Suélen Hornung

Libertária. Developer e atua como Programadora Freelancer. 19 anos e cursa o 4˚ período da faculdade no curso de T.I — Tecnologia da Informação.

Sim, provavelmente você é egoísta, e está tudo bem.

Acreditamos piamente que ser egoísta é uma das piores características da personalidade de uma pessoa; um tipo de comportamento associado à ganância, ao poder e à crueldade. É possível que você já deva ter ouvido isto antes: “ou você é bom, ou você é egoísta.” Para a maioria das pessoas, egoísmo virtuoso é um oxímoro: elas não pensam na possibilidade de um indivíduo ser bom e perseguir seus próprios interesses ao mesmo tempo.

Vemos isso pelo próprio dicionário: “Egoísta, do francês égoïste — quem só consegue pensar em si mesmo. Que se pode referir a egoísmo.” Em contraste, ao digitar a palavra “altruísta”, que possui sentido oposto e, a maioria das respostas trazem conceitos positivos, fazendo um altruísta ser bem vindo aos olhos das pessoas: “Altruísta, do francês altruisme — Atitude que visa o bem-estar do próximo, não tendo em consideração interesses particulares.”

Portanto, parece que temos um consenso. Egoísmo é algo carregado de características negativas, destinado aos infelizes e sem amor. O altruísmo, por outro lado, representa o oposto: a dedicação ao próximo, o amor incondicional, a bondade acima de tudo.

E é exatamente aí onde está o problema. Os significados que vocês leram acima estão equivocados e deturpados.

Negar o egoísmo é negar a natureza humana, uma vez que, considerando uma perspectiva lógica, o altruísmo, em uma primeira análise, é praticamente inexistente. É impossível fazer alguma coisa em detrimento próprio e favorecimento de outro. Qualquer ação tomada, até mesmo o suicídio para favorecer um terceiro, entra na concepção da busca pela felicidade, e é uma característica do egoísmo. Não existe ação voluntariamente feita onde o agente não ganhou algo, seja dinheiro, atenção ou simplesmente uma sensação de bem estar e alegria.

O que você poderia ser, por meio da racionalidade, é caridoso. Algo fundamental para a humanidade e não há dúvida alguma que quem pratica caridade está fazendo o bem, diretamente ou não. Porém, você deve saber, a caridade é, em muitas vezes, um comportamento egoísta, pois, como eu disse acima, você busca cumprir um valor moral de ajudar seus iguais, reduzir dores e construir pontes para lugares melhores nas vidas dos outros em prol do seu próprio benefício, não importando aqui qual ele seja. Pois a caridade deve vir do ego, da vontade e valorização do indivíduo que a pratica, não de um senso de culpa ou expiação de supostos pecados.

Agora, exemplificando, vamos considerar um vendedor, o sr. Carlos, dono de um mercadinho na praça. Carlos prioriza apenas e, acima de tudo, seu próprio lucro, pagar seus boletos e o pão de cada dia. Numa definição literal do dicionário, como já vimos, isso é egoísmo, simples e claro. Porém, o lucro é o que permite ao empresário comprar cada vez mais mercadorias para aumentar seu estoque, e é isso que possibilita que ele abaixe os preços e ao mesmo tempo que mais pessoas possam adquirir seus produtos com maior facilidade.

Então, ele fez o bem ou o mal?

É simples, as pessoas sempre preferem conforto ao desconforto e agem com base nisso. Isso é praxeologia básica. É o que leva a humanidade rumo ao futuro. E está tudo bem! Isso não é ruim!

No entanto, nesse momento você deve estar se questionando sobre onde entraria o papel de um ladrão nessa história. Bom, há uma diferença moral fundamental entre um homem que vê seu autointeresse na produção e um outro que o vê no roubo. A maldade de um ladrão não repousa no fato de que ele persegue seus próprios interesses, mas no que ele considera como sendo seu próprio interesse; não no fato de que ele busca seus valores, mas no que ele escolheu para valorizar; não no fato de que ele deseja viver, mas no fato de ele querer viver num nível subhumano, não é racional, tem como princípio um mero capricho, autodestrutivo, a curto ou longo prazo, que indiretamente prega o sacrifício de outro indivíduo.

Ayn Rand fala sobre egoísmo racional, tendo como objetivo a busca por valores racionais, e tendo a vida como valor último, assim como todo organismo vivo, porém, diferente de uma planta ou um gato, que não podem se auto-destruir, o homem pode, o que seria um homem vivendo por meios não racionais.

Ayn Rand também diz que: “O conceito de egoísmo não inclui avaliação moral; não nos diz se a preocupação com os nossos próprios interesses é boa ou má, nem nos diz o que constituem os interesses reais do homem. É tarefa da ética responder a tais questões.” Esse trecho foi retirado de um dos artigos de Rand sobre o egoísmo, mostrando que ele pode ser visto através de uma simples diretriz: a busca dos nossos interesses. Essa busca pode ser nociva para outros, claro, e é para orientar sobre esses desvios  —  e também puni-los  —  que a ética e as leis existem. Mas, a diretriz aqui é a nossa busca pessoal por aquilo que nos fará felizes.

E sim, você é feliz com o egoísmo. Por anos, eu tentei me tornar exatamente o tipo de pessoa defendida pela visão altruísta: boa, desapegada, que priorizava os demais em detrimento de si própria.

O resultado foi ter ganhado uma postura passiva, que me prejudicou de forma cruel durante boa parte da minha vida. Essa postura me levou a fortes dores e até perdas financeiras, problemas pessoais e até mesmo a uma depressão profunda que por pouco não me fez tirar minha própria vida em 2016.

Aliás, na época desse último fato eu realmente via o suicídio como um ato de altruísmo e benevolência. “Tirar minha vida eliminaria um fardo para diversas pessoas, como meu pai, e traria benefícios para muitas outras”, eu pensava.

Porém, hoje, alguns anos depois, risquei a palavra altruísmo de forma definitiva do meu vocabulário. Isso não significa, no entanto, que me tornei uma estúpida que não liga para mais ninguém. Apenas quer dizer que antes de pensar em qualquer ação, por mais bondosa que seja, sempre me pergunto: “qual o benefício  —  material ou intangível  —  que terei ao realizar essa ação?”. Pois, se minhas ações beneficiam alguém, ótimo, mas este não é nem de longe meu objetivo principal, mas uma consequência positiva trazida como consequência da minha principal busca: a autofelicidade.

Concluindo, levar um sistema político “não-egoísta” é essencialmente antinatural, além da própria política. Só trazemos benefícios a outras pessoas se esse benefício nos faz sentir bem. Portanto, a ação concreta sendo ou não egoísta, nosso objetivo final sempre é a satisfação pessoal. Independente da natureza desse egoísmo, não adianta, é a partir dele, a característica mais natural do ser humano, que todas as criações da humanidade devem se servir, inclusive o sistema econômico.

Referências bibliográficas:

RAND, Ayn. A Revolta de Atlas  — 1957

RAND, Ayn. A Virtude do Egoísmo  —  1964

Vídeo “O que é egoísmo?” por Raphaël Lima:

Artigo “A Virtude do Egoísmo” disponível em:

http://www.investidura.com.br/biblioteca-juridica/artigos/filosofia-do-direito/3285-a-virtude-do-egoismo-primeira-parte.html

Dicionário “altruísmo” disponível em: https://www.dicio.com.br/altruismo/

Dicionário “egoísmo” disponível em: https://www.dicio.com.br/egoismo/