sexta-feira, fevereiro 3, 2023

Os atos em Brasília geraram algum resultado prático?

Os atos realizados em Brasília na tarde desse último domingo exemplificam perfeitamente a dinâmica de dominação estabelecida. Os apoiadores de Bolsonaro não apenas cometeram o erro de confiar em políticos, mas nas forças armadas que, quando necessário, lutam para manter o mesmo poder que os oprime.

Sob a ilusão das forças de segurança servirem à população, por meses, manifestantes suplicaram por uma intervenção militar para “salvar o Brasil” da ameaça do comunismo e do autoritarismo. Na verdade, as forças de segurança realizam a segurança das elites, blindando-as da ameaça representada pela população que comanda. São braços armados utilizados para garantir a continuidade da exploração.

O processo democrático mantém a ilusão de poder de decisão ao povo subjugado. Sob a ilusão de políticos serem mais que humanos, transformados em figuras a serem veneradas, são neles projetadas as imagens de salvadores e de grandes líderes com a capacidade para guiar e salvar a nação e o povo dos males que os ameaçam. A esperança é fundamental para a manutenção e perpetuação do sistema de dominação, pois, sob o véu da esperança, o poder continua majoritariamente nas mesmas mãos e com os mesmos interesses fundamentais. O sentimento de revolta também é algo natural na democracia, pois ela, assim como a esperança de uma realidade melhor, serve de motor para manter o sistema vivo.

O que vimos no domingo foram indivíduos confusos expressando sua raiva na destruição de patrimônio estatal. Como todo o patrimônio estatal é ilegítimo, seguindo sua própria existência, os atos de destruição não violaram a ética de propriedade, mas também não foram eficazes para atingir os objetivos propostos. Nem poderiam ter sido. As reivindicações nunca foram sobre liberdade, nem mesmo uma crítica às instituições estatais, mas apenas aos seus ocupantes temporários.

A destruição física de prédios e instalações pertencentes ao estado pode ser um ato simbólico para representar o descontentamento, mas o verdadeiro poder do estado se encontra nas mentes das pessoas que o apoiam, nenhuma destruição física será efetiva para erradicar um mal que, na verdade, vive dentro de cada um que nele acredita.

Os atos de domingo, além de inúteis para o avanço da liberdade, justificaram ações que promoverão exatamente o contrário. Os efeitos do que ocorreu fortalecerão ainda mais o poder estatal, assim como ocorreu durante a recente pandemia. As fronteiras da ação estatal são estendidas quando justificativas são encontradas para a sua expansão. O que antes não teria sido aceito, agora o é.

Assim, mesmo que a conta-gotas, o estado se fortalece e mais profundamente se consolida na vida e nos contextos sociais. A potencialidade pode já existir, mas a consolidação apenas surge com a atualização da multifacetada ilusão sob a qual se aceita a nova realidade do poder.

Agora, com a justificativa de garantir a segurança e o processo democrático de um estado de direito, elevações no nível existente de censura serão mais facilmente toleradas, bem como o aumento do monitoramento de comunicações eletrônicas e prisões de dissidentes. A mídia, o braço informacional do poder estabelecido, classificará, em todas as oportunidades possíveis, os atos como terroristas ou de vandalismo realizado por extremistas e golpistas, para implantar a ideia, elevando a gravidade do problema, de que uma solução estatal está justificada e deve ser estabelecida.

A verdadeira libertação apenas virá quando a esperança no estado deixar de existir.

Contrariamente à crença de muitos, o estado não surgiu de uma vontade coletiva de sair de um estado de anarquia, por meio da abdicação de direitos em prol de proteção e segurança, visto que a sociedade não pode se estabelecer em um regime de perpétua luta e conflito, em um território sem leis. As bases para o crescimento civilizacional não surgiram devido ao estado; o estado não criou a ordem social, ele a corrompeu para perpetuar seus interesses.

Por seu caráter invariavelmente parasitário, a classe dominante em contexto estatal necessita ser numericamente muito inferior ao número de indivíduos dominados. Os benefícios advindos dessa dinâmica desigual fazem surgir um grave problema: a falta de equilíbrio de forças entre dominadores e dominados; uma lacuna abismal. Porém, essa lacuna não pode ser permitida existir, pois o estado precisa manter sua maior capacidade geradora de violência.

Mas o estado não necessita apenas de força para exercer seu poder sob a população; necessita para que possa se defender dos ataques dos demais parasitas estacionários que com ele competem por controle e influência. Não é por mero acaso que os estados investem somas absurdamente elevadas no desenvolvimento de novas armas e métodos para matar. Não é por acaso que estados queiram desarmar sua população, ou impedir que tenham acesso às mesmas armas que dispõe. Não é por mero acaso que investem tanto em propaganda. A lacuna criada precisa ser mantida. Essa é uma das condições fundamentais para a perpetuação do poder. Esse é o motivo que lastreia a magnitude dos gastos militares mundiais anualmente. Essa é a razão para a infiltração e corrupção das bases que compõem a sociedade.

A realidade na qual vivemos foi construída pelos detentores do poder, a fim de perpetuá-lo. A ilusão é profunda e multifacetada, tanto para membros da população geral quanto para os próprios indivíduos pertencentes ao estado. O sistema de poder foi aprimorado ao longo dos milênios, tendo tomado para si os diferentes aspectos da vida cotidiana e monopolizado tarefas e serviços que antes eram vistos como papel da família e da comunidade.

Assim, lentamente infiltrando-se nos diferentes meandros da vida social e da realidade econômica existente, a classe dominante fez germinar um sistema de manutenção do poder adquirido, com capacidade de se retroalimentar e contribuir com a ilusão que o torna possível.

Em verdade, os donos do poder são mais vulneráveis do que aparentam. Raramente um detentor do poder coagirá diretamente a população. Ele depende dos braços armados e da propaganda. Só, não consegue nada fazer. Precisa dos outros e essa dependência é seu ponto fraco.

Em essência, os donos do poder não são tão corajosos quanto aparentam, pelo contrário, tendem a ser os mais covardes, pois sua aparente coragem tem como fundamento a diferença da capacidade de violência que eles mesmos seriam incapazes de praticar, mas que ordenam que seja praticada em seu nome. Quando a força derivada da incapacidade de resistência nada mais é do que um disfarce para a covardia.

O poder de todos os ditadores provém dos indivíduos que estão abaixo dele na escala hierárquica. As verdadeiras ameaças não são os membros da classe política, mas todos os que pertencem à cadeia de comando que efetivamente executa suas leis e decretos. Esse fenômeno também envolve os membros da própria população, cooptados desde a sua infância para se tornarem defensores do estado.

Se o estado inicia no ponto onde ocorre a sistematização da coerção, termina no ponto onde ocorre a sistematização do consentimento.

As maiores agressões, bem como os episódios históricos contendo os maiores níveis de violência, foram apenas possíveis por meio do aparato estatal. O caminho traçado pelo estado será sempre o de dor, ódio, sofrimento e violência; o aparato estatal constitui a mais destrutiva das criações humanas.

A legitimidade do estado advém de uma ilusão coletiva presente na sociedade que o fundamenta. Um escravo que se vê como um ser livre não lutará para abolir o sistema que o oprime, ao contrário, lutará para perpetuá-lo. A informação dá forma ao conhecimento. O conhecimento compõe a mentalidade e a mentalidade fundamenta a ordem social vigente. O real caminho rumo à liberdade está, então, definido.

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