terça-feira, julho 5, 2022

A polêmica do MBL revelou a maior virtude do partido

Não é surpresa que jogada de marketing político do MBL saiu pela culatra. Todos já sabem do escândalo de Arthur Val e do chilique de seu amigo, Renan dos santos. Mas, em sua defesa, o MBL afirma ter viajado à Ucrânia para prestar ajuda humanitária — e por que isso seria um problema? Simples:

Não há ajuda alguma na ajuda humanitária

Qualquer um que já tenha dado esmola a um desabrigado faminto sabe o que acontece logo depois: ele continua desabrigado e faminto. Os suprimentos doados pela ajuda humanitária permitem que os beneficiários não morram de fome hoje… para continuarem a viver na miséria amanhã. A ajuda humanitária alimenta mais o ego de quem doa do que a barriga de quem definha.

Mas será que é só isso mesmo?

A ajuda humanitária é uma ótima maneira de construir reputação — tanto para quem a merece quanto para quem não. No entanto, é preciso destacar que doar suprimentos a quem precisa é, sempre, uma ajuda. Porém, esse tipo de “ajuda” é, no máximo, prolongar o sofrimento do miserável. Doar comida suprimentos é apenas um detalhe (necessário, por vezes) naquilo que poderia de fato ajudar. Mas o que seria, então, uma “verdadeira ajuda”?

A diferença faz a diferença

Entre as coisas realmente importantes, são comuns algumas mesmas características: serem chatas, difíceis, nem um pouco animadoras e bem demoradas. A única maneira de fazer a diferença na vida de quem precisa é fazendo diferente daqueles que sempre fazem a mesma coisa: é investir na autossuficiência do beneficiário.

“Se deres um peixe a um homem faminto, vais alimentá-lo por um dia. Se o ensinares a pescar, vais alimentá-lo por toda a vida”

Lao-Tsé, filósofo fundador do Taoísmo

O maior problema da África, por exemplo, não é a fome. Não é da tal “ajuda humanitária” que a África precisa. A falta de comida em diversos países desse continente não é o problema, mas a consequência: a fome na África vem da propriedade intelectual.

Ainda que os materiais vegetais patenteados sejam frequentemente oriundos de África, assim que são patenteados por empresas multinacionais, tornam-se virtualmente inacessíveis ao povo africano

Oduor Ong’wen, CEO e Diretor Executivo da Orange Democratic Movement
https://www.pambazuka.org/pt/governance/biopirataria-o-regime-de-propriedade-intelectual-e-os-meios-de-subsist%C3%AAncia-em-%C3%A1frica#:~:text=Milhares%20de%20patentes%20de%20plantas,uma%20planta%20da%20%C3%81frica%20Ocidental.

Na agropecuária, são muitas espécimes de vegetais que estão sob o controle monopolístico de grandes empresas transacionais — empresas essas que contam com o apoio financeiro do estado para manterem seu monopólio. Mas não para por aí: o mesmo acontece, talvez até pior, com produtos farmacêuticos.

os recursos para produzir, e até mesmo adquirir, os
medicamentos essenciais são escassos (principalmente, pelos países mais
necessitados do Sul), e, entende-se que, em grande parte, isso ocorre em função
dos direitos de produção industrial

Thalita Moraes Lima, pesquisadora mestra em direito e políticas públicas pela CEUB
http://www.publicadireito.com.br/conpedi/manaus/arquivos/anais/fortaleza/3622.pdf

Lutando contra esse tipo de empecilho ao livre mercado, seja no Brasil ou no mundo a fora, o MBL conseguiria prestar uma verdadeira ajuda à humanidade, ao invés da tão famosa —e ineficiente — ajuda humanitária. Dessa forma, estariam ensinando a pescar, e não apenas distribuindo peixe. Mas esse não é o interesse do MBL — nunca foi.

Por que se preocupar em fazer a diferença que faz a diferença quando se pode fazer apenas mais do mesmo — marketing e política —, não é mesmo? Afinal, é importante que ajam pessoas pobres no mundo; tanto para conseguir votos com mais facilidade quanto para garantir o Tour de cada ano.

“Mas olhe pelo lado bom: ainda que tenha sido por motivos oportunistas, o MBL ao menos deu o peixe a quem estava precisando”. Será mesmo?

Transparente por fora… e por dentro também

Esse (R$ 275.366,20) foi o valor total arrecadado pelo MBL durante os quatro primeiros dias de sua Missão Ucrânia:

Já esse (R$ 43.746,62), foi o valor que o MBL gastou na compra de suprimentos para os refugiados ucranianos:

E esses foram os produtos que eles compraram para as vítimas da guerra:

E, por fim, o valor total (incluindo a reserva para impostos, além de mais R$ 11.440,00 gastos em combustível):

Ah, e é claro — o comprovante da primeira transferência:

Todos esses dados podem ser encontrados no mesmo lugar — num arquivo PDF, feito e disponibilizado publicamente pelo próprio MBL: https://s3.documentcloud.org/documents/21398192/missao-ucrania-mbl.pdf

Certo, mas o que tudo isso quer dizer? Ora, que eles compraram e forneceram suprimentos à população ucraniana (R$ 40.000,00) e que doaram a maior parte (R$ 211.829,58) para A Representação Central Ucraniano-Brasileira (RCUB), uma organização sediada no Brasil, presidida pelo advogado Vitório Sorotiuk, que, entre 1980 e 1981…

MBL doou R$ 211 mil da "campanha humanitária" para entidade presidida por  um dos fundadores do PT
À direita, Vitório Sorotiuk, abraçando Gleisi Hoffmann, a atual presidente nacional do PT

participou da fundação do PT.

Convidamos todos os brasileiros a se indignar" | Band
À esquerda, Vitório Sorotiuk, prestando uma entrevista ao jornal Band News

Tudo isso aponta para duas hipóteses plausíveis:

Ou o MBL é um partido como qualquer outro, tendo feito uma aliança política com o PT por debaixo dos panos, ou o MBL é o partido mais desorganizado e incompetente da atualidade — e talvez até de toda a história do Brasil.

E caso R$ 40.000,00 pareça um valor alto o suficiente para o leitor do artigo, aqui vai um rápido esclarecimento:

Os R$ 40.000,00 (tendo R$ 11.440,00 sido gastos em combustível) usados pelo MBL na compra de recursos para os ucranianos equivalem à exatamente 14,52% do valor total arrecadado: dos R$ 275.366,20 adquiridos em apenas 7 horas.

Os 85,48% restantes, que equivalem à R$ 235.383,02, não estão nas mãos dos refugiados ucranianos; uma parte (R$ 23.536,62 – 8,54% do total) está no bolso do MBL, e a outra (211.829,58 – 76,92% do total) estão nos bolsos de uma organização estatal, presidida por um dos fundadores do PT — o partido serviu de palco para a ascensão do MBL entre 2015 e 2016, durante o impeachment de Dilma Rousseff.

Forma estranha de agradecer pelo favor, mas sobretudo um sinal de uma virtude única, que não se encontra em nenhum outro partido brasileiro:

Um lannister o MBL sempre paga suas dívidas.

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