Como o FBI cria suas próprias ameaças

Os indivíduos apresentados a seguir são reais. A reportagem especial dessa semana traz cinco histórias que retratam a atual dinâmica de combate ao terrorismo empregada pelo FBI.

I

No ano de 2012, na cidade de Tampa, Florida, agentes federais prenderam um terrorista muçulmano que se dirigia a um bar irlandês para detonar um carro-bomba. Após gravar um vídeo explicando seus motivos em um quarto de hotel, Sami Osmakac preparou-se para detonar uma bomba em um popular bar irlandês da cidade. Segundo o governo, Osmakac era um terrorista perigoso que teria bombardeado o bar de Tampa, posteriormente se dirigindo para um cassino local, onde teria feito reféns e detonado seu colete suicida com a chegada da polícia.

No vídeo gravado antes do atentado planejado, Sami Osmakac começa a discursar após uma voz dizer: “Gravando”. Uma AK-47 se encontra encostada na porta atrás dele. Ele veste um colete suicida. Em sua mão direita, segura uma pistola.

Aos 13 anos, Osmakac imigrou com sua família para fujir da violência no Kosovo, em 1992. Osmakac desenvolveu sérios problemas mentais. Após passar por uma experiência de forte turbulência em uma viagem de avião, com o passar do tempo, isolou-se cada vez mais e decidiu se dedicar ao islã, frequentando com frequência as mesquitas da região. Seu temperamento encontrou problemas na comunidade, contudo, tendo sido expulso de duas mesquitas e publicamente chamado de infiéis líderes religiosos. Cada vez mais paranoico e delirante, dormia no chão do seu quarto e reclamava de sonhos nos quais queimava no inferno. Osmakac não mais trabalhava no negócio de sua família. Preocupados, pediam para ele procurar um médico, mas ele recusava pensando que os médicos o internariam em um sanatório.

Osmakac conheceu em uma mesquita local um muçulmano chamado Russell Dennison. Com o tempo, se tornaram amigos. Osmakac até mesmo passou a se vestir como ele. Dennison mencionou que conhecia alguém que administrava um mercado do Oriente Médio em Tampa, e o convidou para ir até lá. Esse era Dabus. Pouco tempo depois, Osmakac arrumou um emprego informal trabalhando para ele.

Um dia, Osmakac o perguntou se ele poderia ajudá-lo a conseguir armas e um cinto explosivo. As transcrições de suas conversas mostram que Osmakac tinha dificuldades de separar realidade e ilusão, dando peso e significado a seus sonhos. Dabus o introduziu, então, a Amir Jones. Em uma conversa secretamente gravada, Osmakac descreveu um plano para explodir simultaneamente várias pontes da cidade, para gerar transtorno e caos.

Todos os indivíduos até agora apresentados, excluindo Osmakac, trabalhavam para o FBI. Mesmo para os agentes envolvidos no caso, Osmakac era visto como um tolo, incapaz de fazer algo por conta própria; como mostraram conversas gravadas por acidente pelos informantes. Mesmo para eles, seus planos não passavam de ilusões de uma mente atormentada.

Como Osmakac era claramente incapaz de realizar qualquer ato de terrorismo por conta própria, o FBI precisava ajudá-lo. Ele não tinha dinheiro, mas Dabus lhe havia dado um emprego; o dinheiro foi, então, utilizado para pagar Amir.

Em um hotel, disposto em cima da cama, havia seis granadas, uma AK-47 automática, uma pistola e um cinto explosivo. Além disso, uma bomba havia sido montada e instalada em um veículo. Tudo falso, mas Osmakac não sabia disso. Como ele também não sabia utilizar as armas, Amir mostrou como usá-las e recarregá-las. O vídeo citado no início foi gravado neste quarto. O homem que fala “gravando” é o agente do FBI Amir Jones. Todas as armas que aparecem na filmagem foram providenciadas pela agência.

Após o vídeo, Osmakac entrou no carro e rumou para o bar irlandês. Esse era o plano, pelo menos. Agentes federais o prenderam no estacionamento do hotel. Indiciado por tentativa de utilizar uma arma de destruição em massa, o caso de Osmakac foi celebrado como uma vitória da vigilância governamental contra a ameaça de terrorismo.

Em seu julgamento, a psicóloga chamada testemunhou que Osmakac era facilmente manipulável, e que apresentava graves problemas psicológicos. Quatro psicólogos o diagnosticaram com transtorno psicótico ou transtorno esquizoafetivo. O júri o condenou a quarenta anos em prisão federal.

O irmão de Osmakac, Avni, declarou que sua família estava procurando ajuda para os problemas psicológicos de seu irmão, mas que o FBI havia chegado mais cedo.

II

Em junho de 2023, o Departamento de Justiça americano anunciou a prisão de um adolescente de 18 anos em Massachusetts, acusado de financiar o grupo terrorista Estado Islâmico.

Seu pai, Paul Ventura, declarou que Mateo teve problemas de desenvolvimento quando criança. Nascido de forma prematura, seu cérebro não se desenvolveu da forma correta. Por conta do bullyng que sofria e das constantes humilhações por parte dos outros alunos, seu pai o retirou da escola.

Um informante do FBI, se passando por um membro do Estado Islâmico, iniciou conversas com Ventura quando ele ainda tinha 16 anos. No decorrer de seu longo contato, o agente solicitou repetidas vezes doações, que Ventura efetuou por meio de gift cards. No período de dois anos, o montante não ultrapassou $1.700. O agente pediu para ele não revelar, nem mesmo para familiares, sobre seu contato online.

Ventura foi incentivado a viajar para o exterior, mais de uma vez, mas nunca de fato embarcou, sempre arrumando alguma desculpa para justificar sua decisão, como inventando lesões que o obrigavam a ficar de cama.

Ventura chegou a ligar repetidas vezes para o FBI, no intuito de denunciar terroristas e evitar um possível futuro ataque, provendo informações sobre membros do grupo que facilitavam viagens. Basicamente, ele estava tentando denunciar o FBI para o próprio FBI.

Suas tentativas falharam, no entanto, tendo sido preso no mês passado e indiciado por financiar um grupo terrorista estrangeiro. Os agentes esperaram que se tornasse maior de idade para poderem perseguir penas mais duras. O processo ainda corre na justiça e mais detalhes serão disponibilizados com o tempo. Caso condenado, Ventura pode permanecer 10 anos na prisão.

III

Mohammed Hossain é um dos tantos que imigram para os Estados Unidos em busca de uma vida melhor. Vindo de Bangladesh, Hossain suportava toda a sua família com sua Pizzaria Pequena Itália. Todos viviam no andar acima dela.

Hossain comprava propriedades deterioradas em leilões e as arrumava para alugar. Aos cinquenta anos, detinha cerca de $1 milhão em propriedades. O dinheiro era curto, contudo, sempre precisando reformar as casas, sustentar a família e bancar as operações da pizzaria.

Certa vez, tentou vender seu negócio, mas posteriormente desistiu. Foi essa a justificativa utilizada por Hussain, um criminoso feito informante do FBI, para se aproximar dele e de sua família.

Um fraudador condenado, acusado de homicídio e sob ameaça de deportação, Shahed Hussain teve poucas opções fora cooperar com o FBI. Logo, contudo, percebeu as vantagens do acordo. Por sua habilidade poliglota, foi selecionado para casos de segurança nacional; agentes infiltrados não são apenas utilizados em operações contra terroristas, mas, por exemplo, contra traficantes de drogas, armas e seres humanos.

Yassin Aref, um refugiado do Iraque, chamou atenção dos agentes federais por motivos ainda desconhecidos. Para tentar se aproximar dele, sendo Imame de uma mesquita, os agentes escolheram um dos membros do corpo diretor, Mohammed Hossain.

Hussain, sob o nome Malik, precisava se aproximar de Hossain. Em visita à pizzaria, quando o irmão de Hossain, Kyum, saiu da cozinha, Hussain o chamou e informou que poderia ajudá-lo a retirar uma habilitação de trânsito; ele se apresentou como um membro do Departamento de Veículos Motores.

Como Kyum, mesmo com seus trinta anos, apresentava problemas de desenvolvimento mental graves, Hossain, em vez disso, percebendo que Malik o queria ajudar, pediu por uma carteira de identidade para o irmão, pois ele se perdia com certa frequência e, sem identificação, a família ficava sem saber se a polícia o havia encontrado.

Malik aceitou e disse que faria todo o procedimento, cobrando $75. O combinado era que, ao deixar Kyum na pizzaria mais tarde, ele receberia o pagamento. No entanto, Malik posteriormente informou que Hossain deveria pagá-lo em seu escritório, nos subúrbios da cidade.

Hossain ficou incomodado, pois ele fazia as entregas da pizzaria e não queria perder pedidos para entregar $75, principalmente em um dos dias da semana mais movimentados do negócio. Como foi resultado de um favor, no entanto, ele decidiu por ir até o local combinado.

Lá, Malik iniciou uma conversa sobre como os servos de Allah podem servi-lo de duas formas: pelo jihad e fazendo dinheiro. Não são condutas excludentes, então, que mal há de fazer as duas? Dito isso, Malik se declarou um importador de armas da China. No local combinado de encontro, um galpão de concreto com paredes brancas e caixas empilhadas por todos os lados, as caixas continham armas, algumas que, segundo ele, poderiam derrubar aviões.

Malik tinha suas razões para trazer Hossain para o galpão. O local combinado havia sido equipado com equipamentos de escuta e vigilância pelo FBI.

Durante as semanas seguintes, ele manteve suas visitas regulares na Pequena Itália. Malik dizia coisas como: “Se não auxiliamos nossos irmãos, não somos verdadeiros muçulmanos”. Hossain mencionou diversas vezes que estava com pouco dinheiro, Malik, então, fez uma proposta: ele emprestaria $50.000 em dinheiro, Hossain poderia ficar com $5.000 e o pagaria os restantes $45.000 em parcelas. Hossain aceitou. Pelo costume muçulmano, um líder religioso era preciso para supervisionar o acordo. Por meio de restrições impostas pelo próprio informante, o candidato que mais se encaixava foi o efetivamente escolhido: Yassin Aref.

Novamente no galpão com as armas, local escolhido para a transação, Hossain e Aref se encontraram com Malik. Aref recebeu as notas e começou a contá-las. Nesse instante, Malik pegou o que disse ser um mecanismo de lançamento para um lançador de míssil. Ele pronunciou, contudo, míssil como “meezile”. Aref, com seu inglês parco, não registrou a fala, permanecendo a contar o dinheiro. Ele posteriormente declarou nunca ter escutado a palavra e não ter percebido que se tratava de parte de um armamento.

Após o fato, o FBI esperou por meses alguma atividade criminosa do par, mas não obteve nada. Mesmo assim, os dois foram presos em agosto de 2004, indiciados por conspirar e ajudar um grupo terrorista estrangeiro. O dinheiro recebido por Hossain, o qual ele considerava ser um empréstimo, foi considerado parte de um esquema de lavagem de dinheiro.

O júri não os condenou pela acusação de terrorismo, mas manteve a de lavagem de dinheiro. Ambos receberam uma pena de quinze anos de prisão.

Hossain posteriormente declarou que ele não tinha como provar se o negócio de importação de armas da China era ilegal, ele acreditava ser uma operação dentro da lei. O próprio Malik assim o assegurou. Os Estados Unidos enviam armas para guerras no exterior, em suporte a grupos islâmicos, inclusive. Hossain não questionou a origem do dinheiro, pois Malik havia mencionado durante suas conversas que tinha contatos no FBI. Ele não queria fazer falsas acusações e acabar sendo processado por isso.

Uma das razões por Hossain aceitar o dinheiro foi ter pensado que Malik assim o deixaria em paz. Ele havia se tornado uma constante em sua vida, se aceitasse o dinheiro, pensou que o deixaria em paz. “As pessoas são assim, elas te incomodam até você fazer o que elas querem”, posteriormente declarou.

Hossain não tinha motivos para financiar ou participar de grupos terroristas. Na verdade, o único que conheceu foi o informante do FBI. Por sofrer de diabetes e hipertensão, sua vida na cadeia piorou seu estado de saúde. Como era o único que sustentava a família, com sua prisão, a pizzaria foi fechada.

“Meus filhos precisavam de uma figura paterna. Eles se desviaram. Não os conheço mais”, declarou em entrevista concedida de dentro da cadeia para o jornalista Trevor Aaronson.

IV

O mesmo Shahed Hussain permaneceu como informante para o FBI.

Tempos depois, em uma mesquita, Hussain, agora sob o nome Maqsood, conheceu James Cromitie. Cromitie, um homem de quarenta e cinco anos, estoquista do Wallmart, anteriormente preso por vender drogas, tendo sido um dependente ele mesmo, trabalhava para reconstruir sua vida. Por seu histórico de problemas psicológicos, por sua situação financeira, por ser facilmente manipulável, bem como seu preconceito aberto e paranoia contra os judeus, no entanto, o tornaram alvo fácil para um informante que ganhava por caso e por condenação.

Hussain, durante suas conversas com Cromitie, repetidamente incitava seu ódio e sua paranoia. Dizia, por exemplo, que ele estava destinado a coisas maiores, e que os judeus estavam nas altas esferas de poder. Cromitie acreditava que os judeus o desprezavam por sua religião. Por meses, Hussain lentamente trabalhou para convencer seu alvo a praticar atos em nome de Allah.

Com o passar do tempo, os dois se tornaram amigos próximos. Cromitie se gabava de ter realizado no passado diversos crimes e ataques; todos frutos de suas invenções e meras tentativas de se mostrar para seu novo amigo. Hussain disse a Cromitie possuir contato com membros do grupo terrorista Jaish-e-Mohammed, mas Cromitie nunca havia ouvido falar deles.

As conversas seguiam o tom habitual, até o dia em que Hussain perguntou qual alvo ele achava ser apropriado para um ataque terrorista. Cromitie respondeu ser um bom alvo uma ponte, mas Hussain o advertiu de que elas eram difíceis de derrubar. O informante precisava criar uma situação mais realista para seguir com o caso.

Hussein propôs atacar o Aeroporto Internacional de Stewart, com sua base da Guarda Nacional adjacente, além de sinagogas. Hussain, então, precisou se afastar por dois meses, justificando sua ausência para se encontrar com outros membros do Jaish-e-Mohammed. Cromitie deveria recrutar pessoas e seguir com o plano enquanto ele estivesse fora; o que ele não fez. Seus dois próximos meses foram investidos por ele em seu trabalho no Wallmart e vendo televisão.

Hussain deu $1800 para Cromitie adquirir armas; mesmo que tudo falhasse, eles ainda teriam a chance de condená-lo por essa base; mas ele foi incapaz de encontrar um vendedor.

A operação não estava indo a lugar algum. Nada progredia sem a iniciativa do informante. Hussain informou Cromitie que seus parceiros do Jaish-e-Mohammed estavam felizes com ele e o deram autorização para agir. Cromitie recrutou mais três indivíduos, conhecidos seus com histórico de pequenos crimes e que haviam se convertido recentemente ao islam. Todos, no entanto, participavam não pela ideologia, mas pelo dinheiro prometido.

A ideia estabelecida era a de detonar bombas em carros estacionados em frente a Sinagogas no Bronx, rumar para Newburgh e usar mísseis para derrubar aviões. Com a data do ataque se aproximando, Cromitie mostrou desconforto com o prospecto de matar ou ferir pessoas. Para convencê-lo, Hussain precisou inflamá-lo mais uma vez, dizendo que não queria matar mulheres ou crianças, mas não se importaria se soldados americanos ou homens judeus morressem. Cromitie concordou e o plano seguiu em frente.

O FBI havia preparado bombas falsas. Em maio de 2009, Hussain, Cromitie e seus perigosos comparsas entraram em um carro e rumaram à Nova Iorque. Mesmo tendo anteriormente mostrado como ativar as bombas, como eles ainda não haviam entendido, Hussain precisou encostar o veículo na estrada e mostrar o processo mais uma vez.

Como o informante havia prometido, seus parceiros do Jaish-e-Mohammed haviam deixado três carros em frente ao Templo e Centro Judeu de Riverdale. Os carros, em verdade, haviam sido colocados lá pelo FBI. Em cada porta-malas, Cromitie colocou uma das falsas bombas. Quando retornou ao carro de origem, foi surpreendido por agentes da SWAT.

Os quatro foram indiciados por conspiração para usar armas de destruição em massa, tentativa de utilizar armas de destruição em massa e conspiração para matar oficiais dos Estados Unidos. O FBI concedeu uma entrevista de imprensa logo depois da operação. Todos os quatro foram condenados a 25 anos de prisão. Hussain recebeu $96.000 por seu trabalho.

V

Lata Duka e seu marido Firik, ambos muçulmanos étnicos albaneses, decidiram deixar sua vila e imigrar para a América para prover uma vida melhor aos seus três filhos. A família Duka imigrou para os Estados Unidos para fugir da extinta Iugoslávia. De um campo de refugiados na Itália, foram transportados para a Cidade do México, onde cruzaram de canoa para o Texas. Após 12 horas de viagem, chegaram ao seu destino: Brooklyn, Nova Iorque.

A vizinhança era difícil, com diferentes grupos étnicos na região, brigas e conflitos eram comuns. Os meninos com certa frequência chegavam em casa com olhos roxos ou lábios inchados. O nível de inglês de todos era baixo, o que dificultava a adaptação no novo país. Mesmo com as dificuldades, a família estava se esforçando para começar uma nova vida.

Foi no Brooklyn que a família, já com três filhos, cresceu ainda mais. Lata e Firik ganharam uma menina, Naze, e mais um menino, Burim. Os irmãos mais velhos, no entanto, largaram a escola, passando mais tempo nas ruas, sendo detidos repetidas vezes por conduta desordeira e posse de maconha.

Com a crescente preocupação de seus pais, e vendo seus filhos se desviarem, o motivo original de terem imigrado, a família se mudou para um apartamento de dois quartos nos subúrbios de Cherry Hill, Nova Jersey.

A mudança parece ter dado certo. Com o passar dos anos, os irmãos deram prosseguimento a suas vidas, focados na família e no trabalho. Também tornaram-se mais religiosos, passando a estudar o islã e a frequentar mesquitas, para a alegria de seus pais. Os irmãos estavam trabalhando em sua própria empresa de instalação de telhados, e o negócio andava bem.

Shnewer era um taxita, cuja irmã estava noiva de Eljivir. Os irmãos, mesmo o descrevendo como imaturo, eram seus únicos amigos. Shnewer sempre queria impressioná-los, por serem mais velhos e possuirem o prestígio de serem caras durões do Brooklyn. Para isso, ele inventava histórias.

Shnewer conheceu Omar e esse logo ele se tornou seu amigo e uma figura de confiança. Com o avanço de sua amizade, conversavam sobre diversos assuntos, sobre política, religião e as guerras no Oriente Médio.

Omar começou a incentivá-lo, dizendo que era hora de começar a agir e fazer alguma coisa. Os dois começaram a debater ideias sobre o que poderiam fazer sobre isso. Como poderiam participar e ajudar seus irmãos muçulmanos. Os dois, então, começaram a discutir a ideia de atacar a base militar Fort Dix, próximo a Trenton. O problema era que eles precisavam de mais pessoas para executar o plano.

Uma delas foi Serdar Tatar, também amigos dos irmãos Duka. O pai de Tatar era dono de uma pizzaria e Tatar fazia entregas na base, possuindo para isso um mapa. Tatar agora trabalhava em uma 7-Eleven. O estabelecimento era frequentado pelo Sgt. Dean Dandridge. Ao tomar conhecimento do plano, Tatar o informou que acreditava estar Omar planejando um ataque terrorista. Dandridge, então, repassou a informação para o FBI. Eventualmente, e por motivos ainda hoje não completamente entendidos, Tartar, após muita insistência de Omar, o passou o mapa da base. Esse ato seria posteriormente utilizado para incriminá-lo.

Em um Dunkin’ Donuts de Cherry Hill, local frequentado pelos irmãos Duka, Besnik Bakalli falava alto em albanês no telefone, o que chamou atenção dos irmãos que vieram com ele conversar. A estratégia havia funcionado. Apresentando-se como um indivíduo recém-divorciado, com problemas financeiros e emocionais, contou que um amigo seu havia tentado estuprar sua irmã e, quando foi confrontá-lo, acabou por matá-lo. Em desespero, imigrou para os Estados Unidos ilegalmente, e agora sente saudades de sua terra natal. Os irmãos foram tocados por sua história e decidiram ajudá-lo. A família o acolheu e ele foi empregado em sua empresa de telhados.

Bakalli conversava com os irmãos sobre política e jihad. Ele os pressionava para fazer alguma coisa e defender os muçulmanos. Mesmo com as constates pressões, os irmãos mantinham-se firmes em afirmar que suas obrigações estavam com suas famílias, especialmente seus filhos.

Omar e Bakalli eram, na verdade, informantes do FBI. Bakalli, 29 anos, imigrante ilegal da Albânia, estava na cadeia esperando ser deportado quando o FBI o cooptou para se tornar informante da agência.

A operação não estava indo bem, contudo. Após um ano, os dois não haviam conseguido nada para construir um caso contra os irmãos. Era necessário, então, mudar a tática.

Os Dukas adoravam armas, parte de sua herança albanesa, que considera as armas como uma forma de mostrar masculinidade. Omar sabia disso, e também que, como eles não possuíam a documentação necessária de imigração, não poderiam legalmente adquirir armas. Era a oportunidade perfeita.

Omar disse possuir um amigo dono de uma loja de armas que gostaria de vender algumas com um bom desconto. Com ele assegurando ser seu amigo alguém confiável e “legítimo”, e vendo a oportunidade como muito boa para deixar passar, os irmãos concordaram em acompanhá-lo para ver as armas ofertadas. Em um apartamento, enquanto inspecionavam as armas que pretendiam comprar, agentes da polícia invadiram o local e os detiveram. O FBI finalmente tinha o seu caso.

Quando souberam o motivo de estarem sendo detidos, pensaram inicialmente se tratar de um engano. Shnewer havia implicado os irmãos, em suas conversas com Omar, no plano de atacar a base militar. Os irmãos, em verdade, de nada sabiam. Shnewer, Tatar e os irmãos Dritan, Shain e Eljvir foram todos indiciados por conspirar para atacar militares, além das ofensas relativas às armas que tentaram comprar ilegalmente.

Em uma coletiva de imprensa anunciando o feito, o procurador Chris Christie elogiou os esforços para impedir o que chamou de uma ameaça iminente.

Omar, durante seu longo envolvimento com Shnewer, o pediu para fazer o download de vídeos de extremistas islâmicos. Os irmãos às vezes também assistiam. Esses vídeos foram reproduzidos no tribunal, tratados como provas de radicalização, bem como apelo emocional por mostrarem cenas que faziam alusão ao que supostamente os réus pretendiam realizar.

Mesmo Shnewer tendo posteriormente por escrito declarado que havia mentido em suas conversas com Omar e que os irmãos de nada sabiam, em dezembro de 2008, o júri proferiu o veredito de culpado para todos os envolvidos. Os irmãos Shain, Dritan e Eljvir foram condenados à prisão perpétua, aos 26, 28 e 23 anos, respectivamente.

O procurador Ralph Marra, após a sentença, se disse satisfeito com o resultado. A pena perpétua era apropriada para esses jovens que demostraram um ódio profundo pelos Estados Unidos. Para a proteção do público, a justiça havia sido feita.

Os cinco filhos de Dritan estão crescendo sem um pai. Lata e Firik estão criando seus netos por conta própria. Burim, o único dos irmãos em liberdade, precisou largar os estudos para sustentar a família.

Omar recebeu $238.000 por sua participação no caso. O procurador Chris Christie se tornou o 55º governador do estado de Nova Jersey. Em seus discursos, cita seus esforços no combate ao crime, como o caso Duke, um dos pontos altos de sua carreira, e que o ajudaram a ter a boa reputação que hoje possui.

VI

As agências de segurança e inteligência do governo americano utilizaram os atentados terroristas realizados em 11 de setembro para elevar suas capacidades e justificar seu crescimento. Técnicas que antes seriam consideradas abusivas agora são empregadas de forma recorrente. Os cidadãos americanos têm seus dados e comunicações coletados em massa em nome da segurança nacional. Comunicações com estrangeiros são registradas e guardadas para potencial uso futuro. Um mundo seguro é um mundo onde os criminosos são punidos antes de cometer os crimes. Um mundo em constante vigilância total em nome da segurança.

Mesmo que a ideia inicial tenha sido a proteção da população, nos anos de paranoia após o 11 de setembro, o propósito foi corrompido para justificar o poder adquirido. Deve-se manter viva a guerra ao terror. O problema com os estados é que não se pode resolver o problema quando sua existência, sua relevância e sua verba, dependem dele. Os casos aqui descritos compõem apenas uma pequena parte dos cerca de 180 existentes. O FBI ativamente cria a maior parte das ameaças terroristas que tão orgulhosamente diz combater. Em verdade, utilizam criminosos como informantes para criar terroristas onde antes existiam indivíduos comuns ou com doenças mentais graves, bem como por meio de manipulação ativa de pessoas que não apresentavam a capacidade necessária para realizar os atos por conta própria. A agência é responsável, por grande margem, por mais planos terroristas nos Estados Unidos do que a Al-Qaeda e o Estado Islâmico combinados. A agência ativamente cria as ameças que neutraliza para justificar suas ações como sendo de proteção do público e da nação americana.

Por serem nomeados como casos de terrorismo, as penas impostas são extremamente duras. Diversas irregularidades foram encontradas em testemunhas utilizadas pela procuradoria, bem como dificuldades enfrentadas pelos advogados de defesa pelo fato das provas serem tratadas como sigilosas. Autodenominados especialistas são chamados para testemunhar contras as vítimas, com seu suposto conhecimento sobre terrorismo e seus métodos de ação. Há casos nos quais, mesmo quando seu conhecimento é claramente questionável, seus testemunhos ainda são aceitos no julgamento.

A ameaça de terrorismo é real, mas seu perigo concreto é artificialmente elevado por agências federais de inteligência que dependem da narrativa para justificar seu poder e suas práticas. Os recursos gastos em casos desse tipo dificultam o combate ao terrorismo real. O resultado não é a criação de um país mais seguro, mas a destruição das vidas de indivíduos inocentes e de suas famílias.

Muda-se o contexto, mas, em fundamento, não há nada de novo nas engrenagens sujas do poder.


Essa reportagem especial foi fortemente baseada no trabalho dos jornalistas investigativos Trevor Aaronson, Murtaza Hussain e Razan Ghalayini.

Gabriel Camargo

Autor e tradutor austrolibertário. Escreve para a Gazeta com foco em notícias internacionais. Suas obras podem ser encontradas em https://uiclap.bio/GabrieldCamargo

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