Neste artigo, o hacktivista e especialista em cybersegurança, coffnix, irá falar um pouco da história no Brasil, em especial do lendário grupo hacker, S4t4n1c_Souls.
Nunca me interessei por “cybersec”, pois quando eu comecei a usar computadores esse termo sequer existia. Esse termo “cybersec” é MUITO novo no Brasil, coisa de 2010 para cá somente. Antes disso, ou você era DEV, ou você era SYSADMIN. Eu trabalhei numa empresa de antivírus de 2007 até 2011 e nessa época meu cargo era “engenheiro de sistemas”. Não tinha nada disso de “cybersec” ou “pentester”, e essas merdas de nomes que juvenis usam hoje em dia para postar nas redes sociais e se acharem os fodas criando posts de merda com hashtags ridículas como #bolhasec e essas coisas de retardado que confunde X com linkedin.
Me interessei por COMPUTADORES quando vi o filme war games de 1983. Fiquei maravilhado com filmes como Hackers de 1995 também. Em 1997 surgiu um software chamado “winnuke”, ao qual você desligava o computador do amiguinho pegando o IP dele via LiCQ (o ICQ do Linux) ou via bitchx (client IRC do Linux) e mandando um pacote mágico na porta 139. Um ano depois, surgiu o back oriffice, que era uma tela legalzinha que usava o netcat para fazer tudo que você quisesse no computador do amiguinho, desde abrir bandeja de CD-ROM, mandar mensagens popup na tela, desligar, reiniciar, abrir softwares, os caralho. Era pura diversão, e era na prática o war games do mundo real.
Nessa época conheci uma galera MUITO louca, e descobrimos que dava para você alterar alguns sites usando ferramentas simples como o frontpage express, sem autenticação alguma, era apontar o site e alterar, e zuavamos disso no IRC da freenode, e alteravamos até sites de empresas gigantes. E eis que surge o grupo s4t4n1c_s0uls, grupo esse que foi TOP 1 mundial por 5 anos e TOP 2 mundial por mais 4 anos. Ficamos entre os TOP 3 por mais alguns anos, mas ninguém tinha mais tempo e saco para ficar zuando o plantão e tocando o terror na internet. O que começou como brincadeira de adolescentes entediados virou um nome gravado nos maiores arquivos de defacement da história: Alldas, Attrition e depois o Zone-H, onde cada marca deixada em sites de governos, empresas privadas, sites de jornais, provedores, universidades e até mesmo a NASA virou prova documental de que o Brasil tinha, sim, peso no underground global. Na mesma época do AXUR05.

No início dos anos 2000, o Internet Relay Chat (IRC) era mais do que uma simples ferramenta de comunicação; era o ecossistema digital que abrigava e permitia a existência de comunidades underground e de grupos de hackers como o s4t4n1c_s0uls. O IRC fornecia um ambiente de conversação em tempo real, onde a comunicação textual era a norma. A necessidade de usar um cliente específico e uma série de comandos técnicos para interagir com o sistema (/nick, /user, /list, /names) atuava como um “filtro” natural, garantindo que os participantes tivessem um nível básico de conhecimento e familiaridade com a tecnologia. Isso, por sua vez, ajudava a manter a coerência e a exclusividade da comunidade, afastando noobs e lammers.
Comandos do IRC como /whois <nickname> não eram apenas para obter informações técnicas; eles eram ferramentas para construir e mapear o tecido social de pessoas ali naqueles servidores, e também para mapear outros grupos de hackers, revelando o servidor, o endereço IP da pessoa, a identidade real e outros detalhes dos usuários. Dessa forma, o IRC não era apenas o local onde as coisas aconteciam, mas era um componente intrínseco da própria identidade dos grupos hackers da época. As estratégias eram discutidas ali, os alvos eram escolhidos e a reputação, aquela mesma que era documentada nos registros do Alldas, Attrition e Zone-H, era construída e validada dentro dos canais de IRC. A vida de grupos como o s4t4n1c_s0uls estava intrinsecamente ligada à arquitetura do IRC, que servia como o clube social, o centro de comando e o fórum de discussões para os membros dessa cultura hacker.
A imprensa noticiou, a academia estudou, vários gringos nos citaram também em artigos científicos. Os hackers BR entraram para os livros não por conferência de segurança patrocinada por bancos e empresas, mas porque um bando de moleques resolveu fazer da rede global um quadro de grafite digital, chamado vulgarmente de DEFACE. A estética era caótica, os sites eram feios, admito, mas a filosofia era simples: marcar território, rir na cara da autoridade e de sysadmins cuzões, de governos também, e para mostrar que nenhum firewall é muralha de concreto e inquebrável. Esse foi o espírito do s4t4n1c_s0uls e de outros grupos de hackers. E quem viveu essa época sabe que era mais que defacement, era cultura, era zoeira séria, era resistência em forma de código.
Nessa época, o tal do “deface” era um termo pejorativo, e eu entendo, pois a grande maioria dos tais caras que falavam que eram “defacers” eram, na verdade, somente mentirosos, e eram em suma lammers e script kiddies. eram tipo os macacos que se auto intitulam hoje em dia como sendo “cypherpunks”, aqui no X e em sites de notícias de bitcoin diversos (não é mesmo @livecoinsBR ? risos) Os reais hackers mesmo nunca usavam o próprio nickname, todos os membros quando entravam nos canais IRC usavam todos o mesmo nickname, que era “s4t4n1c_s0uls”. No máximo, davamos uns “greatz” para vários brothers nos defaces, e incluíamos o nosso nick pessoal nesses “agradecimentos”, para zuar o plantão somente. Isso explica muito sobre o grupo de hackers que usou o nickname “satoshi nakamoto”, e que muitos confundem como sendo uma pessoa única. Essa era a forma com que GRUPOS DE HACKERS agiam. Ninguém revelava o nick pessoal, e todos os membros desses grupos de hackers usavam o mesmo nick, no caso o nickname do grupo.
Tinha dia em que catavamos sites de governos do Brasil inteiro, prefeitura, assembleia legislativa, tribunal de justiça, tudo no mesmo final de semana, só para provar que não existia “segurança” nenhuma. Deixavamos a logo do nosso grupo estampada em sites diversos, com direito a mensagem de deboche e link para os brothers do IRC rirem junto. Era praticamente um plantão de terror digital, a cada F5 aparecia mais um deface no Alldas, Attrition e Zone-H. Tinha tanto mass-deface que obrigamos literalmente o Vympel (mantenedor do site zone-h) a criar um script para que mandassemos o TXT com a lista de sites, para ele rodar um script para fazer as verificações e publicações de forma automática, porque tinha dia que era mais de 100 sites de uma única vez. Automatizavamos os defaces e também os reports no zone-h, nessa época achavamos uma falha, criavamos scripts para explora-la e deixavamos rodando o dia inteiro, pegando resultados de sites de busca, e literalmente os nossos códigos ownavam sites para nós, enquanto estávamos na escola ou dormindo. :D
Pesquisas acadêmicas e TCCs em todo o mundo, mostraram que a cena underground hacker brasileira se articulou de forma profunda, especialmente no contexto do movimento Software Livre e Open Source. Existiram vários outros grupos de hackers no BR na epoca que também eram importantes, como silver lords, prime suspectz (abração para o JP), cypher fuckers, infernoBR e outros.
O nosso ativismo foi além das invasões, buscando a colaboração ativa em tecnologias de código aberto e o compartilhamento de conhecimento de forma gratuita em zines e artigos como formas de resistência ao capitalismo (sim, eramos anarquistas nessa época). A mentalidade hacker não se tratava somente de “invasão de privacidade e sistemas”, mas sim de “resolução de problemas do mundo real”, compartilhamento de conhecimento e informação, liberdade e ajuda mútua voluntária. Eu mesmo sou um dos autores do Slackbook PTBR (o livro negro do slackware Linux), também colaborei com o VOL (viva o linux), com a slackzine, h2hc magazine (hackers to hackers conference), organizei eventos slackshow Brasil junto ao BHACK Conference, sou um dos fundadores do Área31 Hackerspace, contribuí com o Funtoo Linux de 2013 até 2025, e hoje contribuo com o MacaroniOS, entre outras colaborações diversas no mundo Open Source.
Não era só no Brasil, nosso grupo deixou marcas em universidades gringas de nome, tipo MIT Media Lab, Stanford e outras universidades diversas pelo mundo, e também em sites de órgãos de fora, como o governo do Reino Unido, Russia, Tasmania e EUA. Até a NASA entrou na lista, com mirror documentando que o s4t4n1c_s0uls meteu o pé na porta de vários GOVs (no plural mesmo) e marcou seu território. Isso está registrado no Alldas e no Attrition e zone-h. Tocamos o terror também em portais de notícias e provedores, deixando recado estampado para milhares de leitores que achavam que estavam lendo jornal sério e, do nada, davam de cara com “Pwned by s4t4n1c_s0uls”. A imprensa não teve como ignorar, saiu nota em jornais grandes, falando do nosso grupo, e isso só inflou ainda mais nossa reputação (e nosso ego) no underground.
Tinha também a zoeira acadêmica: coreanos e europeus citando nosso grupo em paper de detecção de defacement, como se a gente fosse case de estudo (e éramos IMHO). A ironia era pesada, porque enquanto a academia tentava criar papers e estudos pra nos entender, a gente já estava era preparando o próximo alvo e rindo no IRC com a galera true. O nome do Brasil ficou marcado não por evento patrocinado por banco, mas porque nossos grupos de hackers transformou a internet num mural de grafite digital, usando sites grandes no caso.
Algumas fontes ainda em pé:
- Quando declaramos GUERRA ao GOV USA, e ownamos computadores do governo dos EUA, incluindo o Departamento de Agricultura, o Departamento de Educação, a NASA, a Casa dos Representantes, órgãos do DoD (departamento de defesa), HIPAA, e outros: https://www.theregister.com/2002/09/27/hacker_groups_declare_war/
- Notícias diversas: https://www.theatlantic.com/magazine/archive/2002/09/homeland-insecurity/302575/ e https://www.news24.com/life/hacking-hell-20040604
- Information Warfare Center’s Cyber Intelligence Report (CIR): https://www.yumpu.com/en/document/read/9653793/bw2jq6r
- Paper da University of British Columbia nos citando: https://t.co/FhaHRFS3ca
- koreanos que nos citaram: https://t.co/xDw3VjJ2UV
- Russos nos citando: https://www.newsru.com/world/01oct2002/cyber.html
- tcc que nos citaram: https://facom.ufba.br/ciberpesquisa/andrelemos/Hackers%20no%20Brasi.htm
- Alldas: https://seclists.org/alldas/2002/Sep/author.html
- attrition: https://t.co/y90HYxPst3
- alguns institutos da nasa (uns 7 no total): http://zone-h.org/archive/special=1/notifier=S4t4n1c_s0uls/page=9
- outros defaces no zone-h (quase 9 mil sites) : https://zone-h.org/archive/special=0/notifier=S4t4n1c_s0uls/page=8
- Notícia sobre deface no MIT: https://t.co/ltSsIqbHNx
- Hack no gov da tasmania onde expusemos emails de políticos corruptos: https://t.co/oZgroGyfUC
- Tem um deface até hoje no ar inclusive LOL: life-tme.org/home.html
O legado de S4t4n1c_S0uls não pode ser reduzido a uma simples lista de domínios comprometidos, até porque vários sites já saíram do ar e nem existem mais hoje em 2025. Nossos grupos são reais artefatos históricos da internet, que refletem as tensões, as tecnologias e a estética de uma era específica da cena digital mundial. Nossa história é um exemplo da forma como o underground se articulava com o contexto cultural e político (no caso, protestando contra o estado).
Ao documentar nossas atividades, refletindo na nossa reputação, ficou registrado para que as próximas gerações possam um dia entender o passado, e traçar um panorama de como as comunidades hackers evoluíram de um foco em ações isoladas para uma integração mais profunda com movimentos cypherpunks e culturais, como o software livre e open source, e hoje vários desses hackers são empresários da alta tecnologia, excelentes profissionais do tal do “cybersec”, e outros são basicamente uns caras endinheirados que usam suas mentes afiadas até hoje para gerar grana honesta no mundo real, e ter sua independência com liberdade financeira, liberdade de acesso a armas de fogo, e liberdade do estado usando monero e bitcoin.
Hackers não obedecem regras e normas estabelecidas, hackers DESOBEDECEM!

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