Muito se é discutido sobre o real papel do historiador na sociedade e sua capacidade de imparcialidade quando aborda os fatos, mas é quase de consenso geral entre os praticantes que a imparcialidade é inexistente. Quando um historiador decide abordar e pesquisar sobre um assunto em específico, a própria escolha da pesquisa não é imparcial, ele tem um objetivo e dentro desse objetivo suas próprias ideias e dentro dessas ideias possivelmente sua própria ideologia. Quando por exemplo, escolho falar sobre o papel do historiador, como pretendo falar nesse capítulo, eu tenho um objetivo, dentro do meu objetivo minhas ideias sobre o papel e dentro dessas ideias um certo viés ideológico, mesmo que indiretamente. Abordar apenas fatos, como por exemplo a existência de uma Revolução Industrial, também é papel do historiador, mas ao explicar fatos, diferentes tendências são escolhidas – algumas vezes indiretamente, pelo próprio subconsciente do escritor. Por exemplo, um progressista, ao abordar a Revolução Industrial, decide dar enfâse ao trabalho infantil e os baixos salários das mulheres em fábricas naquele período e decide deixar de lado os fatos que levariam a uma visão positiva da sociedade, enquanto eu, como um capitalista, deixo claro em minha análise e pesquisa o aumento demográfico daquela época e as mudanças nas condições de vidas das pessoas. Logo, toda pesquisa indiretamente é parcial.

Outra abordagem interessante sobre o papel do historiador é a ignorancia ao indivíduo. Quando se fala da importancia desse ofício e quais são os objetivos de quem os pratica, quem geralmente fala sobre tal assunto ignora que cada um é um indivíduo diferente, com idéias diferentes e até mesmo objetivos próprios. Alguns podem abordar história como forma de entretenimento, outros como forma de justificar o modelo atual vigente, já outros – como os progressistas em sua grande maioria – preferem tecer críticas ao modelo atual e dessa maneira, com a discussão e a abordagem sobre diversos temas visando tal crítica, modificar a sociedade atual. Não discordo completamente dessa abordagem, na verdade não discordo de nenhuma dessas abordagens, pois todos são trabalhos com objetivos diversificados e tem a sua importância dentro desse objetivo.

O que acontece hoje, e tem acontecido a muito tempo, é a imposição dos valores de uma pesquisa individual – criada por um objetivo de um indivíduo – sobre os demais. Para um grupo de pessoas o estudo sobre a importância da educação para todos é importante, mas para outro grupo pode não ser. Como disse anteriormente, cada indivíduo é um outro, como diz Todorov no começo de seu livro A Conquista da América: A questão do outro[1]:

“Eu é um outro, mas cada um dos outros é um eu também, sujeito como eu”

Maioria dos historiadores ignoram a prática de mercado, onde uma pesquisa pode ser mais acessada despertando interesse em pessoas, assim como outra pode não despertar o mesmo interesse nessas mesmas. Muito se vê na dependencia dos intelectuais no ramo do incentivo estatal para as suas pesquisas, acreditando que o estado vê “o real valor do seu trabalho”, mas se seu trabalho, se não tivesse tal incentivo, não atingiria um grande público, talvez seja a hora de rever se é realmente importante. O que pode ser um assunto necessário para um indivíduo, pode não ser para o outro.

Como historiador, meu objetivo individual – e não quero impor esses objetivos aos meus colegas de profissão – é a de entendermos um lado não tão abordado da história e compreender com outros olhos diversos fatos ignorados por muitos autores que hoje são tidos como referência. Acredito que essa outra visão poderia despertar o interesse de outros indivíduos sobre o modelo atual progressista do estudo de história e talvez formar cidadãos mais independentes, entendendo as minhas visões sobre o que considero a real liberdade.


[1] A Conquista da América: a Questão do Outro – Livro por Tzvetan Todorov