível em: <https://amzn.to/30Zw5h6>.


Ricardo Grecchi Aguiar é estudante de Relações Internacionais, libertário e fundador do grupo de estudos Ludwing Von Mises na universidade de Ribeirão Preto.