Equívocos no último artigo do Folha de SP sobre anarcocapitalismo

Libertarianismo e anarcocapitalismo

Aproveitando o hipe do candidato à presidência na Argentina, Javier Millei, e o fato dele se dizer simpático ao anarcocapitalismo, o jornal ‘Folha de São Paulo’ resolveu escrever um artigo abordando o assunto. Por um lado, o artigo saiu bem melhor em comparação com o artigo escrito pelos autores anarcocomunistas que fizeram uma verdadeira deturpação da ideia, muito bem rebatida por um artigo publicado no site do Instituto Rothbard e escrito por vários autores libertários brasileiros.

No entanto, o artigo ainda comete uma série de equívocos, principalmente por terem usado como fonte vozes do libertarianismo/anarcocapitalismo que não são uma representação de toda a comunidade libertária, inclusive do Brasil. Na questão dos acertos, o artigo faz apontamentos corretos, como ênfase na rejeição ao estado e o fato do libertarianismo no Brasil e no mundo estar em grande parte associado à comunidade cripto.

No entanto, o artigo também comete uma série de equívocos. Dentre eles, está uma distinção incorreta entre libertarianismo e anarcocapitalismo, apresentando o anarcocapitalismo corretamente como a rejeição ao estado em prol das liberdades individuais, mas apontando o libertarianismo como sendo distinto deste último por defender um estado limitado. Nada mais longe da verdade.

O anarcocapitalismo é apenas a parte mais radical do libertarianismo. Seria neste caso sua ala “anarquista”. O libertarianismo (como concebido modernamente nos EUA) está pautado numa defesa das liberdades individuais (geralmente tomando o direito de propriedade e de autopropredade como seu fundamento) em oposição à um estado forte. Autores como Albert Jay Nock, Frank Chorodov e Henry Louis Mencken, foram os pioneiros do que podemos chamar de ‘libertarianismo moderno’.

Apesar de se oporem à um estado forte e serem céticos a tal instituição, esses pioneiros do libertarianismo não chegaram tão longe a ponto de defender sua extinção. Mais tarde, o autor libertário canadense Samwell Edward Konkin III, ‘pai’ da vertente do libertarianismo chamada agorismo, chamaria tal vertente inicial do libertarianismo moderno de minarquismo.

Como a Folha afirmou corretamente, o anarcocapitalismo nasceria com o economista e filósofo político, Murray Rothbard, que daria origem a já dita vertente anarquista do libertarianismo. Diferente dos seus antecessores, Rothbard não apenas cogitou a possibilidade da extinção do estado, como defendeu o seu fim como um imperativo ético e imoral.

Outro erro do artigo da Folha, foi afirmar que os anarcocapitalistas em sua totalidade defendem que o estado seja totalmente substituído pelo mercado no fornecimento de bens e serviços. Alguns anarcocapitalistas podem até mesmo defender que o mercado forneça tudo o que os indivíduos desejam em uma sociedade. No entanto, apesar de reconhecerem que a maioria dos produtos e serviços seriam fornecidos pelo mercado em uma economia livre, muitos anarcocapitalistas entendem que outras formas de relações e ações voluntárias, como as famílias, instituições religiosas e de caridade – em suma, a chamada sociedade civil – também poderiam fornecer bens e serviços, principalmente para aqueles menos capazes de proverem a si mesmos.

O artigo também apresenta apenas um lado do anarcocapitalismo quando toca na questão de como chegar a uma sociedade sem estado. Ele menciona que para os anarcocapitalistas, uma sociedade anarcocapitalista só seria alcançada por meio de reformas políticas e privatização das estatais. Se por um lado há anarcocapitalistas que defendem tal abordagem, há aqueles que defendem uma abordagem completamente distinta, tanto no que tange à privatização quanto em como alcançar uma sociedade totalmente livre.

No que tange à privatização, autores como Hans-Hermann Hoppe defendem que as estatais devem ser apropriadas pelos pagadores de impostos, seus legítimos proprietários, já que o dinheiro deles roubado via impostos é que foi usado para a construção e financiamento de tais empresas. Isso seria o completo oposto da venda, leilão e concessão para empresas apadrinhadas com o estado, como é feito hoje.

Quanto à estratégia para alcançar a liberdade, há aqueles que simpatizam mais com a contraeconomia, proposta pelo já citado Konkin. Tal estratégia consistiria em praticar qualquer atividade proibida pelo estado, como contrabando, sonegação fiscal e pirataria. Para os defensores de tal abordagem, a retirada do estado por parte dos indivíduos em cada aspecto da sua vida, bem como a resistência em financiar o estado via impostos levaria ao enfraquecimento e finalmente a extinção de tal instituição.

Por fim, um apontamento correto feito pelo youtuber “anarcocapitalista” Raphäel Lima do canal Ideias Radicais presente no artigo da Folha sobre Javier Millei merece atenção. Como Millei vem ganhando grande destaque e se mostrando abertamente contrário à esquerda, por tabela, o anarcocapitalismo com a qual ele diz simpatizar também poderá se tornar alvo de ataques da esquerda junto à ele.

E qualquer erro ou problema atribuído ao Javier Millei caso ele vença as próximas eleições presidenciais na Argentina (sejam elas devidamente atribuíveis à ele ou não) também despertarão críticas da esquerda contra o anarcocapitalismo, que agora mais do que nunca entrará na lista de inimigos mortais da humanidade, segundo essa mesma esquerda.

E por fim, devo concluir enfatizando mais uma vez o fato de que ao menos neste último artigo o Folha de São Paulo foi bem menos pior que aquele primeiro. Ainda assim, dado o fato de que o anarcocapitalismo se tornará um novo alvo de ataque da esquerda política, caberá aos anarcocapitalistas divulgarem a verdade sobre tal ideia e darem ao público a chance de conhecê-la corretamente.

5 respostas para “Equívocos no último artigo do Folha de SP sobre anarcocapitalismo”

  1. Avatar de Nikus
    Nikus

    Por mais que eu não acho que faz sentido um libertario se tornar político – à não ser que seja para ser ditador – eu diria que é minimamente positivo o fato do movimento estar ganhando mais popularidade por meio de um. Se o Millier conseguir aplicar à sua agenda política na prática caso seja eleito, será sinal para muitos libertarios – incluindo eu – que à via política talvez seja uma alternativa, principalmente em países aonde à população não tem mais para onde correr nessa armadilha mortal chamada democracia, como no Brasil e na própria Argentina.

    1. Avatar de Alex
      Alex

      É se iludir que a política possa ser um caminho. As pessoas devem deixar de ter fé na urna. Já está mais do que provado que é nada mais do que uma máquina ilusória para apaziguar os anseios e medos das pessoas.

      O caminho é a marginalização através de encontrar formas de se estar longe do estado.

      1. Avatar de Nikus
        Nikus

        De fato eu concordo contigo, Alex. Eu nem fui às urnas na última eleição (e quando vou, geralmente eu voto nulo), e me encontro totalmente cético à eleição do Millei e qualquer possível mudanças que ele conseguirá fazer em seu mandato. Só argumentei em meu comentário que talvez seja uma possibilidade. Há casos na história aonde políticos sensatos surgiram e conseguiram solucionar, ao menos temporariamente, os transtornos políticos e econômicos de uma nação. Dependendo da competência do Millei, talvez ele consiga melhorar um pouco às coisas para os argentinos. O governo do Bolsonaro, por exemplo, foi exatamente como eu pensava: um completo ignorante econômico, um outsider que foi alienado pelo sistema e usado como bode expiatório pela mídia e por seus oponentes políticos, mas no final das contas, frente aos outros favoritos da época, que eram piorer que ele, ele entregou o que eu esperava dele: Foi um peso para freiar um pouco os avanços globalistas no Brasil (o que não adiantou muito, já que o STF se comprometeu com à agenda globalista), e à defesa dele das liberdades individuais durante à pandemia foi minimamente louvável (apesar que o STF, novamente, interviu para fazer cumprir os mandatos globalistas).

  2. Avatar de Licínio
    Licínio

    Apoio a entrada de políticos libertários( desde que sejam genuinamente libertários e abram mão de salário e fundo eleitoral ),uma forma estratégica de ruir o Estado internamente,o problema é a questão da confiabilidade das urnas,sem que possam ser auditivas pode ser infelizmente uma guerra perdida,por outro lado criar novos sistemas, desinvestivestimento e contra-economia nunca podem deixar de ser a principal estratégia ancap.

    1. Avatar de Rodrigo
      Rodrigo

      Então tenho uma péssima notícia para você: isso provavelmente nunca irá acontecer. Até porque aqueles que entram pata a política são justamente os que querem viver do parasitismo estatal.

      E vamos pensar um pouco: para se elegerem políticos que se dizem libertários, seria necessário um número grande o suficiente de eleitores libertários. Mas um número grande o suficiente de eleitores libertários já não seria um número grande o suficiente para desobedecer o estado, sonegar e ser mais difícil de sofrer represálias? Em um cenário como esse, com um número suficientemente grande de libertários, não seria mais viável partir logo para a desobediência civil e contraeconomia?

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5 thoughts on “Equívocos no último artigo do Folha de SP sobre anarcocapitalismo

  1. Por mais que eu não acho que faz sentido um libertario se tornar político – à não ser que seja para ser ditador – eu diria que é minimamente positivo o fato do movimento estar ganhando mais popularidade por meio de um. Se o Millier conseguir aplicar à sua agenda política na prática caso seja eleito, será sinal para muitos libertarios – incluindo eu – que à via política talvez seja uma alternativa, principalmente em países aonde à população não tem mais para onde correr nessa armadilha mortal chamada democracia, como no Brasil e na própria Argentina.

    1. É se iludir que a política possa ser um caminho. As pessoas devem deixar de ter fé na urna. Já está mais do que provado que é nada mais do que uma máquina ilusória para apaziguar os anseios e medos das pessoas.

      O caminho é a marginalização através de encontrar formas de se estar longe do estado.

      1. De fato eu concordo contigo, Alex. Eu nem fui às urnas na última eleição (e quando vou, geralmente eu voto nulo), e me encontro totalmente cético à eleição do Millei e qualquer possível mudanças que ele conseguirá fazer em seu mandato. Só argumentei em meu comentário que talvez seja uma possibilidade. Há casos na história aonde políticos sensatos surgiram e conseguiram solucionar, ao menos temporariamente, os transtornos políticos e econômicos de uma nação. Dependendo da competência do Millei, talvez ele consiga melhorar um pouco às coisas para os argentinos. O governo do Bolsonaro, por exemplo, foi exatamente como eu pensava: um completo ignorante econômico, um outsider que foi alienado pelo sistema e usado como bode expiatório pela mídia e por seus oponentes políticos, mas no final das contas, frente aos outros favoritos da época, que eram piorer que ele, ele entregou o que eu esperava dele: Foi um peso para freiar um pouco os avanços globalistas no Brasil (o que não adiantou muito, já que o STF se comprometeu com à agenda globalista), e à defesa dele das liberdades individuais durante à pandemia foi minimamente louvável (apesar que o STF, novamente, interviu para fazer cumprir os mandatos globalistas).

  2. Apoio a entrada de políticos libertários( desde que sejam genuinamente libertários e abram mão de salário e fundo eleitoral ),uma forma estratégica de ruir o Estado internamente,o problema é a questão da confiabilidade das urnas,sem que possam ser auditivas pode ser infelizmente uma guerra perdida,por outro lado criar novos sistemas, desinvestivestimento e contra-economia nunca podem deixar de ser a principal estratégia ancap.

    1. Então tenho uma péssima notícia para você: isso provavelmente nunca irá acontecer. Até porque aqueles que entram pata a política são justamente os que querem viver do parasitismo estatal.

      E vamos pensar um pouco: para se elegerem políticos que se dizem libertários, seria necessário um número grande o suficiente de eleitores libertários. Mas um número grande o suficiente de eleitores libertários já não seria um número grande o suficiente para desobedecer o estado, sonegar e ser mais difícil de sofrer represálias? Em um cenário como esse, com um número suficientemente grande de libertários, não seria mais viável partir logo para a desobediência civil e contraeconomia?

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