Escrito por: Zhengpeng Hou
Traduzido por: Gabriel Schreiber Belli (@Bellivre)
Revisado por: Pedro Micheletto Palhares (@DevilSSSlayer)


Perder a privacidade pode ser uma grande preocupação na resposta à pandemia do COVID-19, mas uma nova classe de tecnologia está nos posicionando para um futuro mais anônimo.

Antes da pandemia do COVID-19, a privacidade já era um luxo. Agora, estamos enfrentando um mergulho adicional no território desconhecido de invasões generalizadas de privacidade.

As ferramentas de publicidade direcionada no seu navegador da web já rastreiam seus sites, compras e hábitos favoritos, e a privacidade do navegador é uma relíquia perdida. Esses dados são então centralizados sob os auspícios dos servidores de uma grande empresa de tecnologia e vendidos ao maior lance ou aproveitados para obter uma vantagem competitiva.

Os governos mantêm uma ampla vigilância nas comunicações pela Internet, e a privacidade financeira é praticamente inexistente para qualquer atividade bancária – abrangendo a grande maioria das transações financeiras.

A maioria das pessoas se preocupa com a privacidade, e algumas são muito dedicadas à preservar sua privacidade. Mas as pessoas perdem grande parte de sua privacidade pela ignorância sobre como funcionam mecanismos tecnológicos que trabalham nos bastidores de seu navegador. Eles se preocupam mais com a experiência do usuário do que com essa coisa tão difícil de ser protegida: a privacidade.

Embora apenas 14% dos millennials acreditem que as vantagens da tecnologia superam os riscos do compartilhamento de dados pessoais, a privacidade é continuamente coadjuvante no discurso mainstream. Mas a privacidade está rapidamente se tornando a grande questão de nossa era, e o COVID-19 – uma pandemia que devasta cidades ao redor do mundo – pode ser a centelha necessária para que as pessoas entendam o porquê.

O invisível e a centelha

Vale a pena explorar a resposta passiva dada em todo o mundo pelo público geral às invasões de privacidade por várias razões.

Primeiro, muitas pessoas provavelmente estão ficando insensíveis aos repetidos escândalos de dados que preenchem as manchetes dos principais meios de comunicação aparentemente todas as semanas. Desde o desastre da Cambridge Analytica no Facebook, o escândalo do Equifax, o recente despejo de e-mails e senhas do governo durante a crise do COVID-19, os hackers são endêmicos.

Segundo, a infiltração de privacidade na web não é uma experiência visceral. Os abusos de privacidade são silenciosos, funcionam nos bastidores e estão totalmente fora do escopo técnico da maioria dos usuários da web. Ignorância é uma benção. A facilidade com que os abusos à privacidade têm ocorrido ininterruptamente há anos permitiu que suas consequências posteriores se escalonassem e se tornassem problemas graves, com enormes implicações a longo prazo.

E então veio o COVID-19.

As crises costumam ser um excelente disfarce para se esgueirar em outras invasões de privacidade às custas do público, que é exatamente o que está acontecendo até agora.

No fim do governo, o dólar digital foi inserido duas vezes como subsídio pela Small Business Administration (SBA), e a EARN IT Act é uma tentativa clara de tornar a criptografia ilegal na web. Coincidentemente, essa legislação que receberia reação do mainstream se não fosse por conta da crise, está sendo considerada seriamente durante a crise.

O problema é que, uma vez instaurados os aparatos para violar a privacidade, eles raramente são removidos com facilidade. Basta olhar para o Patriot Act e as consequências do efeito cascata que tiveram na privacidade digital.

As grandes empresas de tecnologia também estão com alguns novos desenvolvimentos altamente questionáveis. O rastreamento Bluetooth do Google e da Apple é a manifestação completa do rastreamento dos movimentos das pessoas, em qualquer lugar. Soa orwelliano? É porque é. Google e Apple estão fingindo privacidade com truques baratos de criptografia de front-end, mas os dados ainda são armazenados em seus servidores.

Relacionado: como tornar sua vida digital privada, privada

A privacidade é a grande questão do nosso tempo, porque nosso controle sobre ela foi lentamente corroído ao longo do tempo. Podemos ter ficado insensíveis a alguns dos abusos mais amplos e escândalos de maior repercussão, mas eventualmente um ponto de inflexão acontecerá. Nesse momento, precisaremos de ferramentas de privacidade de baixo custo, fáceis de usar e poderosas para atender às demandas do público.

Felizmente, já estamos no caminho certo.

Uma onda de novas tecnologias

Se o COVID-19 acendeu uma demanda ressurgente por privacidade na era digital, então a atual onda de tecnologia de ponta com foco em protocolos de código aberto, P2P e criptográfia, isso é a base para construir um novo padrão de privacidade – impedindo que a grande questão do nosso tempo nos leve a ruína.

As criptomoedas provocaram o incío de um primitivo movimento popular de base criptográfica. como as tecnologias de criptografia de assinaturas em anel, à prova de balas e à prova conhecimento-zero, como zk-SNARKS. No coração desses desenvolvimentos estão os dedicados defensores da privacidade, que exercem a teoria dos números e as funções alçapão para tornar virtualmente impossível a busca por dados financeiros ou de comunicações.

Por exemplo, os zk-SNARKs ocultam do conhecimento público todos os detalhes da transação, seja usado para aplicativos financeiros descentralizados ou para transferências de grandes quantias. Outros projetos, como o aplicativo de comunicação de código aberto Signal, contam com conexões criptografadas entre usuários e estão aumentando rapidamente suas bases de usuários.

Existem até derivações de alguns des aplicativos mais populares, como o Slack, que tem o foco na privacidade. Por exemplo, o Keybase, um diretório de chaves que mapeia identidades de mídias sociais para chaves criptografadas que podem ser usadas para coordenar projetos e outros empreendimentos maiores, semelhantes ao Slack.

Mas a privacidade geralmente se estende além da criptografia.

Os servidores do Google e da Apple acumulam os dados de todos os seus usuários e monetizam em enormes pilhas de dinheiro. No entanto, movimentos de código aberto e populares, como a web descentralizada, ou DWeb – um conjunto de tecnologias P2P que impulsionam a próxima iteração da web – diminuem a propensão das empresas de tecnologia a acumular dados com impunidade. Ao alavancar soluções de armazenamento distribuído (por exemplo, InterPlanetary File System), criptografia e plataformas financeiras distribuídas (por exemplo, Compound), os usuários podem interagir com aplicativos e recursos semelhantes sem expor seus dados pessoais a terceiros.

A experiência do usuário sempre foi o fator limitante. Anteriormente, manter a privacidade era um aborrecimento que apenas os mais fervorosos defensores da privacidade enfrentariam para obter um certo grau de anonimato na web.

Para a maioria dos usuários, no entanto, os custos de manejar uma VPN, um aplicativo de bate-papo privado não pertencente ao Facebook ou transações financeiras privadas fora do sistema bancário eram simplesmente muito altos.

Isso é mudou agora.

Por exemplo, o design da nossa empresa (Suterusu) atende explicitamente a um público “plug-and-play” de empresas, profissionais de finanças e usuários regulares que desejam exercer contratos inteligentes anônimos, transações confidenciais ou um sistema de apostas privado para gerar renda passiva. Aplicativos como Signal estão subindo nas placas de download da App Store e o IPFS está à beira de seu tão esperado lançamento público.

A nova geração de ferramentas de privacidade é criada para indivíduos e empresas. As ferramentas são fáceis de usar, de código aberto, não monetizam seus dados e aguardam esse ponto de inflexão para recebê-lo a bordo de uma nova era de privacidade.

Você pode nunca ter imaginado a privacidade como uma das principais questões de nosso tempo. Ela foi corroída silenciosamente no plano de fundo de suas experiências favoritas enquanto você navega na web. Se a pandemia do COVID-19 tem um lado de alívio, é o da possibilidade de que outros abusos à privacidade injetados furtivamente em pacotes de alívio fiscal e a vigilância sob o disfarce do rastreamento de doenças possa ter despertado o público para o desaparecimento persistente da privacidade.


Leia o artigo original clicando aqui.