Como o marxismo influencia outras correntes – parte dois

marxismo

A ideologia marxista vem sendo refutada pelos pensadores liberais e libertários a mais de um século. Mesmo quando o mundo se deparou com o surgimento da União Soviética (URSS) após a Revolução Russa foi um exemplo disso, os intelectuais mantinham suas críticas.

Mas podemos dizer que mesmo sendo uma ideologia obsoleta a estrutura das ideias de Marx desapareceram? Ou é possível elencar parte da estrutura que se tornaram realidade e seguem vigentes até hoje? A seguir, selecionamos alguns exemplos, que influenciam até mesmo movimentos libertários. Essa é a parte dois do texto, encontre a parte um aqui.

Guerra Cultural

Neste ponto iremos apontar os principais elementos levantados por Trotski e Gramsci em relação ao como expandir a ideologia criada por Marx. Neste sentido na produção marxista pode ser encontrada o entendimento de cultura basicamente em duas perspectivas: ampla e restrita. Na perspectiva ampla, a cultura pode ser compreendida como uma criação do homem, resultante da complexidade crescente das operações de que esse animal se mostra capaz no trato com a natureza, e da luta a que se vê obrigado para manter-se em vida, independentemente de qualquer forma social. É, pois, a cultura o processo pelo qual o homem acumula as experiências que vão sendo capaz de realizar, discerne entre elas, fixa as de efeito favorável.

Partindo da compreensão da realidade com suas contradições e mediações, percebe-se que todas as esferas da vida serão influenciadas e regidas pelas mesmas, o que não é diferente com a produção cultural que, atrelada à produção econômica, apresentará a contradição como elemento central do seu desenvolvimento. “A cultura espiritual é contraditória como a cultura material […] A cultura é um fenômeno social” (Trotski, 1981). A cultura é, ainda segundo o autor, um momento da maior importância na “opressão de classe”, não obstante, contraditoriamente, também possua um papel importante na luta para a “emancipação socialista”.

Reforçando o princípio de que a partir do velho é que poderá surgir o novo, Trotski emprega grande esforço na defesa da apropriação dos bens culturais produzidos pela humanidade até então, principalmente das artes de origem burguesa.

A exemplo apresenta o desenvolvimento da cultura burguesa, que “começou vários séculos antes que a burguesia, por meio de uma série de revoluções, tomasse o poder do Estado. Quando apenas representava o Terceiro Estado, quase sem direitos, a burguesia já desempenhava um grande papel, que crescia sem cessar em todos os domínios do desenvolvimento cultural.

Já a ideia de marxismo cultural faz alusão, na verdade, à visão de outro filósofo comunista, Antonio Gramsci, que fez uma releitura das ideias de Marx e formulou um marxismo diferente, reduzindo o peso do materialismo dialético.

O materialismo dialético de Marx diz que as relações econômicas (capitalistas x proletariado) determinavam a moral, a política, o direito, a religião, a família e a estética (enfim, a cultura) da sociedade. Gramsci, por outro lado, acreditava no contrário: é a cultura burguesa que determina que as relações econômicas sejam capitalistas. Nesse sentido, Gramsci formulou a teoria da hegemonia cultural, que descreve como o Estado usa, nas sociedades ocidentais, as instituições culturais para conservar o poder.

Em contraponto à este posicionamento referente ao poder da cultura, os conservadores começaram a lutar contra o que seria a “ameaça comunista” e que foi utilizada como justificativa para instauração de regimes ditatoriais em dois momentos da história brasileira: A ditadura varguista empregou o chamado Plano Cohen – forjou um plano de tomada de poder pelos comunistas no Brasil para justificar a instauração do Estado Novo. De forma semelhante, em 1964, a ameaça comunista também foi utilizada para justificar o Golpe Militar.

O argumento, portanto, é de que a própria teoria sobre o marxismo cultural seria uma tentativa de gerar preocupação entre a população e implementar outra ideologia – no caso, a conservadora – nos meios culturais, desempenhando justamente o papel que acusavam a esquerda de desempenhar. Ou seja, usar a estrutura de coerção estatal para colocar sua ideologia de forma hegemônica e perseguir quem for contrário. Assim sendo, de igual modo criminalizando a opinião assim como feito pelos comunistas.

O problema que a Guerra Cultural feita contra a burguesia pelos marxistas e contra os comunistas feita pelos conservadores vem influenciando parte dos liberais e libertários. Muitos dos defensores das liberdades individuais vem justificando a necessidade de criação de leis que restrinjam a liberdade de opinião.

E o mais grave. Grupos libertários estão começando a acreditar que a tal “Guerra Cultural” deva ser uma frente de batalha. Esquecendo que os indivíduos são livres para fazer suas escolhas e que cada um deve se preocupar em fazer o melhor para sua vida e para sua família.

A síndrome de herói

Como reflexo do item anterior, os marxistas acreditam que tem por obrigação salvar o mundo das mazelas criadas pelo capitalismo. E quem não quer ajudar a mudar o mundo para melhor? A resposta parece óbvia, mas exige reflexão. De que maneira os heróis vermelhos podem realizar uma mudança verdadeira e duradoura?

Sendo assim, a verdadeira transformação do mundo exige um trabalho conjunto de identificação de oportunidades e criação de condições para a multiplicação dessas mesmas oportunidades. O mundo é contraditório por natureza. E essas contradições só podem ser eliminadas quando mexemos nas estruturas em que a sociedade está alicerçada. Por isso a conscientização (via revolução cultural) se faz necessária. Atitudes individuais não mudam o mundo se as bases permanecem intactas.

Para os marxistas a política faz parte de todos os elementos da sociedade pois até ignorar a política é um ato político. Portanto, deve ser levado em conta as condições existentes entre o individual e o coletivo, o particular e o universal, o micro e o macro. Essas condições se retroalimentam. E como o nível micro é cheio de pequenas diferenças, das experiências específicas às questões de desigualdade, a habilidade de escolher no micro é constantemente abafada pelas tendências do macro. A política está aí, influenciando e conscientizando a sociedade o tempo todo.

Não se deve pensar na conscientização como um processo mecânico, ensinado em passos fáceis de ser dados e com os mesmos resultados previstos. Muito menos é um processo natural. Acreditar que por passar por determinadas experiências as pessoas ganham mais consciência social é um equívoco. Isso porque, como escrito por originalmente por Marx que quanto pior o mundo capitalista ficaria, mais a sociedade irá se aproximar dos seus limites, até agirem em busca de mudanças bruscas. Se isso fosse verdade, os momentos históricos em que milhões morreram de fome e em conflitos, não teriam acontecido.

A conscientização não tem fórmula pronta, mas aprendizados, boas práticas, solidariedade, imaginação e instrumentos para serem usados no meio do caminho. E o encontro das consciências em contradição resulta na politização. Para isso, é preciso olhar muito além da superfície. Conectar o individual ao universal é tarefa de grande importância e precisa ser desenvolvido para entender a sociedade e assim transformá-la. Então, na visão marxistas não seria possível apenas tentar transformar uma pequena bolha, porque as mudanças seriam restritas e ficariam vulneráveis. Por isso, desde Marx, o radicalismo se faz necessário para articular mudança, resistência e solidariedade internacionais para mudar o mundo para melhor.

Portanto, a visão de que todo marxista é um soldado na causa de mudar o mundo para melhor também foi abraçada pelos conservadores que promovem a sua contrarrevolução e neste cenário pode ser destacado o filosofo Olavo de Carvalho e o bolsonarismo.

Tal fenômeno vem destruindo o movimento libertário no Brasil. Vários influenciadores abraçaram a roupa do herói e vem defendo políticos na luta contra a possível vitória do comunismo. Ao invés de lutar pela abolição em relação ao estado vários libertários vem defendendo que o estado seja usado como uma barreira contra marxismo.

Neste aspecto fica claro que cada vez mais os conservadores e alguns libertários estão virando marxistas e em breve clamarão por uma ditadura conservadora.

Miguel Angelo

Coordenador Técnico do Mova-se Fórum de Mobilidade

One thought on “Como o marxismo influencia outras correntes – parte dois”

  1. Não sei em que data o escrito foi redigido, mas infelizmente já se pôde ver os primeiros “libertários” clamando por uma ditadura conservadora, e pior, não fora por falta de aviso ou oposição. É triste, mas acredito que esse pessoal tenderá a minguar, ou o termo “libertário” no Brasil vai acabar encontrando o mesmo fim daquele que é usado nós Estados Unidos

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