Introdução

Recentemente Bettina, que ficou famosa na internet por seu vídeo na Empiricus, onde alega que, apenas com aplicações nos portfólios da empresa, transformou R$ 1.520,00 em mais de um milhão de reais, demonstrou certa repulsa às criptomoedas, dizendo em seu Instagram: “o que você acha de criptomoeda? Acho uma bosta!”.

Ela disse possuir 1% de seu portfólio em criptomoedas (Bitcoin e Litecoin). Ela afirmou ter tomado um prejuízo de 60% com elas, e que só não as tira do seu portfólio para se aproveitar de um possível futuro boom.

Ela também aconselhou que, independente do quão grande seja seu conhecimento em um mercado, seus investimentos devem ser diversificados você deve “investir de tudo um pouco”.

Agora demonstrarei inicialmente problemas de suas falas e posteriormente um grande problema sobre a visão, que não decorre apenas dela, mas de grande parte dos investidores que se baseiam apenas em análise técnica.

Erros básicos de investimento

Primeiramente, Bettina demonstra obviamente não ter lido muito acerca de investimentos em duas de suas falas (que estão inclusive ligadas), em relação a não investir apenas em uma classe de ativos, mesmo que você tenha um conhecimento muito aprofundado na área, e ao dizer que investimentos devem ser diversificados.

Suas afirmações vão contra duas bases da parte teórica do investimento, a primeira se trata da mentalidade para se investir sugerida por Warren Buffet [1]: sim, você não apenas pode investir apenas naquilo que conhece, mas é recomendável fazer isso. Se todo seu conhecimento que pode ser usado no meio de investimentos se resume em uma classe de ativos, invista apenas nela. Em todos os investimentos somos como cegos, nós não sabemos o que nos espera a frente, mas se você for um cego que já andou em lugares similares ou que estudou o lugar onde está indo, você tem muito mais segurança e racionalidade em suas decisões, enquanto um cego em meio à um lugar totalmente novo tem muito mais medo e irracionalidade em suas decisões, ele não sabe quando é a recompensa ou quando é o precipício, e pode facilmente confundir os dois.

A segunda base se trata do primeiro axioma de Zurique [2], o axioma do risco, onde ele trata o risco como proporcional ao lucro – obviamente, para o mais leigo estudante de economia austríaca, se nota que isto está errado, mas alguns dos pontos levantados nesse axioma ainda são válidos – e a partir disso, ele derruba o mito de que investidores devem diversificar seus investimentos, a premissa dessa ideia está baseada em garantir segurança. Assim, se uma de suas ações tiver uma enorme queda, você está parcialmente protegido dela. Sim, isso está correto, mas tem outro ponto: se um de seus ativos tiver uma enorme alta, você também está protegido dela, a diversificação lhe protege da queda, mas ela faz o mesmo com a alta. Outro ponto levantado nesse axioma está ligado ao primeiro de Buffet, ter muitos investimentos diversificados não lhe permite conhecer e acompanhar de forma próxima cada um deles, e isso lhe torna um grupo de 10 cegos correndo loucamente em um terreno repleto de precipícios, com a desculpa de que se um morrer, você ainda tem 9.

Os Problemas da Análise Técnica

Por fim, um dos maiores problemas que vejo nos dizeres de Bettina está em sua visão – que no geral é a visão de grande parte dos investidores – de rendimento imediatista, que não leva em consideração nem uma análise fundamental, nem mesmo um pensamento de investimentos de longo prazo. Esta visão é extremamente maléfica e condena tais pessoas a continuamente investirem em pirâmides, fraudes, scams e sempre acabarem saindo com menos do que entraram.

Em suma, existem duas conhecidas análises que podem ser feitas antes de se fazer um investimento para concluir se este é um investimento bom ou ruim: a análise técnica [3] e a análise fundamental [4].

A análise técnica trata de avaliar um ativo por sua tendência, normalmente fazendo uso da análise de gráficos, observa-se uma tendência de alta ou baixa em gráficos e, a partir disso, se avalia se um bem é um bom ou mau investimento.

Já a análise fundamental busca avaliar o ativo pelo próprio ativo. Com ela, examina-se a questão financeira, mercadológica, a proposta do ativo, seu capital humano e intelectual, entre vários outros fatores que podem dizer se o que este ativo apresenta tem potencial de fazê-lo gerar lucros.

A diferença entre ambas as análises é crucial. Investidores que se baseiam na análise técnica buscam recortes temporais que lhes permitam tentar induzir quais as tendências futuras do preço de um ativo, enquanto os que usam análise fundamental buscam analisar os fundamentos e, partindo destes, presumir se o ativo tem um futuro no mercado. A parte mais importante na diferenciação das análises está no longo prazo. Enquanto a análise técnica sugere uma tendência de comportamento do mercado de um ativo – tendência esta que pode ser completamente modificada por eventos no mercado – trata da movimentação do preço no curto prazo, a análise fundamental busca tratar do longo prazo, avaliando se o ativo tem potencial de crescimento por seus próprios fundamentos.

É óbvio que ambas tratam de especulação e não garantem com certeza um crescimento, mas, ainda assim, a análise técnica é muito inferior em relação à análise fundamental, pois aquela trata de especular a ação humana com base no método indutivo, enquanto a análise fundamental busca sua avaliação com base na função empresarial, avaliando se tal ativo supre demandas de mercado e se tem potencial de fazê-lo ainda mais.

Avaliando o Bitcoin com os dois métodos, primeiramente com a análise técnica, nota-se realmente que sua valorização recente tem sido baixa, porém, ainda assim, se avaliada no longo prazo, percebe-se que o Bitcoin teve uma valorização extraordinária. Se avaliado através da análise fundamental [5], seu potencial é ainda maior. O Bitcoin é um produto eficiente, cumpre sem falhas seu propósito, seu capital intelectual é excelente, com numerosos especialistas em seu desenvolvimento e, principalmente, possui um propósito disruptivo que pode vir a mudar todo o mercado mundial em meio a bancos centrais, expansões de crédito artificiais e consecutivas crises. Pode-se dizer que o mercado demanda por essa disrupção.

Conclusão

E, portanto, conclui-se com isso a razão pela qual Bettina e parte dos investidores tem essa má visão em relação ao Bitcoin. Ao basear-se nos rendimentos ruins, julgam o ativo como sendo também ruim, sem conhecer seus fundamentos, suas qualidades e seu potencial disruptivo.

Notas:

[1] Hagstrom, Robert. O Jeito de Warren Buffett de Investir.
Buffet, Warren. The life, lessons and rules for success.

[2] Gunther, Max. Os Axiomas de Zurique.

[3] Lemos, Flavio. Analise Técnica Dos Mercados Financeiros.

[4] Siegel, Jeremy. Investindo em Ações no Longo Prazo: O Guia Indispensável do Investidor do Mercado Financeiro.
Graham, Benjamin. O Investidor Inteligente.

[5] Ulrich, Fernando. Bitcoin: a moeda na era digital.