Escrito por: Pedro M. Biffi (@pedrombiffi)
Revisado por: Paulo Costa (@PauloDroopy)


A análise do comportamento é uma ciência neta do behavorismo clássico e filha do behavorismo radical de Burrhus Frederic Skinner, sendo esse último, a base filosófica dessa psicologia. A tarefa de uma análise científica do comportamento, que é identificar relações entre os comportamentos dos indivíduos e seus determinantes ambientais. Chamamos esse tipo de identificação de relações de análise de contingências ou análise funcional.

Leia mais sobre as três grandes forças da psicologia aqui.

O objetivo, em uma análise funcional, consiste basicamente em “encaixar” o comportamento em um dos paradigmas e encontrar os seus determinantes. Uma vez que encontremos os determinantes do comportamento, podemos predizê-lo (prever a sua ocorrência) e controlá-lo (aumentar ou diminuir deliberadamente a sua probabilidade de ocorrência).

É importante destacar que, controlar o comportamento, significa tornar a ocorrência de um comportamento mais ou menos provável, e não obrigar alguém a fazer algo. E o tempo todo fazemos isso e o ambiente faz isto conosco, como veremos ao longo desse artigo.

Esta é a essência da análise de contingências: identificar o comportamento e as consequências; alterar as consequências; ver se o comportamento muda. Análise de contingências é um procedimento ativo, não uma especulação intelectual. É um tipo de experimentação que acontece não apenas no laboratório, mas, também, no mundo cotidiano. Analistas do comportamento eficientes estão sempre experimentando, sempre analisando contingências, transformando-as e testando suas análises, observando se o comportamento crítico mudou… Se a análise for correta, mudanças nas contingências mudarão a conduta; se for incorreta, a ausência de mudança comportamental demandará uma abordagem diferente. (Sidman, 1995, pp. 104-105)

E vamos destacar para o leitor que não vamos aqui contemplar a história, embasamento teórico da análise do comportamento (Behavorismo Radical) e do teórico que formulou ela (B.F. Skinner). Vamos dedicar um artigo exclusivo para esses tópicos, mas, por agora, vamos focar nos princípios básicos dessa abordagem. E ao longo da leitura, em alguns momentos vamos representar a palavra comportamento apenas com a letra ”C”.

l – Aspectos fundamentais

1. O que é comportamento? Pode ser definida como a descrição da relação entre eventos ambientais (denominadas de estímulo) e as atividades do organismo (denominadas de respostas).

2. O que é resposta (R)? São as atividades do organismo. A resposta é dividida em dois grupos: As respostas manifestas(públicas) e as respostas encobertas(privadas).

As respostas manifestas podem ser observadas por mais de um observador. Pense no Rock In Rio, durante o evento, você canta, dança, pula, bate cabeça etc. Tudo o que você faz, que pode ser observados pelos seus amigos e outras pessoas que estão no local, tem essa classificação de resposta.

As respostas encoberta podem ser observadas apenas pelo organismo que está se comportando, sendo assim, eventos privados. Usando o exemplo do festival, pense que você está andando e se depara com uma propaganda de uma cerveja gelada. Dependendo da sua história de vida ou seu momento atual, você pode pensar (responder enconbertamente) que ama cerveja, odeia cerveja, que a propaganda te lembrou uma história engraçada… Tantas respostas podem se manifestar, mas por conta da característica de mesma, não tem como alguém, fora você mesmo, ter acesso à elas.

3. O que é ambiente? São as situações as quais o responder acontece; tudo aquilo que pode afetar o comportamento. Ambiente é o termo usado para definir as situações nas quais o responder ocorre, assim como as situações que passam a existir após a resposta. Entretanto, não ficamos sob controle de todas as condições que antecedem o comportamento, nem das que são subsequentes. Às situações diante das quais respondemos diferencialmente, recebe o nome de estímulos (S). Assim, no conceito de ambiente estão inseridos os estímulos antecedentes (S’) e os estímulos subsequentes (S’’) a resposta.

As variáveis que podem afetar o comportamento são as variáveis mecânicas, químicas e sociais, como sons, chuva, vento, movimentos, presença de outras pessoas, fala, mudanças hormonais por conta do ciclo menstrual, etc.

esse aspectos que influenciam o comportamento podem ser vistos por terceiros (estímulos públicos) ou apenas pelo organismo (estímulos privados).

Afirmar que “duas pessoas que estão no mesmo lugar” ou “duas crianças que foram criadas na mesma casa” estão no mesmo ambiente, por exemplo, caracteriza uma compreensão estreita do conceito de ambiente e incongruente com a Análise do Comportamento. O ambiente influenciará o comportamento dos organismos de forma sutil, de modo que pequenas diferenças nessa interação resultarão em grandes diferenças em termos de comportamentos futuros. (Medeiros, 2018)

ll – História evolutiva do comportamento humano

A meta da análise do comportamento é predizer e controlar o comportamento. Mas para explicar um comportamento, devemos levar em consideração que tanto as relações que o constituem, quanto a história que produziu tais relações, sejam descritas.

Skinner (1987) menciona que o comportamento humano é produto de três histórias: filogenética, ontogenética e cultural

  • Filogenético: O ambiente atua sobre o nosso comportamento selecionando características e determinando as nossas características fisiológicas e comportamentais como espécie. Um humano, por exemplo, não tem como desenvolver o comportamento de voar, a anatomia da sua espécie não permite isso. Mas os determinantes filogenéticos podem também se dar no nível do individuo, a partir da combinação dos genes dos seus pais; Ex: Uma pessoa de baixa estatura, dificilmente conseguirá ser um jogador de basquete profissional.
  • Ontogenético: Modificação do comportamento pela interação direta com o meio durante a vida do organismo, ou seja, trata-se da aprendizagem, das relações individuais do organismo com o meio, onde o seu comportamento é modificado pelas consequências.
  • Cultural: O comportamento é determinado por variáveis culturais, ou seja, aqueles comportamentos advindos do C de outras pessoas. Aspectos como modismo, movimentos artísticos, preconceitos, ideologias, preceitos éticos e morais e questões econômicas, são exemplos de conjuntos de elementos que influenciam o comportamento do individuo. O nosso contato com a cultura, determinará quais comportamentos serão socialmente classificados como bons ou ruins, comum ou estranho, aceitável ou nojento, legal ou ilegal, etc. E com base nisso, nosso comportamento se modifica-rá. Quem viajou para outro país entende o impacto da cultura no comportamento. Mas não precisa ir muito longe, pode ser da cultura do pessoal do seu prédio, por exemplo, dar um ”bom dia!” sempre que encontra outro vizinho no elevador, o C de dar ”bom dia!” é incentivado pela cultura do pessoal que vive ali.

Os três níveis mencionados são importantes para enfatizar que as causas dos comportamentos não estão na situação imediata em que o mesmo ocorre, mas sim nas três histórias citadas. A partir disso, as relações entre estímulo (S) e resposta (R) podem ser descritas de duas maneiras:

1. Relações que envolvem apenas estímulos antecedentes e a resposta (S’ ). Chamado de comportamento respondente ou reflexo.

2. Relações que envolvem os estímulos antecedentes, a resposta e os estímulos subsequentes: (S’’) formam (S’ – R -> S’’). Chamado de comportamento operante.

lll – Comportamento respondente/reflexo

Quando o medico bate com o ”martelinho” no seu joelho, a sua perna levanta. Quando uma luz forte vem no seu olho, a pupila se contrai. Quando um som alto acontece do nada, seu coração começa a bater mais rápido (taquicardia). Essas situações representam o que chamamos de comportamentos reflexos inatos. Em todos os exemplos, aconteceu uma mudança no ambiente que produziu uma alteração no organismo.

Todos os animais possuem reflexos inatos. Faz parte do ”kit básico de sobrevivência” dos seres vivos, é uma preparação mínima que os organismos possuem para que possa interagir com o seu ambiente e tenha chances de sobreviver. Bebês humanos tem o reflexo de sucção, para que assim, consiga ter alimento, ele não aprendeu a mamar, ele já nasceu sabendo. A mesma coisa nos reflexos anteriormente citados, você não aprendeu a suar, apenas faz isso em determinadas situações pois aumenta a sua chance de sobrevivência no ambiente, por isso é chamado de inato.

Em psicologia, o termo reflexo não se refere a capacidades ou habilidades (Neymar tem reflexos rápidos para jogar futebol), mas, sim, a uma relação entre uma ação e o que aconteceu antes dela. Neste caso, o que o indivíduo fez é chamado de resposta, e o que aconteceu antes da resposta – e a produziu – é chamado de estímulo. Reflexo, portanto, é uma relação entre um estímulo e uma resposta, é um tipo específico de interação entre um organismo e seu ambiente.

lV – Contingências estímulo-resposta

Contingências são modos de descrever como o ambiente e o organismo interagem de forma condicional, podendo ser definida como uma descrição de relações condicionais entre eventos, por meio de relações do tipo: Se… Então…

Exemplo: Se uma luz forte incide sobre a retina (estímulo), então ocorre a contração da pupila (resposta).

Para medir a influência de um estímulo sobre o comportamento, precisamos analisar a intensidade do estímulo e a magnitude da resposta. Tanto o termo intensidade como o magnitude fazem referência a ”força” que o S e a R possuem. A medição da ”força” se da por meio de medição em grandezas físicas, como peso, altura, temperatura, frequência, volts, decibéis entre outros.

Voltando ao exemplo da luz na retina. A intensidade do estímulo entre a diminuição e aumento da luz ao longo do experimento poderia ser medida por diferença de potência (em watts), enquanto a magnitude da resposta pode ser medida pela diferença entre os diâmetros da pupila medidos (em milímetros). O uso de advérbios de intensidade (muito, pouco, mais, menos) não são elementos precisos e uteis para o cientista do comportamento, além de não serem medidas apropriadas para a ciência, por isso o uso de medição em grandezas físicas.

V – Leis ou propriedades do reflexo

O padrão de comportamento é uma descrição regular. As regularidades são fundamentais para a construção do conhecimento científico. Observando repetidamente a relação entre organismos e o meio ambiente, a ocorrência futura do mesmo fenômeno pode ser prevista ou até controlada.

O objetivo de uma ciência é encontrar relações regulares (constantes) entre eventos, e é isso que os cientistas que estudam e estudam o comportamento reflexo fazem: Eles tentam encontrar uma relação constante entre estímulos e as respostas que causam. Buscaram identificar relações constantes entre os estímulos e as respostas por eles eliciadas que se repetissem nos mais diversos reflexos e em diferentes espécies animais. Essas regularidades nas relações entre estímulos e respostas são chamadas de leis ou propriedades do reflexo, e vamos ver elas a seguir:

  1. Lei da Intensidade-Magnitude: A intensidade do estímulo é diretamente proporcional à magnitude da resposta. Quanto maior a temperatura(S), mais eu vou suar(R)
  2. Lei do Limiar: Para que o reflexo aconteça, é necessário uma intensidade minima para que a resposta seja produzida. É necessário uma temperatura mínima específica para que o estímulo da temperatura comece a produzir a resposta no organismo de eliciar suor.
  3. Lei da Latência: Latência é o nome do intervalo entre dois eventos. Essa lei estabelece que quanto maior a intensidade de um estímulo, menor o intervalo de tempo entre sua apresentação e sua resposta. Quanto maior a temperatura, menor é o tempo para a apresentação da resposta de suar. Intensidade do estímulo e latência da resposta são inversamente proporcionais. Mas além disso, a intensidade do estímulo também tem uma relação diretamente proporcional à duração da resposta: quanto maior a intensidade do estímulo, maior será a duração da resposta. Quanto maior a intensidade do calor, mais tempo dura a resposta de sudorese

É importante pontuar que os organismos tem um limite na produção da resposta em relação a intensidade do estímulo. Chega em um ponto, por exemplo, que a pupila não vai conseguir se contrair mais só porque a intensidade de luz sobre ela aumentou. O mesmo ocorre com a latência da resposta, a qual não continuará a diminuir mesmo que se aumente a intensidade do estímulo.

Vl – Efeitos de eliciações sucessivas

Eliciações sucessivas de uma resposta é quando um estímulo especifico, produtor de uma resposta especifica, é apresentado diversas vezes seguidas em um curto espaço de tempo. Essas eliciações produzem alterações na relação entre o estímulo e a resposta, alterando a intensidade do estímulo e a magnitude, duração e latência da resposta. Dois efeitos podem ocorrer:

  • Habituação da resposta ou Habituação: Quando as eliciações sucessivas de uma resposta fazem a mesma intensidade de estímulo produzir resposta com magnitudes cada vez menores e latências cada vez maiores. Pense em uma obra acontecendo na frente de uma escola, no começo, os barulhos atrapalha muito os alunos e os professores, mas com o passar do tempo, esses barulhos parecem atrapalhar menos a aula, as pessoas se acostumam com aqueles sons ali, esse é o efeito da habituação
  • Sensibilização da resposta ou potenciação: Quando as eliciações sucessivas de uma resposta fazem a mesma intensidade de estímulo produzir respostas com magnitudes cada vez maiores e latências cada vez menores. Folhas secas sendo pisadas do lado de fora da nossa casa a noite podem chamar mais a nossa atenção (ou seja, produzir uma magnitude de resposta maior) do que se fosse as mesmas folhas sendo pisadas no período da tarde.

Vll – Reflexos e emoções

Parte das nossas reações emocionais vem a partir de respostas reflexas a estímulos ambientais. Os organismos nascem, de alguma forma, preparados para interagir com o meio ambiente. Assim como nascemos preparados para uma contração muscular quando a superfície afiada é pressionada contra o nosso braço, nascemos preparados para certas reações emocionais quando certos estímulos surgem em nosso ambiente. A princípio, você precisa saber que as emoções não surgem do nada. Emoções ou respostas emocionais surgem devido a certos eventos ambientais. Na maioria dos casos, não sentimos medo, alegria ou raiva na ausência de eventos desencadeantes; só sentimos essas emoções quando algo acontece. Mesmo que a situação que desencadeia uma reação emocional não seja óbvia, isso não significa que ela não esteja lá, pode até ser um pensamento, memória, música, palavra, etc. Mas as nossas emoções não se limitam apenas a reflexos e a respostas fisiológicas inatas, as respostas emocionais podem ser modificadas por meio da interação do organismo com o ambiente.

Vlll – Condicionamento clássico, respondente ou pavloviano

Os reflexos inatos vieram a partir do desenvolvimento da história filogenética das espécies, mas para sobreviver, adaptar-se é preciso, e por isso temos a capacidade de criar novos reflexos. A aprendizagem de um novo reflexo é conhecida como condicionamento clássico, respondente ou pavloviano, sendo o último em homenagem ao fisiologista Ivan Petrovich Pavlov e seus estudos.

Os experimentos de Pavlov eram realizados com cães. Em estudos anteriores, foi confirmado que a apresentação de comida elicia o reflexo de salivação(S -> R). A produção e variação da saliva era analisada a partir da coleta da mesma, um pequeno corte e uma mangueira, ligava a saliva produzida pelas glândulas salivares até o coletor, e a partir disso, era registrado,analisado e comparado com as amostras anteriores. O fisiologista em meio aos seus estudos, percebeu que a partir do momento que o cachorro escutava ele chegando no laboratório, a produção de saliva já se iniciava. Curioso pelo o que estava acontecendo, decidiu estudar com cuidados esses acontecimentos.

Em seu experimento, carne e som de uma sineta entraram como estímulos, sendo a carne classificada como um estímulo incondicionado(US) e o som como um estímulo neutro(NS). A relação carne -> salivação é o já estudado reflexo inato, sendo a salivação, uma resposta incondicionada(UR). O termo incondicionado faz referência ao elementos dos comportamentos reflexos que não precisamos aprender, pois já nascemos com eles. Não aprendemos a salivar a partir do contato do alimento com a boca, apenas nascemos sabendo fazer isso. Já o estímulo neutro, é um estímulo que não está interferindo em com comportamento especifico, sendo aqui no caso, a sineta não estava interferindo no comportamento de salivar.

Ao apresentar o som da sineta antes da apresentação do alimento diversas vezes seguidas, aconteceu o emparelhamento entre o estímulo neutro e o incondicionado(carne). Após esse emparelhamento, o estímulo neutro se torna um estímulo condicionado(CS), ou seja, o cachorro desenvolveu o reflexo de salivar ao escutar o som da sineta. A salivação a partir do som da sineta não é algo que veio com o organismo, isso foi aprendido, por isso, a resposta de salivar na presença do som da sineta se chama resposta condicionada(CR) dentro dessa relação(CS -> CR).

” Um aspecto importante em relação aos termos neutroincondicionado e condicionado é que seu uso é relativo. Quando falamos sobre comportamentos reflexos, estamos sempre nos remetendo a uma relação entre um estímulo e uma resposta. Portanto, quando dizemos que um determinado estímulo é neutro (como no caso do som da sineta na situação 1 da Fig. 2.3), estamos dizendo que ele é neutro para a resposta de salivar. Quando dizemos que a carne é um estímulo incondicionado, estamos afirmando que ela é um estímulo incondicionado para a resposta de salivar. Se a resposta fosse, por exemplo, arrepiar, a carne seria um estímulo neutro. Essa forma de aprendizagem é chamada, de modo genérico, de paradigma do condicionamento respondente ” (Medeiros, 2018)

John Watson e Rosalie Rayner conduziram um experimento em que o condicionamento respondente foi utilizado em um estudo de emoções em humanos, o nome do experimento se ”caso pequeno Albert”(1920). O objetivo era verificar se um ser humano pode desenvolver medo por algo que antes não temia. O experimento foi realizado em um ambiente laboratorial controlado.

Primeiramente, foi verificado se Albert, com seus 10 meses de vida, tinha o reflexo inato de ter eliciar medo ao escutar um som estridente, e o reflexo foi confirmado, ao escutar um barulho produzido por uma martelada, Albert começou a chorar. Após a fase de testes de estímulo e respostas incondicionadas, o bebê foi exposto a um rato branco. A criança ficava olhando e até tentando tocar com o rato, concluindo que não tinha medo do rato. Na fase seguinte, o rato era exposto, e em sequência o som estridente era produzido, após repetir diversas vezes a apresentação do rato ser seguida do som, Albert começava a chorar antes mesmo do som acontecer, Albert aprendeu a ter medo do rato. O emparelhamento som-rato foi realizado e agora o rato era um estímulo condicionado para a resposta condicionada de medo.

Vídeo do experimento de Watson:

A partir da descoberta que somos condicionados e gostar ou a ter medo de algumas coisas, conseguimos compreender porque algumas pessoas emitem determinadas respostas emocionais na presença de determinados estímulos. Medo de altura, medo de barata, sadomasoquismo, ficar nervoso ao falar em público e até aquela vontade de chorar ao escutar uma música que lembra a sua ex são exemplos de comportamentos condicionados.

lX – Generalização respondente

Albert não adquiriu medo apenas do rato branco, mas também de bichos de pelúcia brancos, coelhos brancos e até a barbas brancas. O estímulo condicionado(rato) possui algumas características físicas (forma, cor, textura, etc), e aqueles estímulos que de alguma forma se pareciam com o ratinho branco, começaram a eliciar a resposta condicionada de medo em Albert, e é sobre isso que se trata a generalização respondente.

Após um condicionamento, estímulos que se assemelham fisicamente ao estímulo condicionado, podem passa a eliciar a resposta condicionada em questão, no caso de Albert, medo. A duração e magnitude da resposta eliciada vai depender do grau de semelhança entre os estímulos em questão, e quanto mais parecido, menor será a latência. Ou seja, se eu tenho medo de cachorro alemão, porque fui atacado por um, o meu medo vai ser muito grande na presença dele, afinal, ele é meu estímulo condicionado para a resposta condicionada de medo, e dependendo do quão parecido for outros cachorros comparados com o pastor alemão, maior ou menor será o meu medo na presença desses outros cães de outras raças (ou outros objetos e animais que se pareçam com um pastor alemão). A representação gráfica se chama gradiente de generalização

X – Extinção respondente e recuperação espontânea

Se o estímulo condicionado for apresentado repetidas vezes sem a presença do estímulo incondicionado, a resposta reflexa condicionada pode deixar de ocorrer. Para que um reflexo condicionado perca sua força, o estímulo condicionado deve ser apresentado diversas vezes sem o estímulo incondicionado. Voltando ao exemplo de Pavlov, ao tocar a sineta diversas vezes seguidas sem nenhuma nova apresentação da comida, a salivação só pelo som da sineta vai parar de acontecer. Esse processo chamamos de extinção operante.

Uma característica da extinção respondente é que, às vezes, após ela ter ocorrido, ou seja, após determinado estímulo condicionado não emitir mais determinada resposta condicionada, a força do reflexo pode voltar espontaneamente, o nome desse processo se chama recuperação espontânea. Digamos, que uma pessoa tenha perdido o seu medo de altura, pode acontecer que, depois de um longo período sem se expor em situações de grande altura e ela volte e se expor, ela volte a sentir um pouco de medo. A força do seu medo (magnitude da resposta) será muito menor se comparada com aquela antes do processo de extinção, mas ele ainda está ali. Mas se continuar sendo exposta em grandes alturas sem nenhum perigo, o medo voltará a diminuir e a chance de uma nova recuperação espontânea no futuro acontecer é diminuída.

Xl – Contracondicionamento e dessensibilização sistemática

É possível aprender um reflexo respondente e é possível ”desaprender” um reflexo respondente. A seguir, duas técnicas clássicas para produzir a extinção de um reflexo aprendido.

Contracondicionamento: Consiste em condicionar uma resposta contraria à aquela produzida pelo estímulo condicionado. Ex: Um empreendedor se sente muito ansioso sempre que vai fazer uma reunião com os seus fornecedores; a reunião(CS) elicia ansiedade(CR). Esse mesmo empreendedor, se sentem muito relaxado ao receber uma massagem; a massagem(CS) elicia relaxamento(CR). Se esse empreendedor, quase sempre receber uma massagem após as suas reuniões, as reuniões podem não mais eliciar a resposta de ansiedade ou eliciar respostas de ansiedade mais fracas.

Dessensibilização sistemática: Consiste em dividir o procedimento de extinção em pequenos passos. A DS tem como base a generalização respondente e dos dados que a análise do gradiente de generalização nos fornece. Voltando ao exemplo do medo de pastor alemão, uma das técnicas que podemos aplicar para ele perder esse medo, seria ir se aproximando aos poucos de objetos e animais que lembrem o estímulo condicionado de medo(pastor alemão), fazendo isso do menos parecido e que causa menos medo até o pastor alemão em si.

Para utilizar a dessensibilização sistemática, seria necessário construir uma escala crescente de estímulos de acordo com as magnitudes que produzem, a chamada hierarquia de ansiedade.

A hierarquia, portanto, envolveria uma lista de estímulos relacionados a cães, iniciando-se com aquele que eliciasse respostas de medo de menor magnitude e progredindo em escala crescente até o estímulo fóbico original, como, por exemplo:

  1. Ver fotos de cães.
  2. Tocar em cães de pelúcia.
  3. Observar, de longe, cães bem diferentes daquele que atacou a pessoa.
  4. Observar, de perto, cães bem diferentes daquele que atacou o indivíduo.
  5. Observar de longe cães similares ao animal que atacou a pessoa.
  6. Observar de perto cães similares ao animal que atacou o indivíduo.
  7. Por fim, interagir com cães similares ao animal que atacou a pessoa.

Com a hierarquia de ansiedade feita, o cliente é exposto a cada um desses estímulos, quando o estímulo daquela fase parar de causar um efeito aversivo, o próximo estímulo é exposto, até que no final, o último estímulo é um estímulo muito parecido ou até o próprio estímulo aversivo principal, aqui no caso, um cachorro da raça cachorro alemão ou o próprio pastor alemão que atacou. Esse processo que resulta na extinção gradual característica da dessensibilização sistemática.

Xll – A palavra o condicionamento respondente

Diversas palavras causam efeitos emocionais, só de falar as palavras “mãe”, “pai” e “família”, por exemplo, diversos sentimento podem invadir as pessoas, seja sentimentos bons ou ruins. Em diversas situações, as pessoas passam por condicionamento de palavras, do mesmo modo que o cão de Pavlov foi condicionado a salivar ao escutar o som especifico da sineta, somos condicionados a sentir sentimentos específicos ao escutar palavras especificas.

“É comum, por exemplo, que palavras como “feio”, “errado”, “burro” e “estúpido” sejam ouvidas em situações de punição, como uma surra ou reprimenda. Quando apanhamos, sentimos dor, choramos e, muitas vezes, ficamos com medo de nosso agressor. Se a surra ocorre junto com xingamentos (emparelhamento de estímulos), as palavras ditas podem passar a eliciar sensações semelhantes àquela que a agressão física eliciou, e o mesmo pode ocorrer com a audição da voz ou a simples visão do agressor.

Muitas pessoas conhecidas por apelidos emitem respostas de ansiedade quando são chamadas pelo próprio nome. Esse fato exemplifica o condicionamento de respostas emocionais aos estímulos verbais (palavras, nesse caso). Na infância, os pais costumam chamar seus filhos por apelidos carinhosos a maior parte do tempo, como, por exemplo, “Paulinho” em vez de “Paulo Silva”. Entretanto, quando chamam a criança para lhe repreender ou colocar de castigo, utilizam o nome próprio em vez do apelido. Esse pode ser um dos motivos pelos quais algumas pessoas relatam que “congelam de medo” quando alguém as chama pelo seu próprio nome. (Medeiros, 2018)

Um local interessante para ver esse fenômeno acontecendo é nas redes sociais, onde vemos diversas pessoas tendo os mais diversos sentimentos ao lerem e responderem a palavras como “capitalismo“, “socialismo“, “Karl Marx“, “Mises“, “gênero“, “LGBT“, “conservadorismo” etc. O que mais encontramos são diversas pessoas com discursos com grande carga emocional após lerem alguma dessas palavras no meio de um debate da internet, recorrendo a falácias como Argumentum ad hominem e apelo a emoção. Quando elas entram nesse estado, estão apenas respondendo ao estímulo que essas palavras o causam. Muita calma e paciência para conseguir lidar essas respostas emocionais…

Xlll – Fatores que influenciam o comportamento pavloviano

1. Frequência de emparelhamentos: Quanto mais frequente é o emparelhamento do estímulo incondicionado com o estímulo condicionado mais forte é a resposta condicionada, apesar de não ocorrer de forma ilimitada. Em determinados casos, quando o evento envolve um grande trauma, apenas um emparelhamento pode ser o suficiente para que uma resposta condicionada de alta magnitude surja, como é o caso em acidentes de carro, estupro e ingestão de alimentos tóxicos.

  • Tipo de emparelhamento: Respostas condicionadas mais fortes surgem quando o estímulo condicionado aparece antes do estímulo incondicionado e permanece quando o estímulo condicionado aparece. Quando se inverte a ordem, a probabilidade de ocorrer o condicionamento é menor e ele tende a ser mais fraco.
  • Intensidade do estímulo incondicionado: Um estímulo incondicionado forte tipicamente leva a um condicionamento mais rápido.
  • Grau de predição do estímulo condicionado: Um estímulo neutro que sempre é apresentado junto ao estímulo incondicionado gera um condicionamento com facilidade do que um estímulo que as vezes é apresentado e as vezes não é.

XIV – Para finalizar

Em resumo, vimos uma introdução do que é a análise do comportamento, sua missão e o comportamento reflexo. Essa é a primeira parte do resumo sobre behavorismo, na próxima parte, vamos discutir sobre o comportamento operante, que é o tipo de comportamento que mais influência as nossas vidas. Apesar do comportamento respondente ter diversas aplicações no dia a dia e suas bases serem usadas em diversos tratamentos psicológicos e médicos, ele se refere principalmente a fisiologia interna do organismo, e não em um comportamento que causam efeitos no mundo e no comportamento entre pessoas, e para isso, faremos um artigo exclusivo para explorar o comportamento operante e como ele presente o tempo todo no nosso dia a dia.

Referências bibliográficas

MYERS, David. Psicologia. 11ª edição. Editora LTC, 2017. Disponível em: <https://amzn.to/2DOxPlE>.

SKINNER, B.F. Ciência e Comportamento Humano. 11ª edição. Editora Martins Fontes, 2003. Disponível em: <https://amzn.to/3ivb30S>.

MOREIRA, Márcio Borges e de MEDEIROS, Carlos Augusto. Princípios Básicos de Análise do Comportamento. 2ª edição. Editora Artmed, 2018. Disponível em: <https://amzn.to/30QcSiX>.