O presente artigo é a compilação de uma thread feita pela Giulia Mallmann em seu perfil do Twitter, trazida ao Gazeta Libertária para divulgar seu trabalho e fornecer comodidade aos leitores.

A thread feita por ela foi uma resposta direta à uma outra thread em forma de quadrinhos, que você pode ler aqui
.

1- Calças

Se você estudar um mínimo que seja de história, verá primeiramente que: a saia/vestido era um símbolo de honra e privilégio. Homens que detinham mais poder social, sejam eles reis, padres, cardeais, bispos, papas, et cetera usavam saias. Isso significava, em suma, que além de não precisarem trabalhar, eles deveriam ser mais respeitados na sociedade. 

A calça, por outro lado, sempre foi uma espécie de uniforme; uma necessidade e uma consequência do trabalho árduo majoritariamente assumido por homens em toda a história da humanidade.

Não obstante, o uso da calça certamente não foi uma conquista feminista. No início do século XX, com a Primeira Guerra Mundial, um grande número de mulheres estavam envolvidas em atividades industriais e, por esse motivo, surgiu a necessidade de adaptar o uso de calças às mulheres, para fins laborais. Posteriormente, nos anos 30, uma onda de popularidade da calça atingiu o gênero feminino quando modelos e atrizes levaram a calça ao universo Hollywoodiano, diversificando seu uso. De qualquer forma, deve-se evitar usar calças, são imodestas e se tornaram um símbolo de libertação da mulher.

2- A inserção da mulher no mercado de trabalho como uma conquista feminista

Não. Essa é e uma das falácias mais esdrúxulas do movimento. Assim como a calça, as mulheres foram inseridas no mercado de trabalho por uma transformação social espontânea e orgânica, não por uma marcha organizada de um grupo de mulheres.

Na verdade, as mulheres sempre trabalharam. Temos exemplos como: Santa Zélia Guérin, mãe de Santa Terezinha, trabalhou como pequena empresária de uma oficina de bordado e Santa Hildegarda, grande médica, artista plástica e escritora, estudada até os dias atuais.

Já as mulheres pobres sempre trabalharam não porque se tratava de um direito, mas de uma necessidade. É interessante lembrar que antes do séc. XVIII, sem a Revolução Industrial, o trabalho era principalmente manual. Os homens, por terem mais força física, trabalhavam e as mulheres eram poupadas dessa responsabilidade. Inclusive, essa é a queixa de uma das primeiras feministas da história, Mary Wollstonecraft. Segundo ela, as mulheres sempre tiveram uma vida muito fácil em relação a que levavam os homens, e que delas nunca fora exigido mais que a superficialidade e aparência.

Bom, à medida em que o ambiente de trabalho foi melhorando, as mulheres foram naturalmente inseridas nesse universo. Primeiramente, por necessidade, já que o trabalho feminino (e infantil) seria a única alternativa para o sustento de famílias desalojadas e desempregadas na Revolução Industrial e, posteriormente, por ócio. Como escreveu Phyllis Schlafly, jurista americana, “Os avanços tecnológicos estavam produzindo tantas máquinas poupadoras de trabalho; como máquinas de lavar louça e secadoras, que as mulheres não tinham muito tempo para gastar com afazeres domésticos. Estavam portanto possibilitadas de darem atenção a outras coisas.” Como disse João Paulo II: “A máquina de lavar fez mais pela mulher do que o feminismo”.

3- O Voto

Em uma primeira analise, é interessante destacar que em todo o Ocidente, o direito à cidadania plena através do voto estava necessariamente ligado ao dever de servir ao Estado estando à disposição do exército.

As mulheres, ao serem poupadas de participar de guerras, não votavam. É interessante salientar também que votar não era uma privação exclusiva às mulheres. No Brasil, por exemplo, negros, analfabetos, mendigos, soldados rasos, indígenas entre outras pessoas também eram.

As Suffragettes surgiram no séc. XIX. Depois de ter a sua petição em favor do voto feminino negado no Parlamento Inglês, o liberal John Stuart Mill, juntamente com sua esposa, desenvolveu as bases da teoria política do movimento sufragista. Além de racistas e elitistas, elas também são consideradas por muitos como terroristas. Existem vários relatos de vandalismo e incêndio de propriedades praticados pelas mesmas.

Antes mesmo das ascensão das Sufragistas, outros movimentos (não necessariamente formados apenas por mulheres) defendiam o voto feminino e, diferentemente das Suffragettes, o voto não era reivindicado apenas para mulheres brancas e ricas. Apesar da luta pelo sufrágio ter tudo mais destaque com o passar dos anos, as mulheres anti-sufragistas eram tão numerosas quanto às mulheres favoráveis ao voto.

Em 1912, a americana, Grace Duffield Goodwin, por exemplo, publicou o livro “Anti-sufrágio: dez boas razões” onde aponta, de forma didática, as motivações das mulheres contrárias ao voto feminino.

De qualquer maneira, o voto feminino pode ser bem explicado pela evolução natural da sociedade, e não como uma consequência do movimento feminista. Como disse a própria feminista francesa Simone de Beauvoir – Ipsis litteris: “A ação das mulheres [por direitos legítimos] nunca passou de uma agitação simbólica, só ganharam o que os homens concordaram em lhes conceder”.

Nos EUA, por exemplo, apesar das inúmeras mulheres que se opuseram ao voto feminino, ele foi conquistado pelo Partido Republicado (partido reconhecidamente conservador) o primeiro a fazer tal proposta foi senador Aaron Augustus Sargent em 1878.

No Brasil, a primeira pessoa a defender o voto feminino foi o homem, cristão e conservador César Zemma. O primeiro voto na América Latina por uma mulher foi o de Celina Guimarães, e sem nenhum mérito dado ao feminismo a brasileira diz dever tudo ao seu saudoso marido.

Podemos concluir enfatizando: as mulheres, ao receber o direito ao voto sem obrigação de alistamento, não conquistaram direitos, mas sim um daqueles direitos “desiguais”, também conhecidos como privilégios! Vale a pena citar ainda, o livro do escritor inglês G.K Chesterton “O que há de errado com o mundo” onde ele narra muito bem as falácias e incoerências do movimento sufragista.

4- O Casamento

É difícil falar sobre um tema tão multifatorial como o casamento.

Inicio, então, citando um afirmação de uma das fundadoras do movimento feminista, autora do The Vindication of the Rights of Woman, a Mary Wollstonecraft: “A mulher que permanece fiel ao pai de seus filhos exige respeito e não deve ser tratada como uma prostituta; embora eu concorde prontamente que, se é necessário que o homem e a mulher vivam juntos para criar seus filhos, a natureza nunca pretendeu que um homem tivesse mais do que uma esposa”. 

A feminista admite que o modelo cristão monogâmico de casamento é o ideal para a situação da mulher. Não que a moralidade matrimonial cristã dependa de algo dito por algum pensador. 

Ela continua: “Não apenas isso: é preciso compreender que se algumas mulheres sofrem violências múltiplas e domésticas, é culpa específica dos maridos e não do modelo universal cristão de matrimônio”. É interessante perceber que uma das motivações dos casamentos arranjados — devemos perceber as circunstâncias culturais, sociais e não cometer anacronismo — era a imprevisibilidade da vida familiar.

É fato notório que relacionamentos baseados simplesmente em sentimentos e atração física não costumam ter bons resultados; já ao arranjar um casamento, o pai possibilitaria aos filhos uma vida mais segura, respeitável e estável. A moça que viesse de boa família traria consigo honra e um nome a zelar; caso a filha fosse desonrada, toda a família também seria. Desfazer laços com a filha seria também desfazer laços com a sua família. Laços esses, muitas vezes, também econômicos e comerciais. Esse contexto cultural é pode ser percebido na obra Orgulho e Preconceito, da Jane Austen, para perceber como essas relações de davam no passado. Além disso, tendo em vista a expectativa de vida na época e a incerteza material, os arranjos matrimoniais tinham uma motivação de caráter protetivo e prudencial. Pela dependência laborial da força bruta masculina, as filhas não poderiam ser deixadas desamparadas. Por este motivo, os pais buscavam encaminhá-las e garantir, de certa forma, estabilidade e conforto às filhas. 

Além de que, casamentos arranjados eram uma prática bem mais comum entre as famílias mais abastadas, você não veria um nobre tentando a todo custo tentando casar a sua filha com um camponês. Isso evidencia que não se tratava de uma questão de gênero; existiam interesses políticos, militares e econômicos que exerciam forte influência. De qualquer maneira, essas convenções evoluíram e se desenvolveram de acordo com a cultura local e com o período histórico, não com a ascensão do feminismo. Mais uma vez…

5- A Mulher, o Dinheiro e a Propriedade

É muito fácil escolher uma questão pontual, criticá-la e ter conclusões sem conhecer as suas reais motivações e justificações. Para falar sobre o dinheiro da mulher, é importante falar que esse é fruto do trabalho. Nada mais, nada menos.

Seria desonestidade intelectual não reconhecer a labuta masculina e o ônus que homem carregou — e carrega — por gerações. É fácil falar e exigir o direito de pertencer ao mercado de trabalho moderno, cercado de tecnologia e dinamicidade. Mas, nem sempre trabalhar teve tanto glamour; durante a maior parte da história, tal atividade sempre foi custosa, perigosa, difícil e sinônimo de sofrimento. A filósofa alemã Hannah Arendt percebe categoricamente:“Todas as palavras europeias para labor […] significam dor e esforço”.

Ora, não sabemos que foi essa a sentença dada a Adão em Gênesis 3,19? 
“A terra produzirá espinhos e ervas daninhas, e tu terás de comer das plantas do campo. Com o suor do teu rosto comerás o teu pão.”

Dentro desse contexto histórico, é importante reconhecer que as mulheres eram privilegiadas e uma das consequências relativamente negativas desse privilégio era não possuírem integral prerrogativa e domínio sobre os bens. A verdade é que ter autonomia financeira não era uma preocupação para a maioria delas; e que por todas as circunstâncias citadas e de conhecimento geral, os homens do século XIX eram, na maioria das vezes, integralmente responsáveis por toda a família. Isso, evidentemente, não era um parque de diversões como as feministas fazem parecer. Francis Bacon, filósofo inglês, chegou a escrever: “Aquele que tem esposa e filhos aceita as responsabilidades que são impedimentos às grandes empresas, tanto da virtude quanto do dano. Certamente, as melhores obras e as de maior mérito para o público procedem de homens solteiros ou sem filhos” 

Ou seja, além das propriedades em sua maioria terem sido conquistadas por homens, elas também eram necessariamente acompanhadas por inúmeras responsabilidades. De fato, legalmente, homens que tivessem filhos de ambos os sexos deveriam deixar os bens para os filhos homens; tendo como principal atribuição a de prover a subsistência da mãe, a qual ficaria bem mais segura sendo assistida pelo próprio filho ao invés de um terceiro homem; o esposo da filha, nesse caso (não só a mãe, como também outras mulheres da família eram legalmente assistidas pelos homens da família). 

Equanto uma devedora mulher poderia ser liberada por indulgência, o marido continuava com uma grande chance de ser enviado à prisão, mesmo que a dívida fosse da mulher. Inclusive, era comum que mulheres endividadas se casassem para se livrarem desse fardo. 

Essa história de que homens se aproveitam do dinheiro das mulheres não passa de um mito. Haviam inúmeras estratégias legais para proteger o dinheiro das mulheres e garantir que eles não passassem para o controle do marido até mesmo depois de sua morte (o que não era o caso dos homens). A Ana Caroline Campgnolo evidencia em seu livro, no capítulo sobre este tema: “Os fundos protegiam o dinheiro das mulheres com tanta eficiência que era comum homens criarem fundos em nome das mulheres ou das filhas para se proteger dos credores em caso de falência”.

O mais importante é que: quando falamos de privilégios relacionados ao dinheiro, o que mais importa não é como eles foram conquistados, mas sim quem eles beneficiarão. De modo geral, em um casamento, as mulheres ganhavam mais do que conseguiam produzir; mesmo que elas trabalhassem, a sua produção era incomparávelmente inferior a masculina. A supracitada Mary Wollstonecraft escreveu que “as mulheres eram vestidas e alimentadas sem que precisassem fiar ou se esforçar”. As mulheres viraram consumidoras por excelênciaTrabalhavam menos e gastavam mais. 

A já citada Ana Campgnolo, em Feminismo: Perversão e Subversão, escreve também sobre o fenômeno do controle feminino sobre os rendimentos masculinos. Ela mostra que a maior parte dos rendimentos acabava nas mãos das mulheres, que cuidavam de quase todos os gastos. Pesquisas mostram que, ainda nos dias atuais, 80% das compras continuam a serem feitas pela mulheres.

6- Conclusão

Finalizo ressaltando que, a autonomia da mulher, não só nesse aspecto, foi um efeito que tem como causa a liberdade econômica (que por sinal, mantém intactas as diferenças de preferências entre os dois gêneros). O Ludwig von Mises, pensador austríaco, escreve: “Liberdade econômica significa, na verdade, que é dado às pessoas que possuem o poder de escolher o próprio modo de se integrar ao conjunto da sociedade. A pessoa que tem o direito de escolher sua carreira, tem a liberdade de fazer o que quiser“. Ou seja, mais uma vez, mais uma evolução natural da sociedade em decorrência da ascensão do capitalismo — esse mesmo sendo uma consequência de um série de valores culturais. (A elevação do capitalismo e os eventuais afastamentos da civilização dos valores tradicionais também podem ser criticados, mas não entrarei nesse mérito). 

As ocasiões em que as mulheres estavam inseridas não resultaram de uma conspiração misógina e opressora do cromossomo Y, era uma questão puramente financeira e circunstancial. Como vimos, o fato das mulheres dependerem financeiramente dos homens não os tornava confortáveis ou privilegiados, pelo contrário. E certamente o Movimento Feminista não foi o responsável pelo aumento da autonomia trabalhista feminina. Ele apenas se apropriou dos méritos, visando escravizar mulheres à sua ideologia fracassada! A elite do movimento feminista (assim como vários outros movimentos sociais) é uma elite mentirosa, mau caráter e que se utiliza de falácias, constantes falsas dicotomias e alternativas forçadas para manipular pessoas que de fato sofremdando a esperança de uma panacéia (como faz uma boa ideologia) por meio de uma revolução cultural. Geralmente se termina em pizza, mas nesse caso, se termina na própria degradação da mulher. 

A grande maioria das meninas que se dizem feministas não sabem de onde surgiramas suas ideias e muito menos as suas consequências. Para servir de exemplo, há o caso relatado pelo Theodore Dalrymple em A Vida na Sarjeta; a sua paciente de 17 anos acreditava que a 2a Guerra Mundial havia acontecido na década de 70 e apresentava um paupérrimo conhecimento histórico, embora conhecesse todos os lemas e motes feministas, chegando até a denunciar o “sexismo” do médico ao ouvir que homens têm vantagem física sobre mulheres. 

Como qualquer outra ideologia, o feminismo precisa ser estudado para ser devidamente entendido. Objetivamente, se você acha que a base do movimento feminista é o bonito discurso de igualdade e sororidade, você não passa de um idiota útil.

Oportunidades iguais devem ser buscadas. Mas o movimento feminista nada fará, a não ser atrapalhar. Você não precisa de um movimento coletivista para defender a dignidade da mulher. Se observarmos a evolução da importância da mulher na sociedade, a sua valorização começou com o cristianismo. Compare como os romanos, gregos e judeus tratavam a mulher e como os valores morais cristãos mudaram esse paradigma. Se hoje, absurdos como o estupro e o assédio são tão banalizados, grande parte da culpa é de movimentos progressistas pós-revolução sexual e a eventual degeneraçãodos valores morais cristãos, antes tão presentes na nossa sociedade. 
Basta conhecer obras como A Mulher no Tempo das Cruzadas e A Mulher no Tempo das Catedrais, ambos da Régine Pernoud e O Privilégio de Ser Mulher, da Alice von Hildebrand para perceber os pontos fundamentais darelação entre o cristianismo e a mulher. 

A cultura do estupro vem aí.

Por ser um tema mais complexo e precisar de abordagem mais profunda, falarei sobre a Revolução Sexual e os métodos de controle de natalidade — talvez — futuramente em outra thread ou artigo. É isto. Salve Maria!

7- Recomendações da autora

• A mulher eterna – Gertrud von Le Fort

• A Mulher Forte – Mons. Landriot

• Sexo privilegiado – Martin Van Creveld ( Abordagem histórica interessantíssima, tem em pdf)

• O privilégio de ser mulher – Alice von Hildebrand ( esse é obrigatório para todas as “feministas cristãs”) 

• O que há de errado com o mundo – GK Chesterton• Feminismo – Perversão e subversão – Ana Caroline Campgnolo. ( Resumo muito pertinente de todas as — não —conquistas do feminismo, e a revolução sexual feminista)

• A Mulher no Tempo das Cruzadas – Régine PernoudA Mulher no tempo das catedrais – Régine Pernoud. 

• A vida na Sarjeta – Theodore Dalrymple

• A Nossa Cultura – ou o que restou dela – Theodore Dalrymple