Escrito por: Pedro Micheletto Palhares (@DevilSSSlayer)
Revisado por: Laís Ribeiro Gomes (@laisribgomes)
Revisão final por: Paulo Costa (@PauloDroopy)


O presente artigo é um resumo de algumas das principais teorias da produção e dos juros de capital, tal como o que ocasiona as flutuações cíclicas, visto que isso é um resumo, é de suma importância que o leitor, interessado em mais detalhes, pesquise os artigos e baixe os livros referenciados ao final do presente estudo, tal como recomendo a leitura da monografia de uma amiga sobre como essa teoria explica a crise de 2014 na gestão Dilma, tanto pela flexibilização do tripé macroeconômico quanto pela NME, essa teoria visa analisar o processo do mercado de maneira totalmente positiva ao invés de tentar encaixá-la em um modelo incompatível com sua natureza.

Antes de partirmos para as demais teorias, é necessário entender o que é a moeda. A moeda surge no mercado como um intermediário de troca devido ao problema da dupla coincidência de desejos dos agentes do mercado, partindo do bem de maior liquidez do mercado, formando os preços, que funcionam como uma espécie de taxa marginal de substituição do bem em termos da moeda (cuja utilidade marginal é seu poder de compra que decresce em função do uso e do aumento da quantidade M, ou seja, os preços aumentam, ceteris paribus, com o aumento da demanda por determinado produto utilizando a moeda adicional, isto significa que os preços são relativos, e cada mercado tem um comportamento diferente do nível geral de preços), disto surge as funções de meio de troca e unidade de conta da moeda, porém ela não é uma perfeita reserva de valor tendo em vista que, mutatis mutandis, alterações na oferta e demanda de cada bem ou serviço altera o poder de compra relativo da moeda.

A teoria do juro se baseia no seguinte fato: há um fenômeno no qual os seres humanos valorizam mais uma satisfação presente ou de um futuro mais próximo em relação a um futuro mais remoto, o que torna os bens de consumo atuais mais valorizados do que os bens futuros. Essa diferença é chamada de preferência intertemporal ou preferência temporal e, quanto maior for, maior será o imediatismo do agente e quanto menor, maior a poupança e provisão para longo prazo. Dessa preferência temporal surge o juro originário, que é o preço a se pagar por empréstimos e adiantar seu consumo. Estejam os juros baixos por mecanismos de mercado, haverá um indício de maiores poupanças, que tornarão as reservas bancárias grandes o suficiente para emprestar dinheiro a empreendimentos mais arriscados, ambiciosos e de longo prazo, tal como a taxa de juros do mercado inclui componentes empresariais e de risco. A respeito da Teoria do Capital, a produção se torna mais eficiente conforme o processo produtivo se torna cada vez mais indireto e especializado (utilizando cada vez mais ferramentas que facilitam a produção, que levam tempo e poupança para serem fabricadas, a poupança aumenta os recursos reais da economia, possibilitando os investimentos de longo prazo sem faltar no curto e médio prazo), contando com um número maior de bens complementares de produção (bens de capital) que possuem natureza heterogênea, devido a seus mecanismos diferentes para produzir partes diferentes do bem de consumo final (bens intermediários), como observamos na cadeia de produção que possui diferentes durações para fabricar as partes e juntá-las no bem final. Essa estrutura permite que os bens de consumo finais sejam então produzidos de modo que sua quantidade aumente sem perder qualidade. A estrutura de capital funciona em anéis, cujo menor anel, mais à esquerda representa o processo mais afastado do bem de consumo final e o maior anel mais à direita representa os processos mais próximos do bem de consumo final. Tomamos como exemplo Robinson Crusoé, isolado em uma ilha, que caça por dia, uma média de 3 peixes e ele deseja construir um bem de capital, uma rede, para coletar uma dúzia de peixes por dia. Sabe-se que leva 1 dia para construir uma rede e que, neste dia, devido à limitação física do emprego dos meios de produção (no caso o próprio corpo de Crusoé), ele deveria se abster de pescar durante a produção da rede e, portanto, precisaria poupar caso desejasse construir o bem de capital para aumentar a quantidade de bens de consumo futuros então, para isso, se abstém de consumir 1/3 da quantidade de peixes que consumia e, durante dois dias, ao invés de consumir os 3 peixes pescados, consumirá apenas 2 e, após 2 dias de pesca, possuirá peixes o suficiente para mais um dia sem precisar pescar no terceiro dia. No caso de uma poupança simples, Crusoé apenas passaria o dia sem reinvestir no processo produtivo e apenas consumindo seus bens de consumo. No caso de poupança capitalista, ele consumiria os peixes e dedicaria o dia para construir uma rede, aumentando a quantidade de bens de consumo futura, no caso os peixes. Além disso, seu sucesso será influenciado por fatores os quais não pode controlar, seu futuro é incerto e seu investimento, assim como toda ação, é uma especulação e, quanto mais longínquo o futuro, mais incerto, e quanto mais precisa a previsão, maior o resultado.

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Anéis de Bohm Bawerk e Triângulo de Hayek representando a estrutura heterogênea do capital
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Triângulo de Hayek

Em uma economia de mercado complexa, o sucesso de um empreendimento implica na capacidade de entender as demandas dos indivíduos e satisfazer as necessidades dos consumidores, o que só é possível através do sistema de preços, afinal, de acordo com a teoria do conhecimento de Hayek, o conhecimento é disperso na sociedade, e é transmitido pelo preço dos bens, formando esse sistema no qual uma demanda maior por um bem reduz a sua oferta através das compras, visto que a demanda implica não apenas no desejo de comprar como na capacidade, ao mesmo tempo que uma elevação dos preços diminui essa capacidade para adequá-la à escassez da oferta impedindo que o estoque acabe. Essa redução na oferta causada pela compra incentiva a produção e o aumento de oferta no estágio específico da produção, orientada pelos preços da parte do bem de consumo final e pela taxa de juros (que em um sistema bancário livre refletirá a poupança média da sociedade e irá variar para cada indivíduo e empresa de acordo com a capacidade poupança, renda, e confiabilidade do indivíduo tomador de empréstimo e viabilidade do negócio da empresa), que, de acordo com a lei da utilidade marginal decrescente irá ajustar o preço para baixo, pois a escassez daquele produto no mercado é reduzida com o aumento da produção, estimulada pelos preços e, a cada unidade (de um bem de uma utilidade homogênea) introduzida em um estoque. Visto que o bem anterior já estava satisfazendo uma necessidade mais urgente, a unidade adicionada à margem será alocada para uma necessidade menos valorizada que a anterior e, portanto, esse bem adicional será menos valorizado em relação ao anterior para o agente, assim como o próximo bem adicionado a margem será em relação a ele. O mesmo se aplica à demanda, quanto menor a escassez de um bem disponível no mercado, menos valorizado ele será para os consumidores e isso se intensifica pelo grau que esta necessidade está satisfeita, além de apenas consumirem dos produtores que satisfizerem melhor suas necessidades ao menor preço e, em caso de escassez de oferta, o efeito é oposto, pois as necessidades não foram ou não serão suficientemente atendidas.

Como dito anteriormente de maneira enfática, a demanda implica no desejo e capacidade de compra, mas afeta o sistema produtivo não só pela compra e preferência pelo bem A em relação ao bem B mas a abstenção de consumo e conservação do encaixe que também influencia o sistema produtivo. Visto que a taxa de juros é influenciada diretamente pela poupança, a abstenção do consumo e conservação do encaixe naturalmente aumentará as reservas bancárias, permitindo empréstimos mais baratos, a uma taxa de juros menor, assim como a poupança aplicada em investimentos no mercado financeiro financia diretamente o processo produtivo de acordo com a preferência do poupador. Quanto maior a poupança e, consequentemente as reservas bancárias, menor será o preço do empréstimo, o juro. Isso incentivará investimentos mais voltados a longo prazo, mais arriscados, que podem ser de extrema lucratividade ou extrema perda dependendo da capacidade de satisfação das necessidades dos consumidores no futuro, através da utilidade dos bens de consumo que serão produzidos, que são subjetivamente atribuídas pelos compradores de acordo com suas necessidades mais urgentes.

Quando temos um banco central que manipula artificialmente a taxa de juros e a reduz sem lastro em poupança, há uma descoordenação das preferências intertemporais dos agentes do mercado, na qual os produtores, a uma taxa de juros menor, irão investir em processos mais afastados dos bens de consumo finais, os quais são voltados a longo prazo, mais arriscados, cujos bens de consumo só estarão prontos no futuro mais remoto, ao mesmo tempo em que os consumidores, ao tomar empréstimo ou aumentar seus encaixes com a nova moeda emitida pelo banco central, aumentam sua demanda por bens de consumo presentes e, com a produção mais voltada ao futuro e um consumo mais voltado ao presente (consumo esse que implica em uma ausência de poupança, ao mesmo tempo em que os investimentos que utilizam crédito são direcionados aos processos mais afastados dos bens de consumo final), irá ocorrer um boom inicial de vendas, mas essa descoordenação intertemporal dos vetores de oferta e demanda fará com que a oferta não possa se ajustar à alta de preços, pois os investimentos nos bens de capital estão voltados à produção de longo prazo e, a partir do ponto de inversão, ocorre o que Hayek chama de efeito sanfona ou efeito concertina e a inversão do efeito Ricardo (que diz que o trabalho de máquinas com o tempo substitui em grande escala o trabalho humano, o que seria o aumento dos bens de capital e produção indireta), o efeito concertina implica que o crescimento inicial se refletirá em mesma magnitude como recessão e a inversão do efeito Ricardo se deve aos bens complementares de produção mais indiretos serem reduzidos em valor em relação aos bens de produção mais diretos. Conforme os maus investimentos são executados por conta da diminuição artificial da taxa de juros, sem uma efetiva demanda pelos bens futuros em processo de produção e os preços presentes aumentando em efeito Cantillon (que não ocorre imediatamente, mas se alastra de acordo com o consumo maior causado pelo aumento da demanda que se deve ao crédito e dinheiro fácil), os investimentos nos processos produtivos mais distantes dos bens de consumo finais enfrentam uma queda em sua receita, e o aumento posterior da taxa de juros para controlar a inflação aumentará seus custos, muitas vezes interrompendo o processo produtivo de partes dos bens de consumo finais, pois os valores das parcelas de seus empréstimos se elevarão e os empresários serão forçados a cortar gastos ou fechar as portas, causando desemprego nos setores mais afastados dos bens de consumo finais, o que elimina o poder de compra de seus funcionários, diminuindo a demanda pelos atuais bens de consumo e, o mercado só irá se recuperar se enfrentar a recessão, que irá ajustar os preços do mercado ao ponto que estava antes da expansão de crédito. Mas o preço a pagar pode ser maior do que o boom causado pelo crédito dependendo dos maus investimentos feitos e o aumento artificial da taxa de juros também ocasionará consequências não intencionais por negligenciar a natureza heterogênea do capital e do processo produtivo, um erro fatal da visão agregada macroeconômica.

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Efeito sanfona/concertina ilustrado pelos triângulos de Hayek

Tudo isso afeta a estrutura de capital de maneira diferente de acordo com a proximidade do bem de consumo final. A moeda não afeta o capital de maneira neutra pelo fato do capital se tratar de uma estrutura heterogênea de produção indireta, o efeito Cantillon também não afeta a economia de maneira instantânea e agregada, mas de maneira diferente, como uma onda, devido ao tempo levado pelo efeito de aumento de preços causada por uma demanda adicional e artificial (que será explicado em seguida). O mainstream é incapaz de explicar o aumento de preços e o considera natural, mas conforme uma demanda adicional é gerada pelo aumento do poder aquisitivo causado pela expansão de crédito, o consumidor inicial é mais favorecido pelo aumento de seu encaixe, consumindo um produto X de um vendedor Y, que usará a moeda nova que recebeu de suas vendas para consumir um produto A de um vendedor Z, que também consumirá outro produto de outro vendedor e assim por diante, conforme essa quantidade de moeda nova é passada e as demandas aumentam, visto que estão descoordernadas temporalmente com as ofertas, os preços irão se elevar inicialmente nos locais onde a maior oferta de moeda e crédito foi inicialmente introduzida, caso seja o mercado financeiro, os títulos de crédito serão os primeiros a enfrentar um aumento de preços, para que só no futuro mais remoto isso possa afetar o IPCA (tornando o índice de preços ao consumidor ineficiente para medir a desvalorização da moeda inflacionada).

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Descoordenação intertemporal entre oferta e demanda de bens de consumo, dada pela disparadidade da taxa de juro originário da taxa de juros do mercado

E por fim, como diria Hoppe em uma de suas palestras, fica o desafio para a MMT e a ortodoxia da ciência econômica e os adeptos das políticas fiscais e monetárias expansivas responderem, sem qualquer sofismas que mascarem o que estão fazendo (fraudando moeda e criando expansões insustentáveis a longo prazo): Como um aumento na quantidade de moeda e meios de pagamento facilmente emitidos por bancos centrais e comerciais sem lastro em poupança e recursos reais podem fazer uma economia crescer? E, se esse é o caso, por que, apesar da uma política de expansão de crédito ser adotada por todo o globo, ainda existe pobreza?

(Nota de edição: links úteis para estudo (não dispensa a leitura dos livros):

PALHARES, Pedro Micheletto. Introdução à ciência econômica — Conceitos básicos. Disponível em: <https://medium.com/@pedromichelettopalhares/introdu%C3%A7%C3%A3o-%C3%A0-ci%C3%AAncia-econ%C3%B4mica-conceitos-b%C3%A1sicos-ec781db4cd84>. Acesso em 16 Set 2020.

PASSONI, Nicole Haddad. Uma Análise da Crise Brasileira de 2014 pela Ótica da Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2019. Disponível em: <https://drive.google.com/file/d/1VXj4t83pgrzIhA3eDJ1nbrIJFXufv0Ko/view>

Referências bibliográficas:

[1] MISES, L. V. Ação Humana, São Paulo: Instituto Ludwig Von Mises Brasil, 2010, cap. 18 a 20. Disponível em: <https://amzn.to/2RyQFjO>.

[2] BOHM BAWERK, E. V. Teoria Positiva do Capital. Disponível em: <https://amzn.to/3knLa3T>.

[3] ROTHBARD, M. N. A grande depressão Americana, São Paulo: Instituto Ludwig Von Mises Brasil, 2012. Disponível em: <https://amzn.to/3c6f3Tx>

[4] CANTILLON, R. Ensaio sobre a natureza do comércio em geral, Disponível em: <http://www.segestaeditora.com.br/download/ensaio_1.pdf>. Acesso em 29 set. 2019.

[5] Iorio, U. J. Hayek, o Efeito Ricardo e o Efeito Concertina, Disponível em: <https://mises.org.br/Article.aspx?id=798&ac=119715>. Acesso em 29 set. 2019.

[6] Hayek, F. A. V. The use of knowledge in society, Disponível em: <http://bev.berkeley.edu/ipe/readings/The%20use%20of%20knowledge%20in%20society.pdf>. Acesso em 22 oct. 2019.

[7] Simonsen, M. H. Cysne, R. P. Macroeconomia, 2ª Edição, Rio de Janeiro: Editora Atlas S.A 1995. Disponível em: <https://amzn.to/32B80PF>.

[8] Keynes. J. M. A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda: Os Economistas 1996, Disponível em: <http://www.afoiceeomartelo.com.br/posfsa/Autores/Keynes,%20John/Keynes%20-%20Os%20economistas.pdf>. Acesso em 22 oct. 2019.