Sigmund Freud

Contexto 

No século XlX, a psicologia formalizou-se como uma ciência, onde seu dever se tornou analisar a consciência humana de um adulto normal. Considerando que a consciência era estreitamente constituída por elementos estruturais ligados aos órgãos dos sentidos. As experiências poderiam ser resumidas como a mistura de sentimentos elementares, imagens e sensações. Sendo assim, o trabalho da psicologia era descobrir os elementos básicos da consciência e determinar como eles formavam compostos. Conheça as 3 grandes forças da psicologia.

Vários questionamentos e ataques contra essa psicologia vieram com o seu surgimento, protestos sobre diversas posições, por uma variedade de razões, foram colocados em debate. Em meio a esses ataques, surge um que se destacou dos demais pela sua singularidade, que é a primeira teoria sistemática, a teoria da personalidade de Sigmund Freud, a psicanálise.  

Surgimento da psicodinâmica e a psicanálise 

A primeira teoria psicodinâmica é a psicanálise. As abordagens psicodinâmicas acreditam que nossa personalidade é movida por forças e conflitos internos, que acabam determinando os comportamentos, as pessoas tem pouco conhecimento e não tem controle sobre essas forças. Contudo, diferentes de outras abordagens psicodinâmicas, a psicanálise tem como ênfase o determinismo psíquico, as pulsões inatas, a mente inconsciente e o comportamento normal e anormal. 

Como médico neurologista, Freud tratava mulheres histéricas por meio da hipnose. Mas por não ver grandes resultados, criou e adotou a técnica da associação livre, cujo o objetivo, é deixar o paciente dizer tudo o que lhe vier à sua mente, incluindo relatos de sonhos, mesmo que não fizesse sentido lógico no que estava sendo dito. Alegando que esse novo método não trazia resultados parciais e transitórios como a hipnose, explicando mais profundamente sobre essa troca de técnicas, em seu texto “O método psicanalítico”, de 1904. 

Por meio de seu trabalho clínico com pessoas que sofriam problemas emocionais, Freud foi desenvolvendo sua teoria da personalidade com base nas suas observações. Apesar de Freud se considerar um empirista, ainda mais por ter começado sua carreira pela anatomia, sua teoria não tem ligação direta com o método experimental científico, sendo considerada não-científica por uma visão de ciência naturalista. Uma teoria baseada nas estruturas e forças do inconsciente é impossível de ser comprovada em laboratórios e seus testes de validação. O que não impede, nos dias de hoje, que a psicanálise sirva como um método de pesquisa quantitativo e qualitativo. O foco de Freud não estava predição, e sim, na explicação após o fato, na “pós-anunciação”. Ele observava fenômenos e queria dar explicações para eles e, por conta disso, criou o aparelho psíquico como modo de explicar o sujeito e seus componentes mentais, emocionais, físicos, comportamentais e o porquê respondem de determinadas formas. 

A psicanálise foi o primeiro método a dar explicações sobre diversos eventos fora de uma visão espiritual e mística. Trouxe ao debate, novos questionamentos e perguntas que mudaram o ramo do estudo do ser humano. Por isso, além de tudo, a psicanálise é valorizada como método de análise do sujeito e do mundo. Até hoje ela é usada em outras áreas do conhecimento, como as ciências humanas, como método de investigação para entender mais o que nos cerca. 

“A intenção é prover uma psicologia que seja ciência natural: isto é, representar os processos psíquicos como estados quantitativamente determinados de partículas materiais especificáveis, tornando assim esses processos claros e livres de contradição” (FREUD, 1985/1996, p.347) 

Apesar de Freud, em sua época, querer que a psicanálise no futuro fosse considerada uma ciência natural, alguns dos seus seguidores, como Jacques Lacan e sua teoria dos discursos, afirma que isso não é mais necessário insistir no desejo de Freud em transformar a psicanálise em uma ciência, já que ela por si só já é uma nova área do conhecimento e o próprio nascimento desta marca o rompimento de seus saberes com as ciências naturais.  

“A psicanálise – eu o disse e eu o repeti recentemente – não é uma ciência. Ela não tem seu estatuto como ciência e não pode senão aguardá-lo, esperá-lo. Mas é um delírio do qual nós esperamos que ele porte uma ciência. É um delírio do qual esperamos que se torne científico. (…) Podemos aguardar muito tempo, eu digo porquê, simplesmente porque não há progresso e aquilo que esperamos não é forçosamente aquilo que recolhemos. É um delírio científico portanto, e esperamos que ele porte uma ciência, mas, isso não significa que jamais a prática analítica portará esta ciência.” (LACAN, 11/01/1977, p.52) 

Conceitos Principais 

Determinismo Psíquico: nada acontece por acaso. Nenhum acontecimento psíquico acontece de modo aleatório e todos estão determinados por acontecimento psíquicos anteriores. 

Aparelho psíquico: Freud se referiu ao termo aparelho psíquico como uma organização psíquica divida em instâncias (ou sistemas) psíquicas. Cada uma com funções específicas, porém interligadas entre si. Juntas com outros componentes da psicanálise, explicam o comportamento humano. Dois modelos foram descritos por Freud: O Modelo topográfico e o estrutural. 

O aparelho psíquico e seus modelos:  

Modelo topográfico 

Modelo topográfico de Freud

Freud comparou a mente a um iceberg, onde o consciente seria a parte visível o inconsciente toda a estrutura “escondida”. Enquanto o pré-consciente se encontra entre os dos estados – entre a consciência e a inconsciência.  

Consciente: tudo o que estamos cientes no agora, nesse dado momento. Representa a capacidade de perceber e utilizar o conteúdo mental, funcionando de acordo com as normas sociais 

Pré-Consciente: onde ficam localizados conteúdos que contém fácil acesso à consciência, entretanto, que no momento, por não estarem sendo utilizados, não estão na consciência e nem foram recalcados para o inconsciente.  Nomes, endereços, lembranças e outros conhecimentos armazenados se encontram aqui. Também funciona como uma “peneira” para as informações que passarão da consciência para o inconsciente e vice-versa. Algumas pessoas se referem ao pré-consciente como “subconsciente”, mas Freud nunca utilizou esse termo. 

Inconsciente: depósito de desejos, impulsos e memórias inacessíveis. Tudo o que vivemos e sentimos em relação a esses eventos se encontra aqui. Para Freud, essa é a parte mais importante da mente, já que a somatória de tudo que vivemos resultaria em nossos comportamentos. Funciona por meio de leis próprias, que são incompreensíveis por meio da racionalização consciente.  

Modelo estrutural: 

Modelo estrutural de Freud

ID: seria o sistema primário da personalidade e onde se originam as outras duas estruturas (ego e superego). O ID seria o nosso lado animal, nosso lado instintivo e inconsciente que está o tempo todo tentando suprir os desejos básicos. Age com base no princípio do prazer – a busca por gratificação o tempo todo. 

Ego: o lado racional da personalidade. Este é responsável por adequar o ID ao mundo real, já que não é possível atender os instintos o tempo todo e não é possível viver em sociedade se esses instintos não forem controlados. Sendo assim, o ego tem o poder de ação sobre o que vai ser feito e como vai ser feito nas determinadas situações da vida. 

Superego: ele é o representante interno dos valores tradicionais e dos ideais da sociedade conforme interpretados para a criança pelos pais e impostos por um sistema de recompensas e de punições 

Dinâmica da personalidade:

A meta fundamental da psique é manter e recuperar, quando perdido, um nível aceitável de equilíbrio dinâmico que maximiza o prazer e minimiza o desprazer. Quem busca esse equilíbrio é o ego, que a todo momento entra em conflito com o ID e seus desejos animalescos, e o superego com a sua cobrança social e moral sobre o indivíduo. Esse constante conflito entre as 3 forças é o que gera o sofrimento psíquico, e o trabalho da psicanalise, como terapia, é tornar o ego uma estrutura mais forte que os outros dois, como forma de diminuir o sofrimento interno e estar mais próximo do equilíbrio.  

“é, na verdade, fortalecer o ego, fazê-lo mais independente do superego, ampliar seu campo de percepção e expandir sua organização, de maneira a poder assenhorear-se de novas partes do ID” (1933, livro 28, p. 102 na ed. bras.).

Energia psíquica:  

Freud divide o instinto em duas partes:  

Instinto de vida: serve ao propósito da sobrevivência e propagação da espécie. Sentimentos como amor, felicidade, alegria estão ligados a esse instinto. O nome da energia que rege esse instinto é a libido, e é o que motiva as pessoas terem prazer em fazer as coisas que gostam e prazer em viver de modo geral. 

Instinto de morte/agressivo/destrutivo: para Freud, todos temos o desejo inconsciente de morrer. A morte representa estabilidade e tranquilidade que existe no mundo inorgânico e que não existe no mundo de seres orgânicos. Comportamentos e sentimentos autodestruitivos e agressivos, seriam representações desse desejo de morte inerente. Freud não deu um nome para a energia que rege esse instinto. 

Ambos instintos e seus derivados podem se fundir, neutralizar, trocar de lugar um ao outro e o tempo todo isso acontece com o nosso organismo. O ato de comer, por exemplo, representa uma fusão dessas duas forças, onde o instinto de vida está se manifestando por obter prazer pelo alimento enquanto o instinto agressivo se manifesta no ato agressivo de morder, mastigar, engolir e destruir o alimento. 

 

Fases psicossexuais do desenvolvimento  

Ao longo de todo o desenvolvimento humano, desde um bebê até um adulto, ocorrem mudanças no que é desejado pelo o indivíduo e em como esse indivíduo vai suprir os seus desejos. As modificações nas formas de gratificação e as áreas físicas de gratificação são os elementos básicos na descrição de Freud das fases de desenvolvimento. O termo fixação é usado para descrever o que ocorre quando uma pessoa não progride de uma fase do desenvolvimento para a outra, permanecendo muito envolvida com uma fase especifica. Além disso, para Freud, os primeiros anos de vida são decisivos para a formação da personalidade  

Fase Oral (0-2 anos): a principal fonte de prazer derivado da boca é o comer. Além disso, o prazer do bebê não está apenas no ato de comer, mas por meio de atividade como deglutição e sucção. Os sentimentos de dependência surgem durante essa fase, onde o sentimento de dependência de sobrevivência, que existe por ser completamente frágil e ligado a mãe para a sua sobrevivência física, pode persistir durante a vida toda e ir para outras áreas da vida, o que torna a pessoa ansiosa e insegura. Uma fixação na fase oral também pode trazer problemas com beber, comer, fumar ou roer as unhas. 

Fase Anal (2-3 anos): o foco principal desse período é o controle dos movimentos do intestino e bexiga, ou seja, é o período no qual se aprende a controlar as necessidades corporais. O ato de aprender a evacuar dá a noção de que tem momentos que precisamos lidar com um desprazer (segurar as fezes) para que no futuro sejamos recompensados com um prazer (eliminar as fezes), o que nos leva a desenvolver sentimentos de independência, realização e até responsabilidade, o que pode levar no futuro, um fator para que uma pessoa seja criativa e produtiva, por exemplo. Mas se o ato de ensinar a evacuar for negativo, pode acarretar em uma fixação nessa fase, o que pode levar a avareza, ataques de raiva, desorganização (ou organização excessiva, como o TOC) e a uma personalidade que aparenta estar confusa o tempo todo e nada está bom. 

Fase Fálica (4-6 anos): o foco da libido agora se encontra nas genitais. Nesse período, a criança começa a perceber que as diferenças de gênero e que ela possui (ou não) um pênis. Segundo Freud, os sentimentos de atração “sexual” começam nessa fase, e os primeiros alvos dessa atração são os pais, esse acontecimento é conhecido como Complexo de Édipo. Na teoria freudiana, o complexo de édipo seria o período onde o menino começa a sentir atração pela sua mãe, enquanto olha o pai como um rival que vai machucá-lo caso tente roubar sua mulher. Esse medo leva a ansiedade de castração, nesse período, a criança reprime seus sentimentos pela mãe por medo de perder seus órgãos genitais e, após isso, o processo de repressão diminui a hostilidade que o menino sente pelo seu pai, passando a admirá-lo e se identificar com ele, e então os sentimentos incestuosos com a mãe são encerrados.  

O Complexo Electra é o “complexo de édipo versão feminina”, com a diferença que as meninas passam pela inveja do pênis ao invés da ansiedade de castração, pois se sentem inferiores por não terem um e buscam compensar a falta do órgão, o que rendeu a Freud para muitos o título de machista e sexista. Apesar de seus seguidores não interpretarem dessa forma. 

Nesse período, o superego é completamente formado e os valores morais e éticos são absorvidos pela criança. Um mal desenvolvimento nessa fase pode resultar em problemas sexuais no futuro, como os ninfomaníacos, e em problemas de personalidade em relação a moral e ética, como o transtorno de personalidade narcisista.  

Período de latência (6- começo da puberdade): esse período não necessariamente é uma fase do desenvolvimento, mas sim um período em que a libido não se encontra em zonas erógenas. A libido então se volta para o social, onde a criança começa então a desenvolver habilidades sociais, viver em harmonia com colegas da sua idade, respeito aos mais velhos, criação de hobbies e gostos pessoais. Sendo também período em que o desenvolvimento da comunicação, autoconfiança e convívio em sociedade são desenvolvidos. Uma fixação leva a problemas de autoestima, maturidade e relacionamentos sociais. 

Fase Genital (puberdade – restante da vida): a fase final do desenvolvimento biológico e psicológico. O início da puberdade faz com que a energia sexual volte aos órgãos sexuais, mas agora, com uma sexualidade desenvolvida por completo. As pessoas a partir daqui buscam satisfazer suas necessidades sexuais e interpessoais. Com os interesses sexuais surgindo, a identidade sexual do indivíduo também é finalmente finalizada. Com o final dessas fases por completo, a pessoa se torna um adulto capaz de viver em harmonia e equilíbrio em diversas áreas de sua vida. 


Revisado por: Paulo Costa (@PauloDroopy)