A Primavera Árabe foi um movimento de contestação nos países árabes, caracterizado pelas ondas de protestos e manifestações a favor da democracia, melhores condições de vida, mais liberdade individual e pelo fim de ditaduras no Oriente Médio e no Norte da África [1]. Os primeiros protestos foram realizados em dezembro de 2010, após o suicídio do jovem tunisiano, Mohamed Bouazizi. O movimento prossegue ativo e, exatamente hoje, completa nove anos.

Os países de língua árabe possuem um longo histórico de Estados totalitários [2], que possuem características específicas de pensamento e organização político-social [3]. Os cargos de chefe de Estado (qā’id, em árabe) eram monopolizados por uma única pessoa, que ocupava a liderança de um país por anos, formando ditaduras repressivas e sangrentas. Na Tunísia, onde se iniciaram os protestos, Zine El Abdine Ben Ali passou 24 anos no poder, sendo deposto apenas quando a revolta popular tomou proporções suficientes para instaurar medo nas autoridades [4].

Um dos exemplos mais conhecidos do terror das ditaduras árabes foi o governo de Muammar al-Kaddafi, o líder não-monárquico que permaneceu por mais tempo no poder. Seu mandato foi de 42 anos (1969-2011) [5]. Após a queda do regime Kaddafista, diversos crimes cometidos por Muammar e seus companheiros de governo foram revelados. Dentre os crimes, estavam:

  • Abusos sexuais chamados de “Harém do Kaddafi“, que foram cometidos pelo ditador líbio contra mulheres, homens e algumas crianças, como demonstra um dos relatos documentado no livro “Gaddafi’s Harem: The Story of a Young Woman and the Abuses of Power in Libya“, por Annick Cojean;
  • Expulsão de judeus [6], ingleses, italianos [7] e americanos através das tendências pan-arabistas e antiocidentais, sem que tivessem cometido algum tipo de crime. As propriedades de judeus e italianos foram confiscadas pelo Estado;
  • Petição a seus defensores, por meio da televisão estatal, para que saíssem às ruas e praticassem espancamento contra manifestantes em fevereiro de 2011;
  • Atentados contra os direitos humanos, no geral [8];

A repressão e a violência são traços comuns do sistema socialista árabe-islâmico, ideologia da qual Muammar era adepto. O ditador líbio criou o neologismo “Jamahiriya“, apresentado em sua obra alcunhada de “Livro Verde”. O termo descreve a ideologia política e econômica da qual ele seguia, podendo ser traduzido como “Estado das massas”, em referência ao termo “Estado popular” presente no nome das extintas Repúblicas Soviéticas [9]. No segundo capítulo do Livro Verde, intitulado “A Solução do Problema Econômico: Socialismo”; Kaddafi deixa explícita sua opinião sobre o método socialista, do qual acredita que seja a resposta aos problemas econômicos do país. O termo passou a ser usado no nome oficial do país em todo o período da ditadura, em 1986, o país tornou-se “Grande Jamahiriya Árabe Popular Socialista da Líbia“.

Muammar foi morto em um confronto militar travado durante a guerra civil da Líbia, que surgiu por conta do conflito entre o Estado líbio e manifestantes anti-ditadura, influenciados pelas ideias da Primavera Árabe. O corpo de Kaddafi, já morto e ensaguentado foi exibido como troféu por rebeldes, após um evento de perseguição conhecido como “batalha de Sirte“. O ato foi filmado em um vídeo amador e serviu para comprovar a morte do ditador.

A violência e terror passados pelo falecido líder, evidenciaram a instabilidade social e revolta da qual os ditadores temiam. Em 27 de fevereiro de 2012, Alih Abdullah Saleh cedeu o cargo de presidente do Iêmen ao seu sucessor e atual presidente do país, Abedrabbo Mansour Hadi, dando fim ao governo de 35 anos. Saleh foi pressionado a deixar a liderança do país após os protestos da Primavera Árabe terem iniciado em território iemenita. Os manifestantes protestavam contra o nepotismo bruto, sistema de clientelismo (troca de favores ou bens materiais por apoio político, privilegiando uma parcela da população), corrupção política e desemprego. O Iêmen é o país mais pobre do mundo árabe. Em 2011, cerca de 23 milhões de iemenitas viviam abaixo da linha da pobreza absoluta, e, até os dias atuais, um terço da população sofre de fome crônica, sendo a situação inópia o principal motor dos protestos no país.

Outros chefes de Estado foram depostos em consequência da Primavera Árabe, como Omar al-Bashir no Sudão e Nouir al-Malik no Iraque, que foi primeiro-ministro até 2014. Outro caso expressivo foi a Revolução Egípcia de 2011, iniciado no dia 25 de janeiro, sendo conhecido como “Dia da Ira”. Os protestos lutavam contra a violência do regime egípcio, a censura e as condições insalubres de vida. A revolução levou 1 milhão de egípcios à Praça Tahrir exigindo a renúncia de Hosni Mubarak, após 18 dias de protestos intensos no país, Hosni renunciou o cargo de presidente, finalizando 30 anos de mandato (1981-2011), marcados pela censura, enriquecimento indevido e corrupção. Em 2010, a Transparência Internacional em seu Índice de Percepções de Corrupção, classificou o Egito na posição 98 de 178 países, com uma pontuação de 3.1 (onde 0 significa que um país é percebido como altamente corrupto e 10 significa que um país é percebido como muito honesto).

As revoltas nos países árabes teriam sido mais tardias se Mohamed Bouazizi não tivesse cometido suicídio. O jovem tunisiano perdeu o pai aos 3 anos de idade, e começou a trabalhar desde os 10 anos para ajudar no sustento da família. Bouazizi era formado em engenharia, mas devido a situação miserável da Tunísia, não conseguia emprego formal, recorrendo ao comércio informal de frutas e legumes (conhecido no Brasil como “camelô”). Autoridades confiscaram a pouca mercadoria de Mohamed, alegando ser ilegal a venda ambulante no país. Bouazizi foi até a sede do governo regional tentar reverter a situação com o governador. Uma funcionária cuspiu-lhe, deu-lhe um tapa no rosto, confiscou sua balança e jogou suas frutas no lixo, em seguida, o governador disse que não iria conversar com ele. Completamente desolado, mandou uma última mensagem para a mãe pelo Facebook, pedindo desculpas por não ter mais esperanças na humanidade, comprou diluente e ateou fogo em si, na frente do prédio do governo regional. Mohamed teve 99% do corpo queimado, e morreu dia 4 de janeiro de 2011. A revolta popular perante a atitude desesperada de Mohamed culminou na Revolução de Jasmim, que inspirou o restante da população com situações parecidas ou igualmente aborrecidos por algum tipo de autoritarismo. Como resultado, a Revolução de Jasmim inspirou o restante dos países árabes.

Nas palavras da sociedade árabe, “a Primavera Árabe foi a resposta do povo contra os faraós”, em referência a história do Antigo Egito. O Oriente Médio continua tendo diversos problemas para com o direito de propriedade e liberdades fundamentais, isso é verdade, mas a Primavera Árabe foi e continua sendo, acima de tudo, uma forma da população demonstrar que está insatisfeita com suas respectivas ditaduras. O surgimento de um movimento assim, representa a não-compactação das sociedades com as ações indevidas dos governos. O Oriente Médio esteve em constante guerra, mas dessa vez, o mundo inteiro viu que a população mourisca não admitirá uma vida a menos.

“Quem matar uma pessoa, sem que esta tenha cometido homicídio ou semeado a corrupção na terra, será considerado como se tivesse assassinado toda a humanidade.”
— Alcorão: Surah Al-Ma’ida [5:32]

Referências bibliográficas

[1]: Arab Spring. Disponível em: <https://www-history-com.cdn.ampproject.org/v/s/www.history.com/.amp/topics/middle-east/arab-spring?usqp=mq331AQCKAE%3D&amp_js_v=0.1#aoh=15766788753663&referrer=https%3A%2F%2Fwww.google.com&amp_tf=Fonte%3A%20%251%24s&ampshare=https%3A%2F%2Fwww.history.com%2Ftopics%2Fmiddle-east%2Farab-spring>. Último acesso em 18 dez 2019.

[2]: CARVELLI, Urbano. A democracia nos estados islâmicos: variáveis determinantes da compleição no limiar do século XXI. Revista de informação legislativa: v. 49, n. 194 (abr./jun. 2012). Disponível em: <https://www2.senado.leg.br/bdsf/item/id/496585>. Último acesso em 18 dez 2019.

[3]: BUSSUNDA. Os árabes e o Islamismo. Mundo História. Disponível em: <https://www.mundoedu.com.br/uploads/pdf/53e12b54a1296.pdf>. AFLAK, Michel. On Socialism. Albaath. Disponível em: <http://albaath.online.fr/English/Aflaq-03-on%20socialism.htm>. Último acesso em 18 dez 2019.

[4]: Tunisia: President Zine al-Abidine Ben Ali forced out. Disponível em: <https://www.bbc.com/news/world-africa-12195025>. Último acesso em 18 dez 2019.

[5]: Muammar al-Qaddafi. Biography. Disponível em: <https://www-biography-com.cdn.ampproject.org/v/s/www.biography.com/.amp/political-figure/muammar-al-qaddafi?usqp=mq331AQCKAE%3D&amp_js_v=0.1#aoh=15766806939917&referrer=https%3A%2F%2Fwww.google.com&amp_tf=Fonte%3A%20%251%24s&ampshare=https%3A%2F%2Fwww.biography.com%2Fpolitical-figure%2Fmuammar-al-qaddafi>. Último acesso em 18 dez 2019.

[6]: ROUMANI, Maurice M. The Jews of Libya: Coexistence, Persecution, Resettlement. Sussex Academic, 2009. Disponível em: <https://amzn.to/2PZjPHD>.

[7]: JOHN, Ronald Bruce St. Historical Dictionary of Libya, Rowman & Littlefield Publishers, 2014, p.173. Disponível em: <https://amzn.to/38RnUq9>. HUSSEIN, Muhammad. Remembering the death of Muammar Gaddafi. Middle East Monitor. Disponível em: <https://www-middleeastmonitor-com.cdn.ampproject.org/v/s/www.middleeastmonitor.com/20191020-remembering-the-death-of-muammar-gaddafi/amp/?usqp=mq331AQCKAE%3D&amp_js_v=0.1#aoh=15766810272703&referrer=https%3A%2F%2Fwww.google.com&amp_tf=Fonte%3A%20%251%24s>. Último acesso em 18 dez 2019.

[8]: Revuelta popular en Libia. El Mundo. Disponível em: <https://www.elmundo.es/elmundo/2011/graficos/feb/s4/revuelta_popular_libia.html>. Último acesso em 18 dez 2019.

[9]: Translation and Meaning of جماهيرية in English Arabic Terms Dictionary. Disponível em: <https://www.almaany.com/en/dict/ar-en/%D8%AC%D9%85%D8%A7%D9%87%D9%8A%D8%B1%D9%8A%D8%A9/>. Último acesso em 18 dez 2019.


Escrito por: Nunu Astghkian (@capitaliq1)
Revisado por: Laís Ribeiro (@laiscapitalisz)