quarta-feira, dezembro 7, 2022

Os militares americanos desejam uma nova guerra fria e o dinheiro que vêm com ela

Talvez na publicação mais previsível do ano, o Wall Street Journal desta semana apresentou uma coluna de Walter Russell Mead declarando que “é hora de aumentar as despesas com defesa e o exército americano”. Utilizando os Jogos Olímpicos de Pequim e a potencial guerra da Ucrânia para empurrar para cada vez mais dólares dos pagadores de impostos para os militares, Mead descreve como essas despesas devem ser aumentadas para corresponder aos gastos que não são vistos desde a Guerra Fria.

Ele afirma que “o mundo mudou, e a política americana precisa mudar com ele”. A presunção aqui é que o status quo é de gastos militares em declínio, nos quais os americanos adotaram algum tipo de política externa isolacionista. Mas a realidade não reflete de forma alguma essa afirmação. O status quo é um dos maiores gastos militares, e até mesmo de crescimento absoluto na maioria dos anos. Esse tipo de gaslighting pelos “falcões militares” (military hawks) está no mesmo nível das tentativas da esquerda de pintar a economia moderna como um laissez-faire não regulamentado.


Pelo contrário, de acordo com estimativas do Gabinete de Gestão e Orçamentos da Casa Branca, as despesas militares deverão atingir um recorde pós Segunda Guerra Mundial em 2022, subindo para mais de $1,1 triliões de dólares. Isto inclui 770 bilhões de dólares gastos no Pentágono, mais armas nucleares e despesas relacionadas. Também estão incluídas as despesas correntes com os veteranos. Manter os gastos dos veteranos à parte dos gastos com a defesa é uma ficção política conveniente e sorrateira, mas os gastos dos veteranos são apenas gastos diferidos para os combatentes do passado – necessários para atrair e reter pessoal. E finalmente, temos a parte da “defesa” dos juros da dívida, estimada em cerca de 20% do total dos gastos com juros. Tomando tudo isto, verificamos que a despesa militar aumentou treze anos em relação aos últimos vinte e está agora nos níveis mais elevados desde a Segunda Guerra Mundial ou próximo deles.

Gastos totais com defesa em dólar.

Surpreendentemente, isso não é suficiente para Mead, que gostaria de ver as despesas militares mais próximas da média da Guerra Fria, que foi de 7% do Produto Interno Bruto (PIB), em comparação com as despesas atuais que são um pouco menos de 4%. Para recuperar esta média seria necessário pelo menos 300 bilhões de dólares adicionais em despesas, e possivelmente até níveis de gastos nunca vistos desde os velhos tempos da Guerra do Vietnam. Naqueles dias, é claro, os EUA estavam ocupados em gastar enormes quantidades de riqueza dos pagadores de impostos numa guerra perdida, que custou dezenas de milhares de vidas americanas. A despesa era tão grande que o regime americano foi levado a quebrar a última ligação do dólar ao ouro e sujeitar os americanos a anos de controle dos preços, inflação, e outras formas de crise económica.

Mas nada disso vai dissuadir os imperialistas como Mead, que batem incessantemente no tambor para aumentar despesas militares. Note-se também que Mead utiliza a métrica “despesa como uma porcentagem do PIB”, que é uma métrica favorita dos falcões militares. Eles a utilizam porque, à medida que a economia dos EUA se tornou mais produtiva, rica, e geralmente com uma estrutura de capital maior, os EUA têm sido capazes de manter níveis altíssimos de despesa militar sem aumentar a quantidade de despesa em relação ao PIB. A utilização desta métrica permite aos militares criar a falsa impressão de que as despesas militares estão de alguma forma diminuindo e que os EUA está sendo assumido pelos pacifistas não armamentistas. Na realidade, os níveis de despesas continuam a ser muito elevados, é só que a economia de forma mais ampla tem sido robusta.

No entanto, mesmo utilizando esta métrica – e depois fazendo a comparação com outros grandes exércitos – verificamos que a narrativa de Mead não adiciona em nada. Estes números não sugerem de forma alguma que o regime americano esteja sendo apagado pelos rivais em termos de despesas militares.

Por exemplo, de acordo com o Banco Mundial, a China – com um PIB comparável ao dos EUA – tem uma despesa militar de cerca de 1,7% do PIB (a partir de 2020). Entretanto, o total foi de 3,7% PIB nos Estados Unidos. A despesa militar russa aumentou para 4,2% do PIB em 2020, mas isso com base num total do PIB que é uma pequena fração do PIB dos EUA. Especificamente, a economia russa é menos de um décimo do tamanho da economia dos Estados Unidos. Assim, quando olhamos para as despesas militares reais, verificamos que a desconexão é bastante clara.

Segundo a Base de Dados de Despesas Militares do SIPRI, em 2020 as despesas militares chinesas totalizaram aproximadamente $245 bilhões de dólares (considere a cotação de 2019). Na Rússia, o total foi de $66 bilhões de dólares. Nos EUA, o total – que na base de dados do SIPRI exclui as despesas e juros com os veteranos – ascendeu a $766 bilhões de dólares em 2020.

Em outras palavras, a despesa militar total destes supostos rivais equivale a meras frações da despesa total nos EUA. Além disso, como o estudioso chinês Michael Beckley observou, os EUA beneficiam do capital militar preexistente – pensar no know-how militar e na capacidade produtiva – construído ao longo de décadas. Mesmo que os EUA e a China (ou a Rússia) estivessem a gastar montantes comparáveis em capacidade militar neste momento, isto não demonstraria qualquer tipo de superioridade militar real em termos reais.

Mas, como habitualmente, a estratégia da Mead é afirmar que a prudência financeira é na verdade uma imprudência, com o refrão “”você não pode se dar ao luxo de não gastar um monte de dinheiro extra!” Esta afirmação é baseada na nova teoria do dominó que hoje é oferecida pelos imperialistas anti-Rússia. Esta teoria postula que se os EUA não iniciarem guerras com todos os países que recuaram contra a hegemonia dos EUA – isto é, o Irã ou a Rússia – então a China verá esta “fraqueza” e começará a conquistar incontáveis nações dentro da sua própria periferia.

Os velhos guerrilheiros frios também nos diziam isto em 1965, insistindo que uma perda no Vietnam colocaria todo o mundo sob a bota comunista. Não é necessário dizer que isso não aconteceu, e afinal o Vietnam não teve nada a ver com a segurança nacional americana. Mas nada convencerá os imperialistas habituais – por exemplo, a Heritage Foundation – de que nunca há gastos demais com o exército.

A prudência, no entanto, sugere que os EUA devem ir na direção oposta. No seu ponto mais beligerante, o regime norte-americano deveria estar adotando uma doutrina de contenção – centrada na defesa naval e reduzindo o envio de tropas – enquanto muda sua postura nuclear para uma postura menos dispendiosa e mais defensiva.

A solução ideal é muito mais radicalmente anti-intervencionista que isso, mas um bom começo seria eliminar centenas de ogivas nucleares e congelar os gastos militares indefinidamente. Afinal, a capacidade de dissuasão de segundo ataque dos EUA não depende de forma alguma em manter um arsenal de milhares de ogivas, como insistem muitos imperialistas. E a geografia continua a favorecer a defesa convencional dos EUA, como sempre fez.

Infelizmente, estamos muito longe de uma mudança para uma política muito mais sã, mas no mínimo temos de rejeitar os últimos apelos oportunistas para uma nova guerra fria e mais triliões de dólares dos contribuintes queimados em nome da “defesa


Autor Ryan McMaken. Traduzido e adaptado por Gazeta Libertária.

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