Um dos aspectos mais fascinantes dos progressistas é a cegueira que eles possuem para as consequências adversas de seus próprios programas governamentais. Ao invés de reconhecer o que seus programas estatistas fazem para as pessoas e então pedir sua revogação, elas inevitavelmente pedem novos programas governamentais para lidar com os males que seus programas governamentais estão causando.

Um bom exemplo desse fenômeno foi um artigo intitulado“A Crise dos Sem-teto Continua. Talvez os libertários tenham uma solução?”, que foi publicado junho passado por um novo semanário em Seattle chamado The Stranger. O autor da peça foi um editor associado do The Stranger chamado Eli Sanders. Sanders não é fictício. Em 2012, ele foi premiado com o Prêmio Pulitzer em escrita de destaque. Seu livro, “Enquanto a cidade dormia”, foi finalista do Washington State Book Award e do Dayton Literary Peace Prize.

No entanto, o artigo de Sanders, que ridiculariza os libertários, inclusive eu, por suas supostas soluções para a falta de moradia é uma demonstração patética de obtusidade moral, política e econômica. Isso porque Sanders, como outros estatistas, simplesmente não consegue reconhecer e abordar as duas causas profundas da falta de moradia, especialmente em Seattle – leis de zoneamento e salário mínimo, as quais são calorosamente e entusiasticamente adotadas tanto pela esquerda quanto pela direita, porém que são ardentemente criticadas pelos libertários.

O que Sanders diz em seu discurso anti-libertário? Ignorando os apelos libertários pela revogação das leis de zoneamento e salário mínimo, ele lista uma série de outras soluções supostamente libertárias para a falta de moradia, tais como “dar armas a desabrigados”, “não fazer nada”, “empoderar indivíduos” e “acabar com a taxação de renda” (onde ele me menciona), o tempo todo implicitamente zombando e ridicularizando os libertários por não encontrar soluções reais para a falta de moradia.

Por que Sanders escolhe permanecer em silêncio sobre a oposição libertária a leis de zoneamento e leis de salário mínimo no contexto do debate sobre a falta de moradia?

A resposta é simples: se estamos lidando com a guerra às drogas, contra a pobreza, as guerras iinfindáveis no Iraque e Afeganistão, à guerra contra imigrantes ou qualquer outro programa governamental, os estatistas dispõe de uma terrível dificuldade em reconhecer o fracasso e a destrutividade de seus próprios programas estatais. Eles farão tudo que puderem para evitar assumir responsabilidade pessoal pelo que seu estatismo forjou.

O fato é que Seattle é uma das cidades mais zoneadas do país. Suas leis de zoneamento datam desde 1923! Também há um salário mínimo obrigatório de US$ 11,50 por hora, com a previsão de aumentar para US$ 15 nos próximos anos. Certamente, Sanders percebe essas coisas. O problema é que sua mentalidade impede que ele conecte os pontos. Dado que o salário mínimo e o zoneamento estão tão profundamente inseridos na mentalidade estatista e dentro da sociedade de Seattle, ele é incapaz de reconhecer que esses dois programas estatistas são a causa do problema que ele lamenta – a falta de moradia – e que a solução para os sem-teto, especialmente em Seattle, está simplesmente revogando as leis de zoneamento da cidade e abolindo as leis nacionais, estaduais e locais de salário mínimo.

O que é zoneamento? É um programa do governo que consiste em regras, regulamentos e leis obrigatórias que impedem ou inibem a construção de habitações de baixa renda dentro de uma comunidade. Obviamente, não ocorre a Sanders que os construtores não possam construir habitações de baixo custo para os pobres em Seattle, quando as leis de zoneamento as proíbem de fazê-lo.

A situação é agravada pelo fato de que os pobres são excluídos do mercado de trabalho pelo salário mínimo obrigatório do governo. Suponha, por exemplo, que um sem-teto esteja disposto a trabalhar por US$ 5 a hora e que um empregador esteja disposto a contratá-lo a esse preço. Eles não podem fazer o acordo porque a lei torna ilegal entrar nessa transação consensual.

O progressista diz: “Estamos apenas tentando proteger os pobres da exploração”. Porém, isso é ridículo porque o trabalho de uma pessoa que não é valorizado pelos empregadores no mínimo obrigatório não será contratado. Ele fica desempregado, permanentemente. A lei do salário mínimo é a razão pela qual há uma taxa permanente de desemprego crônico de 30 a 40% entre adolescentes negros há anos. Correndo o risco de obviar ao óbvio, uma pessoa desempregada é impedida de receber o dinheiro que precisa para pagar as casas caras que as leis de zoneamento de Seattle determinam.

Eu cresci em Laredo, Texas, que o Census Bureau na década de 1950 rotulou como a cidade mais pobre dos Estados Unidos. Laredo não possuía zoneamento. Nós tínhamos um amigo da família que era um construtor. Sua especialidade? Construir moradias de baixa renda para os pobres. Ele me explicou uma vez que viajaria para o México (Laredo fica na fronteira) e compraria materiais para construção de baixo custo, os quais lhe permitiriam construir moradias a preços menores que atendessem os pobres. Seus lugares eram sempre muito limpos, muito maneiros, muito bem mantidos e muito vendidos.

Meu amigo estava fazendo isso por um sentimento de altruísmo e amor pelos pobres? Pelo contrário. Estava fazendo isso para ganhar dinheiro. Ele era o exemplo clássico do que as pessoas de esquerda chamam de porco burguês, cruel e capitalista, em busca de lucro. No entanto, meu amigo era um homem rico porque os pobres amavam sua moradia.

Entre os melhores aspectos da moradia de baixo custo de meu amigo estava o fato de que os residentes não eram proibidos de ganhar muito dinheiro, pois as pessoas vivem em projetos de habitação pública do governo federal, outro programa favorito entre os estatistas, um que existe para lidar com a falta de moradia que vem com leis de zoneamento e de salário mínimo.

Ah, talvez eu deva mencionar algo que possa interessar a Sanders: nunca houve um problema de desabrigados em Laredo. Muita pobreza, sim. Mas nunca um problema dos sem-teto, como o que existe em Seattle, com seus programas estatistas e leis maciças de zoneamento e salário mínimo.

Deixe-me concluir este artigo afirmando que pretendo enviá-lo para Eli Sanders. Estou curioso para saber se ele gostaria de escrever um artigo sobre as duas principais posições libertárias para acabar com a falta de moradia em Seattle: revogar as leis de zoneamento da cidade e todas as leis de salário mínimo. Não prenda a respiração. É mais fácil para os esquerdistas atacarem espantalhos do que enfrentar as consequências de seus programas estatistas favoritos.


Escrito por: Jacob G. Hornberger
Traduzido por: Wallace Nascimento (@SrNascimento40)
Revisado por: Angélica Lyssa (@Himyssatxt)