Estima-se que hoje em dia existam quase 5,9 mil moedas virtuais no mundo cibernético. As criptomoedas, que surgiram a partir de diferenciais como a descentralização, o anonimato e o custo zero de transação em sua maioria, já se mostram uma ameaça forte ao sistema financeiro tradicional, alerta o ex-diretor de Política Monetária do Banco Central Aldo Luiz Mendes. Apesar disso, ele lembra que, por não serem emitidas por autoridade central, nem serem controladas ou fiscalizadas, as moedas virtuais têm grande risco reputacional.

“O anonimato das moedas dessa natureza traz risco reputacional e dificuldades com relação ao programa de prevenção à lavagem de dinheiro. Não há como rastreá-las, e elas estão sujeitas a ataques cibernéticos. Além disso, elas têm dificuldade de aceitação, porque é um universo pequeno que negocia com isso. Como reserva de valor, elas são extremamente arriscadas”, opina.

Para ele, as criptomoedas podem até vigorar no futuro, entretanto, elas não se provaram substitutas da moeda convencional por enquanto. “Basta ver a volatilidade (ARTE) que a bitcoin tem oferecido, por exemplo. É uma loucura, uma montanha-russa. As criptomoedas enfrentam dificuldade para cumprir papéis tradicionais das moedas físicas. Sem contar que as moedas virtuais têm um defeito no DNA: são anárquicas. Ou seja, não têm nenhum controle central”, destaca.

Mendes também se mostrou cauteloso quanto à tecnologia que permitiu a criação das criptomoedas, a blockchain. A complexa tecnologia de dados do mecanismo é que garante que as transações sejam confiáveis, pois ele é fundamentado em um banco de informações que armazena o histórico de transações por uma grande comunidade de usuários espalhados ao redor do mundo, e não em local único. O sistema promete revolucionar a validação de contratos e criar identidades digitais.

“Com certeza, a blockchain é a tecnologia que veio para ficar. Mas temos que lembrar que, quando saímos dos processamentos de máquinas de grande porte para a nuvem, isso gerou problemas seriíssimos para as empresas. A IBM teve de se reinventar em um espaço de 10 anos. Portanto, a blockchain desafia o que temos hoje em termos de distribuição de tecnologia”, frisa.

Libra

A partir do ano que vem, mais uma moeda digital deve entrar em vigor: a Libra. Idealizada pelo Facebook, que buscou parceria de 27 empresas — como a bandeira de cartões de crédito Visa, o aplicativo de transporte Uber e o sistema de pagamento digital Mercado Pago —, a libra será utilizada, em um primeiro momento, na própria rede social, que conta com 1,7 bilhão de usuários. O plano dos criadores da moeda digital é fazer com que a libra seja diferente das demais criptomoedas, ao garantir que o valor dela seja sempre parelho aos de ativos como o Tesouro americano ou ao dólar e ao euro.

“Também há a particularidade de que ela quer abrir mão de ser uma moeda anárquica. Os idealizadores querem que seja regulada, neste início. Para atrair 1,7 bilhão de pessoas, eles acreditam que é necessário haver regularização”, observa Mendes. “É um projeto ambicioso. Muitos dos usuários do Facebook estão fora do sistema financeiro, pois são pobres e teriam de pagar mais caro pelos serviços. Então, essas pessoas serão trazidas para dentro da libra. Essa moeda, com certeza, será uma grande ameaça aos métodos financeiros tradicionais”, completa.

Para Mendes, o Banco Central precisa investir na ampliação do sistema financeiro, como a ação regulatória que normatiza novos métodos de pagamento. Nos próximos anos, ele aconselha o banco a elaborar um sistema de pagamentos instantâneos, em que qualquer pessoa possa fazer transferências por meio do celular, sem a necessidade de aplicativos e com cobranças de tarifas mais amenas. “É um projeto que o BC precisa colocar em marcha e que pode funcionar como disruptivo ao sistema de cartão de débito. As barreiras tecnológicas estão caindo rapidamente e está ficando mais barato fazer isso. Um órgão como o BC, ao assumir a gerência e a governança desse sistema, vai permitir que mais pessoas sejam integradas ao sistema formal de finanças”, pontua.

Fonte: Correio Braziliense