Resenha do livro ‘ Socialismo: Uma Análise Econômica e Sociológica’ – Muito Além do Cálculo Econômico

'Socialismo - Uma Análise Econômica e Sociológica' de Ludwig von Mises

O livro ‘Socialismo: Uma Análise Econômica e Sociológica’ do grande economista austríaco Ludwig von Mises, é uma leitura essencial para comprender toda a força do argumento do autor contra a viabilidade do socialismo . A importância do livro está justamente em ser uma fuga das exaustivas repetições do brilhante argumento sobre o cálculo econômico em uma comunidade socialista. Isso por conta de Mises apresentar uma gama de outros argumentos que mostram a inviabilidade deste modelo econômico.

Mas ao mesmo tempo em que esses argumentos fornecem outras possibilidades de diálogo, eles também mostram que o brilhante argumento sobre o problema do cálculo econômico é muito mais épico e lendário do que as primeiras impressões podem mostrar.

Mises, mais à frente do livro, busca apagar a visão de distância que a ética possui da economia. A ética entra no processo de valorações dos fins, e este processo de valoração dos fins por cada indivíduo entra na união de:

os fins intermediários em uma escala unitária de valores e os classifica de acordo com a sua importância.”

Já sabemos que o valor objetivo de trocas da mercadoria é representado pela unidade comum do cálculo econômico e que ela surge através dos participantes das trocas.[1] Isso demonstra que a estrutura de mercado surge através de um processo extremamente social, extremamente interacional, processo esse que se pode dizer como a união das perspectivas (portanto de suas ações com base nessas perspectivas), ou seja, de suas demandas, de cada indivíduo sobre os fatores materiais e “espirituais” que o rodeia.

Através desse processo é que os produtos poderão ser precificados corretamente e também priorizados no processo produtivo. Sendo esse processo de alocação de recursos uma mistura dos fins de cada ser humano:

“A ideia de um dualismo da motivação assumida pela maioria dos teóricos éticos, quando fazem distinções entre os motivos egoístas e altruístas da ação não pode, portanto, ser mantida. Essa tentativa de contrastar ação egoísta e altruísta deriva de uma concepção errada da interdependência social dos indivíduos. O poder de escolher se minhas ações e minha conduta devem servir a mim ou a meus semelhantes não me é dado — o que talvez possa ser visto como algo bom. Se assim fosse, a sociedade humana não seria possível. Na sociedade baseada na divisão do trabalho e na cooperação, os interesses de todos os membros estão em harmonia, e isso se segue deste fato básico da vida social de que, em última análise, a ação pelos meus interesses e a ação pelos interesses dos outros não conflitam, já que os interesses dos indivíduos se juntam no fim. Portanto, a famosa disputa científica sobre a possibilidade de derivar os motivos de ação altruístas dos egoístas pode ser entendida como definitivamente descartada.” 


Visto isso, o que é o socialismo? Mises trabalha o conceito de estaticidade e dinamicidade da economia. Os socialistas querem uma sociedade estática economicamente, ou seja, onde a disponibilidade dos recursos não muda[2] e este querer acaba, consequentemente, descartando a maior parte da energia social. Não há espaço para outras considerações dentro do processo produtivo, um ideal se impõe à todas as outras formas de se viver.

Mas como é que temos um processo social se descartamos a necessidade de uma grande diversidade de interações sendo que são elas quem possibilitam a sociedade?

Mises denota esse problema muito bem ao expor o problema do ascetismo levado ao extremo:

“A moral ascética nunca pode ter aplicação universal como princípios vinculantes da vida. O ascético que age logicamente se retira voluntariamente do mundo. O ascetismo que procura manter-se na terra não leva seus princípios ao fim lógico; ele para em certo ponto. É imaterial por qualquer sofisma que tente explicar isso; é suficiente que assim faça e assim precise fazer. Além disso, é compelido a pelo menos tolerar os não-ascéticos” e “Como um ideal estrito, o ascetismo não se interessa pela satisfação das vontades de todos. É, portanto, não-econômico no sentido mais literal.”

Se faz importante trazer esse exemplo do ascetismo, pois ele denota uma interdependência das “formas de se viver”, e que o princípio ascético deveria permitir o não-ascetismo. Quando você muda a estrutura econômica de uma sociedade, você modifica as possibilidades de vivência, e o socialismo acaba tentando matar o processo interacional da formação de uma sociedade, portanto, tentando matar a necessidade de uma teia social. É o que eu chamo de tentar matar as possibilidades de uma sociedade.

E os argumentos durante o livro não param, sendo tantos que chega a ser impossível de sintetiza-los com perfeição nessa resenha. Mises irá criticar os diversos tipos de socialismo. O socialismo de guilda, o cristão, o marxista e por aí vai.

Mas o ponto alto do livro se mostra justamente no argumento de que a destruição da propriedade privada não somente inviabiliza a sociedade pela destruição econômica, mas também a inviabiliza justamente por dificultar ao extremo a interação entre os fins enxergados por cada indivíduo. Como consequência, os sonhos e as visões de mundo de cada pessoa são desprezadas por completo. Este é o argumento fatal que se relaciona com o cálculo econômico e que também vai além do cálculo.

“A vitória da ideia socialista sobre a ideia liberal só se deu através do deslocamento da atitude social, que tem em conta a função social da única instituição e o efeito total de todo o aparelho social, por uma postura antissocial, que considera as partes individuais do mecanismo social como unidades separadas. O socialismo vê os indivíduos — os famintos, os desempregados e os ricos — e os critica capciosamente; o liberalismo nunca esquece o todo e a interdependência de todos os fenômenos.”

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Artigo escrito por Guelpa e revisado por @rodrigo

Notas:

  • 1 Ver O cálculo econômico sob o socialismo, versão do instituto Rothbard. Pg, 24.
  • 2 E também estática de outras formas. Ver “ Karl Marx as Religious Eschatologist” de Rothbard

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