Quando o Facebook revelou sua criptomoeda, a Libra, ele disse explicitamente que a iniciativa tinha como objetivo abordar os problemas enfrentados pelos não-bancarizados do mundo: os 1,7 bilhão de pessoas sem uma conta bancária. Além de enfrentar inconveniências, essas pessoas geralmente pagam mais do que os custos de serviços financeiros, como transferências bancárias ou cheques especiais.

Este é um mercado potencial muito grande para o Facebook, por isso não surpreende que ele tenha como alvo a oportunidade. Mas a criptomoeda poderia realmente transformar o acesso a serviços financeiros para aqueles que estão atualmente excluídos? Existem razões para levantar sérias dúvidas.

Em todo o mundo, as principais razões pelas quais as pessoas dão por não ter uma conta bancária é que elas não têm dinheiro suficiente, não vêem a necessidade de uma conta, acham que é muito caro ou que outro membro da família já tem uma. Não ter a documentação correta também é uma barreira, assim como a desconfiança no sistema financeiro.

Mas as barreiras específicas à inclusão financeira variam significativamente por região e geralmente são uma combinação de fatores sociais e econômicos. Por exemplo, embora o custo seja uma grande barreira na América Latina, a falta de documentação é o grande problema no Zimbábue e nas Filipinas.

Isso dificulta que qualquer intervenção seja uma solução para esse enorme grupo de pessoas. É preocupante que o “whitepaper” do Facebook, que descreve o Libra, realmente não se envolva com esses problemas ou diga como planeja superá-los.

Confiança nas instituições

A confiança das pessoas nas instituições pode ser muito importante para influenciar o grau em que elas usam seus serviços.

As pessoas são mais propensas a escolher algo familiar sobre algo novo. Como a Libra será uma nova moeda que depende de carteiras digitais e foi construída com a tecnologia blockchain online, não é novidade. A confiança inspiradora é, portanto, provavelmente um grande desafio.

E simplesmente contratar alguém para uma conta – seja uma conta bancária ou uma carteira digital – é apenas parte do desafio de inclusão financeira.

Na Índia, 190 milhões de pessoas ainda não têm contas bancárias, mas a porcentagem da população que possui contas aumentou de forma constante para 80%. Em 2017, no entanto, quase metade de todas as contas bancárias no país não tinham tido nenhuma atividade durante todo o ano anterior. Uma das razões é a alfabetização financeira, que permanece baixa tanto na Índia quanto em muitos outros países em desenvolvimento. Muitas pessoas na Índia disseram que simplesmente desconhecem os diferentes benefícios de uma conta bancária, como cheque especial ou sistemas de crédito.

Cerca de 62% dos sem-bancos do mundo receberam apenas uma educação de nível primário ou menos, e nos países mais pobres a proporção é quase certamente maior. Esperar que essas pessoas façam conversões de moeda complexas em uma nova moeda virtual é pedir muito.

Em primeiro lugar, há necessidade de medidas e iniciativas de alfabetização financeira que visem motivá-los a usar os serviços disponíveis. Sem esse suporte adicional, há um forte risco de que o Facebook tenha um grande número de inscrições, mas taxas muito baixas de transações das pessoas mais necessitadas.

Mundo grande

Apenas alguns dias após o anúncio do Facebook, Libra tem enfrentado forte pressão de reguladores e legisladores em todo o mundo. Há muita preocupação com essa proposta de mudança de poder dos bancos centrais para uma corporação privada.

Mas, além de questões sobre a ética da privacidade de dados ou a criação de uma moeda supranacional, Libra enfrenta uma importante questão prática. Por um lado, não está claro como um modelo como Libra, onde presumivelmente haverá pouca ou nenhuma presença física em muitos países, iria interagir e aderir aos regulamentos locais.

Por outro lado, se ele estiver de acordo com os padrões locais de cada país, não está claro como ele vai superar desafios como contratar pessoas e requisitos rígidos de documentação. Será que realmente será possível servir melhor aqueles sem bancos do que os provedores locais que já estão acostumados com os desafios naquele mercado específico?

Empreendedores e empresas podem começar com um problema e pensar na melhor maneira de resolvê-lo; ou podem começar com uma solução e encontrar o maior e melhor problema que possa resolver. Não estou convencido de que a Libra seja uma boa jogada em qualquer direção. O Facebook tem uma enorme quantidade de trabalho para adaptar sua solução para se adaptar melhor ao problema ou precisa redefinir o problema que está tentando corrigir.


Escrito por: Kamini Gupta
Tradução por: João Gabriel (@jgcastro1985
Revisão por: Paulo Droopy (@PauloDroopy)

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