sexta-feira, dezembro 3, 2021
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PRAXEOLOGIA: UMA BREVE INTRODUÇÃO – POR TAIANE COPELLO


Taiane Copello

21 anos, libertária, estudante de filosofia no 6º período pela UFRJ e estudante de teatro

Ludwig Von Mises, um dos principais precursores da Escola Austríaca de economia, desenvolveu uma ideia chamada Praxeologia, que se trata da ciência da ação humana (praxis = ação e logia = ciência). Mises teve sua base epistemológica em Immanuel Kant [1], que desenvolveu sua própria epistemologia, tal qual partia do pressuposto que existem dois tipos de juízos: o analítico e o sintético. Kant também estabeleceu duas formas de obter conhecimento, a priori e a posteriori.

Um juízo analítico caracteriza-se pela descrição de um sujeito-objeto pelo seu próprio significado. Por exemplo: todo solteiro não é um homem casado. Enquanto o juízo sintético se caracteriza por demonstrar uma informação a respeito do sujeito-objeto sem que isso esteja estabelecido na sua definição original. Um conhecimento a priori é aquele que independe de uma verificação da experiência, fundamentando-se somente na razão, enquanto que um conhecimento a posteriori é aquele que se verifica pela experiência.

Kant formulou também que há como ter juízos analíticos e sintéticos de modo a priori e juízos sintéticos a posteriori. Como todo conhecimento parte da experiência, e não há como confiar somente na razão pura, pois devemos, de alguma forma, recorrer aos fenômenos observáveis. Sendo assim, a ação humana se baseia em juízos sintéticos a priori.

Primordialmente, para elucidar a Praxeologia, Mises parte do axioma da ação: todo indivíduo, ao agir, busca sair de um estado de menor conforto para um estado de maior conforto. Aquele que negar esta proposição cairá em contradição performática, na qual você contradiz as condições transcendentais [2] para aquilo ser dito, uma vez que foi preferível agir em função de tentar refutar o axioma – por alguma razão, não importa qual, o indivíduo sentiu que estaria em uma posição melhor refutando-o. Valendo ressaltar que denomina-se por axioma uma verdade auto-evidente.

Mostra-se necessário investigarmos também o que move os indivíduos a fazerem escolhas. Posto isto, a ação humana é colocada em prática através da vontade, uma vez que, pelo axioma da ação, julgamos que um estado possui uma satisfação maior (exemplo: jogar basebol é melhor do que ficar em casa) porque a vontade motiva o indivíduo na sua busca de atingir seu fim, que é este mesmo objeto da vontade, o qual, no dado exemplo é o jogo de basebol. A vontade, para Mises, é a resposta aos estímulos do ego, o eu.

Nesse contexto, é válido distinguir o que a ação humana não é do que a ação humana de fato é. Ela não é qualquer mudança corporal, pois se alguém me derrubar no chão, esta mudança não dependeu de mim. Dessa maneira, causas externas não podem ser consideradas como constituinte da ação humana do agente passivo. Um acidente não depende daquele que o sofreu para alocação de mudança corporal do mesmo, logo, essa alteração que se dá no corpo acidentalmente não é uma ação praxeológica. A ação humana é uma mudança de corpo se, e somente se, esse comportamento for propositado pela vontade do agente, o que pressupõe uma causa interna inerente à alocação do corpo durante a ação. Portanto, tendo em vista a vontade como causa interna, a ação humana é definida como a vontade posta em funcionamento.

Os fatores para a vontade ser posta em prática na ação são os meios, os fins, os custos e o tempo. Os meios são os caminhos pelos quais serão escolhidos pelo indivíduo serão aqueles que ele acredita serem os mais eficientes, usando de sua racionalidade, para alcançar seu fim. Os fins são os objetivos pelos quais este mesmo indivíduo pretende alcançar, alocando estes meios os quais ele julga serem eficientes, para alcançar o fim, o que ele quer. Os custos são aquilo pelo qual se abre mão durante o processo de busca de um maior conforto. Por fim, o tempo se define como um recurso escasso, pois nós morremos, e isto é um fator decisivo na ação humana já que, como ele acaba em decorrência desse fator, é posto como necessário agir.

A Praxeologia é fundamental para a economia austríaca, pois ela é seu método econômico. Todas as leis de mercado devem ser baseadas neste axioma, pois tendo em vista o conceito que Mises atrela ao símbolo (palavra) “economia” se trata das relações de troca entre indivíduos no mercado, i.e., da ação humana dos indivíduos. Esta ação não se predispõe a previsões de futuro, já que ações humanas podem, no máximo, ser especuladas; dessa forma, já que ela não pode ser prevista, não se deve limitá-la a gráficos e estatísticas, como numa economia tradicional.

Referências

[1] Ver Crítica da Razão Pura.

[2] Kant denominou por “transcedental” um conhecimento a priori que possui em si a condição de necessidade de apreender os objetos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

VON MISES, Ludwig. Ação Humana: Um tratado de economia. Capítulo 1. 3.1ª edição – São Paulo, editado por Instituto Ludwig Von Mises Brasil, 2010. Traduzido por Donald Stewart Jr.

HOPPE, Hans-Hermann. Uma Teoria do Socialismo e do Capitalismo. Capítulos 1 e 2. 1ª edição – São Paulo, editado por Instituto Ludwig Von Mises Brasil. Traduzido por Bruno Garschagen.

Praxeologia: O método dos economistas austríacos. Artigo escrito por Murray N. Rothbard. Instituto Ludwig Von Mises Brasil. Traduzido por Daniel Chaves Claudino. The Foundation of Modern Austrian Economics (1976). Disponível em: https://foda-seoestado.com/praxeologia-o-metodo-dos-economistas-austriacos/

O que é ciência apriorística e porque a economia é uma. Artigo escrito por Gene Callahan. Instituto Ludwig Von Mises Brasil, 12 de Março de 2008. Disponível em: https://www.mises.org.br/Article.aspx?id=48

Praxeologia – A constatação nada trivial de Mises. Artigo escrito por Robert Murphy. Instituto Ludwig Von Mises Brasil, 9 de Junho de 2010. Disponível em: https://www.mises.org.br/Article.aspx?id=230

O apriorismo de Mises contra o relativismo nas ciências sociais. Artigo escrito por Thorsten Polleit. Instituto  Ludwig Von Mises Brasil, 18 de Dezembro de 2010. Disponível em: https://www.mises.org.br/Article.aspx?id=644

Prêmio Nobel para a praxeologia. Artigo escrito por Tullio Bertini. Instituto  Ludwig Von Mises Brasil, 22 de Novembro de 2012. Disponível em: https://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1464

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19 COMENTÁRIOS

  1. Kant não partia do pressuposto de que existem dois tipos de juízos, os sintéticos e os analíticos. A primeira seção do Crítica da Razão Pura trata da distinção entre conhecimentos puros e impuros, e é com isso que ele inicia. Só na seção IV é que ele fala sobre a distinção entre sintéticos e analíticos. Além do mais, “a priori” e “a posteriori” não são formas de se obter conhecimento, como você disse no primeiro parágrafo. São, por outro lado, caracterizações das formas de verificação dos juízos. Juízos cuja verificação de verdade independe da experiência são a priori, e aqueles cuja verificação precisa ser feita pela experiência são a posteriori. A forma de obtenção de um juízo é caracterizada pelos predicados “puro” e “impuro”.
    “Como todo conhecimento parte da experiência, e não há como confiar somente na razão pura, pois devemos, de alguma forma, recorrer aos fenômenos observáveis. Sendo assim, a ação humana se baseia em juízos sintéticos a priori.”
    Acho que faltou terminar a primeira frase. De qualquer forma, há alguns problemas nisso. O conhecimento se inicia, na ordem do tempo, pela experiência, pois é a partir dela que o entendimento recebe conteúdo sobre o qual pode conceitualizar. O que é diferente de o conhecimento se derivar da experiência. Ainda, juízos sintéticos a priori puros não são derivados da experiência, pois se fundamentam justamente naquelas faculdades que permitem a possibilidade de uma experiência qualquer – a saber, as formas puras de intuição sensível e as categorias puras do entendimento.
    Além disso, em que juízos sintéticos a priori a ação humana se baseia?

    • Partia sim. Apesar de ele iniciar com os conhecimentos puros e impuros, ele fala ao longo de sua obra, como você mesmo mencionou, sobre os tipos de juízos, eu não disse em momento algum do meu artigo que isso estava em parte x ou y. O que eu quis dizer com formas de se obter conhecimento foi justamente essa distinção da verificabilidade do conhecimento. Pode ser que eu deveria ter explicado isso melhor, mas pode ser também que você devesse ter interpretado um pouco melhor.

      Juízos sintéticos a priori, pelo que eu entendo, pois sigo a interpretação de Kant das fontes citadas na bibliografia do meu artigo, se tratam de proposições que contém um conhecimento de síntese entre a razão e a experiência como um conhecimento mais seguro, já que a razão é sujeita a dogmatismo e a experiência nada assere sobre um conhecimento universal porque o mundo está sujeito a contingências. Por fim, eu quis dizer que a ação humana (praxeologia) se trata do axioma da ação (todo homem ao agir sai de um estado de menor conforto para de um maior conforto) que é um juízo sintético a priori já pressupõe um informação verificada pela razão mas com uma informação adicional não contida na definição do sujeito homem, i.e., predica-se uma informação ao objeto pela experiência, a qual usamos por meio dos sentidos.

      Mas sua crítica é muito bem vinda e serve de aprendizado para meus próximos artigos e apresentações de praxeologia. Agradeço!

      • O que tem a ver falar sobre algo ao longo da obra e partir desse algo? Kant também fala sobre o esquematismo transcendental, sobre as categorias do entendimento, axiomas da intuição… Isso não quer dizer que ele parte dessas coisas. Como eu disse, ele parte da distinção entre conhecimentos puros e impuros (que é diferente da distinção entre a priori e posteriori), e só depois ele fala sobre sintéticos e analíticos. De qualquer forma, isso não é relevante. Sobre as formas de obter conhecimento, não há como eu “interpretar um pouco melhor”. Você usou os termos errados. Forma de obter conhecimento é uma coisa, a distinção entre a verificabilidade do conhecimento é outra coisa. Tomá-los como sinônimos é no mínimo ignorar o que Kant escreveu.
        É melhor revisar essas fontes aí, porque essa interpretação nem faz sentido. Esse é o problema de não ler o autor e buscar pelos comentários de outros, principalmente se for do Hoppe, que fala umas merdas gigantes sobre Kant. Mais parece que esse tal interpretador aí leu um pouco sobre o contexto da época (a disputa entre racionalismo e empirismo) e assimilou com o “sintético”, achando que Kant propôs a síntese de ambos. Esta síntese já havia sido proposta há uns bons séculos, não é nada novo. A contribuição de Kant foi a revolução copernicana na filosofia, tratando o sujeito como o centro do conhecimento, de maneira que os objetos é que devem se adequar a ele, e não o contrário. Não tem nada a ver com síntese entre razão e experiência, mesmo porque as proposições sintéticas a priori, como falei no comentário anterior, se fundamentam nas faculdades que possibilitam toda experiência, ou seja, são anteriores a qualquer experiência. É daí que surge a necessidade e universalidade dos juízos sintéticos a priori, e não tem nada a ver com ser um conhecimento mais seguro. A razão pura pode ser usada de maneira inadequada, produzindo paralogismos, o conhecimento empírico pode ser usado de maneira inadequada, ao se inferir universalidade de indução, e o “meio termo” (não no sentido de ser uma fusão epistêmica de ambos, mas sim no sentido de ser um juízo a priori e não analítico) entre ambos também pode ser usado de maneira inadequada, como a que você fez em seu texto, ao dizer que o axioma da ação é um juízo sintético a priori.
        De qualquer forma, os juízos sintéticos a priori se apoiam nas faculdades que possibilitam a experiência, a saber, as formas puras de intuição sensível (tempo e espaço), transcendentais para a possibilidade da sensibilidade, e os conceitos puros do entendimento (as doze categorias derivadas das formas dos juízos), necessários para a possibilidade do pensamento conceitual, e é necessário demonstrar que o axioma da ação é fundamentado nisso. Apenas dizer, intuitivamente, que ele é sintético a priori porque parece que é, ou porque ele é uma síntese de a priori com a posteriori, ou qualquer outra justificativa tosca assim, é literalmente rasgar toda a Crítica da Razão Pura. Não tem nem porque citar Kant, nesse caso, e é até melhor, pra evitar que leitores que não o conheçam não aprendam coisa errada.
        Dizer que ela se fundamenta na categoria da ação também não ajuda, porque a ação nem sequer é uma categoria do entendimento. Mises não fez nenhuma dedução transcendental, como Kant, para demonstrar que a ação é uma categoria, e nem ao menos faz sentido em dizer que a praxis é condição necessária para a cognição. Aliás, nem o próprio Mises considerava o dito axioma da ação como um juízo sintético a priori. Nas primeiras frases da terceira seção do capítulo 2 do Ação Humana ele deixa bastante claro que, para ele, o raciocínio apriorístico é tautológico, analítico, que as conclusões de suas deduções já estão contidas nas premissas. Ele nega até mesmo a sinteticidade a priori da geometria, ao dizer que o conceito de triângulo já encerra em si todos os teoremas geométricos, como o de Pitágoras. Isso tá muito longe de Kant, e eu realmente não entendo porque ficar dizendo que o tal axioma da ação é sintético a priori, mesmo sem nem saber o que é isso.

  2. Kant não partia do pressuposto de que existem dois tipos de juízos, os sintéticos e os analíticos. A primeira seção do Crítica da Razão Pura trata da distinção entre conhecimentos puros e impuros, e é com isso que ele inicia. Só na seção IV é que ele fala sobre a distinção entre sintéticos e analíticos. Além do mais, “a priori” e “a posteriori” não são formas de se obter conhecimento, como você disse no primeiro parágrafo. São, por outro lado, caracterizações das formas de verificação dos juízos. Juízos cuja verificação de verdade independe da experiência são a priori, e aqueles cuja verificação precisa ser feita pela experiência são a posteriori. A forma de obtenção de um juízo é caracterizada pelos predicados “puro” e “impuro”.
    “Como todo conhecimento parte da experiência, e não há como confiar somente na razão pura, pois devemos, de alguma forma, recorrer aos fenômenos observáveis. Sendo assim, a ação humana se baseia em juízos sintéticos a priori.”
    Acho que faltou terminar a primeira frase. De qualquer forma, há alguns problemas nisso. O conhecimento se inicia, na ordem do tempo, pela experiência, pois é a partir dela que o entendimento recebe conteúdo sobre o qual pode conceitualizar. O que é diferente de o conhecimento se derivar da experiência. Ainda, juízos sintéticos a priori puros não são derivados da experiência, pois se fundamentam justamente naquelas faculdades que permitem a possibilidade de uma experiência qualquer – a saber, as formas puras de intuição sensível e as categorias puras do entendimento.
    Além disso, em que juízos sintéticos a priori a ação humana se baseia?

  3. Eu juro que não entendo o porquê da distorção que ancaps fazem da praxeologia. Mises não tem uma base epistemológica em Kant e a praxeologia misesiana não é baseada e não contém juízos sintético a priori. O próprio Mises diz, na página 38 do Human Action que: “Aprioristic reasoning is purely conceptual and deductive. It can- not produce anything else but tautologies and analytic judgments. All its implications are logically derived from the premises and were already contained in them. Hence, according to a popular objection, it cannot add anything to our knowledge.”

  4. Eu juro que não entendo o porquê da distorção que ancaps fazem da praxeologia. Mises não tem uma base epistemológica em Kant e a praxeologia misesiana não é baseada e não contém juízos sintético a priori. O próprio Mises diz, na página 38 do Human Action que: “Aprioristic reasoning is purely conceptual and deductive. It can- not produce anything else but tautologies and analytic judgments. All its implications are logically derived from the premises and were already contained in them. Hence, according to a popular objection, it cannot add anything to our knowledge.”

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