Escrito por: Nathan A. Kreider
Traduzido por: Pedro Micheletto Palhares (@DevilSSSlayer)
Revisado por: Laís Ribeiro (@laiscapitalisz)


A grande luta na ciência econômica tem sido a formulação de teorias que descrevem o mundo com precisão. Apesar de ser verdade na ciência em geral, a ciência econômica possui uma dificuldade peculiar. A natureza da economia previne várias verdades de serem facilmente determinadas ao isolar uma única variável em laboratório e analisar os resultados. O homem é um ser complicado, de comportamento complexo e que não pode ser facilmente medido.

Há uma tentação infortuna entre algumas escolas de pensamento econômico de sacrificar a verdade pela conveniência – considere, por exemplo, o debate sobre a rivalidade das teorias de valor. Certos teóricos, como Karl Marx e Adam Smith, colocam o trabalho no centro do valor. Outros teóricos, especialmente os da escola Neoclássica e Austríaca, colocam a utilidade (N.T: assim como a escassez relativa) como o fator chave na determinação do valor.

Alguns críticos da teoria da utilidade marginal (uma teoria que retoma à época de Aristóteles), apontam as dificuldades de mensurar o valor em termos de utilidade. Por exemplo, Richard Wolff, um “economista” marxista, critica a teoria utilitária neoclássica questionando como alguém mensuraria a utilidade de um sorvete, e como tal utilidade dependeria da temperatura e das calorias.

Essa crítica postula uma questão válida aos economistas neoclássicos que tentam quantificar a utilidade como um valor cardinal. Como exatamente alguém mediria os utils daquele sorvete, dadas inúmeras variáveis? Endereçando a utilidade marginal, quantos utils a menos um segundo sorvete valeria em comparação ao primeiro sorvete?

Todavia, pela perspectiva da Escola Austríaca, a utilidade é um valor ordinal. A utilidade não pode ser quantificada em utils, mas classificada hierarquicamente. Embora um número exato não possa ser determinado para o valor de um sorvete, o valor pode ser estimado com base nas preferências reveladas pela ação humana.

Quando um indivíduo adquire um sorvete, ele revela valorizar o sorvete mais do que o valor (monetário) pago por ele. Se ele se recusa a comprar um segundo sorvete, ele revela valorizar menos o segundo sorvete em relação ao preço que ele pagaria.

O valor do primeiro sorvete, o custo do sorvete e o segundo sorvete podem ser categorizados do maior para o menor na ordem da perspectiva daquele indivíduo. Os valores desses três itens não podem ser adicionados ou subtraídos. Essa ordem também se aplica apenas ao indivíduo deste exemplo. O vendedor do sorvete, ao participar da venda, valoriza mais o pagamento monetário recebido pelo sorvete que o sorvete entregue por ele.

Comparada a outras teorias de valor, a teoria do valor utilitário ordinal é um tanto inconveniente. É amplamente mais difícil formular modelos econômicos matemáticos e estatísticos (econométricos) usando esta teoria em comparação à utilitária cardinal ou algumas teorias de valor-trabalho. Mas a conveniência de uma teoria econômica não determina sua validade.

Veja, por exemplo, o conceito de John Stuart Mill do homo economicus, um exemplar de homem racional usado para formular alguns modelos econômicos. Apesar de geralmente ser apresentado como uma mera ferramenta conveniente para mensurar um certo tipo de comportamento humano e não uma teoria abrangente da tomada de decisões humana, vários não-economistas aceitam os modelos baseados nessa teoria como mais que isso.

Ao sacrificar validade (N.T veracidade) por conveniência, ele manchou a reputação da teoria econômica. Os críticos geralmente citam o homo economicus como uma razão para descarte não apenas dos modelos econômicos que se sustentam nele, mas de todo o pensamento econômico. Eles apontam que, ao contrário do homo economicus, o homem real não foca unicamente na perseguição do ganho material (que é facilmente quantificado), mas também o ganho não-material (que não é tão facilmente quantificado). Eles apontam exemplos de ações propositais que produzem uma perda do lucro material, como as ações por eles tomadas (como alquimia e magia) que podem ser consideradas irracionais.

Os defensores desses modelos não negam que esses fatos sobre a natureza humana são verdadeiros, mas, ao invés disso, insistem que os modelos nunca tiveram a intenção de endereçar todas as ações humanas, só a ação de alguns atores dentro do mercado. Enquanto isso, o homo agens (homem que age misesiano) incorpora a natureza imperfeita do ser humano com todas as suas falhas. Ele assume que o homem persegue não apenas o lucro material, como um lucro “psíquico” imaterial também. Assume que o homem pode praticar magia e alquimia se acreditar que essas ações lhe proverão um resultado positivo.

Mas enquanto o homo agens é amplamente mais válido que o homo economicus ao descrever o comportamento humano, ele também é, por outro lado, amplamente mais inconveniente ao tentar formular modelos econômicos. Ao aceitar as inquantificáveis verdades sobre a natureza humana, se aceita a validade ao custo da conveniência (N.T – Trade-off entre validade/veracidade e conveniência), uma característica na qual economistas devem insistir ao desenvolver o pensamento econômico. (N.T – Este é o ponto central do problema epistemológico da economia matemática, basicamente aqui reside o cerne da divergência epistemológica da Escola Austríaca em relação à economia Ortodoxa).

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