O homeschooling em português “ensino domiciliar” é uma prática de educação que    se opõe ao modus operandi da escola tradicional, que vem sendo considerada cada vez mais obsoleta, pois não satisfaz mais as necessidades das novas gerações, além de ser vista por muitos como um lugar onde há doutrinação ideológica, fugindo assim da sua proposta inicial. No homeschooling cada aluno é ensinado individualmente em sua residência, em aulas que são ministradas por professores fisicamente ou através de diversas ferramentas de ensino que temos no mercado.

   No Brasil tal prática não está prevista em lei, mas de acordo com a associação nacional de educação domiciliar (ANED) no Brasil existem cerca de 2500 adeptos, isso ocorre pois existem algumas brechas jurídicas, portanto alguns pais vêm conseguido ter o direito de educar seus próprios filhos em casa.

   Na busca de esclarecer um pouco mais sobre o homeschooling aos seus leitores o Gazeta Libertária conversou com Rodson Fernandes Cipriano (35) e Alana Ferreira Cipriano (35), que são casados, e aproximadamente a 1 ano, praticam ensino domiciliar com suas filhas: Beatriz (15) e Sophia (11).

O que levou vocês a aderirem ao ensino domiciliar?

Rodson“Foram diversos motivos que nos levaram a retirar nossas garotas da escola tradicional, mas o principal foi por que vemos grandes falhas que dificultavam o aprendizado e acabavam desmotivando nossas meninas a não estudarem, fatores como Bullying, grade curricular obsoleta, constante troca de professores e atividades que não tinham sentido lógico foram preponderantes em tal decisão”

Como vocês organizam as aulas? 

Alana: “No início tentamos copiar o modo da escola, mas depois refletimos e vimos que isso era errado, pois é desse modo de ensino que estávamos tentando fugir, depois tentamos um projeto de temas e conteúdo, só que percebemos que é algo bem amplo, até encontramos um projeto melhor que as meninas se adequam mais que é o de estudar as matérias básicas (português, matemática, ciências etc.), e outros estudos envolvendo cultura e tradição, nos organizamos os estudos e usamos diversas ferramentas de ensino/aprendizagem como livros, documentários, imagens, além de aulas práticas como ida a museus e parques…”

Visitas à parque e museus são atividades que a família Cipriani adotou como parte do ensino das suas filhas
Visitas a parque e museus são atividades que a família Cipriano adotou como parte do ensino das suas filhas

Quais as vantagens do ensino domiciliar?

Alana: “Os benefícios são vários, mas os principais são: ensino interativo, ou seja, torna os conteúdos fáceis e divertidos de se aprender, controle do ritmo de cada criança, e autonomia para a mesma buscar os próprios interesses”

Na sua opiniãoqualquer um mesmo com renda baixa pode ter um ensino domiciliar?

Alana: “O principal preconceito que muitos que desconhecem o que é o ensino domiciliar é esse (risos), o de que ensino domiciliar é feito para “burgueses”, mas a verdade é que não é, hoje em dia existem diversas ferramentas de ensino, e projetos de homeschooling disponíveis, para as pessoas de todas as camadas sociais, só que no Brasil por possuírem poucos adeptos, as pessoas não sabem que têm acesso com facilidade a essas ferramentas, mas temos a internet, podemos criar comunidades escolares voluntárias em vizinhança por exemplo, outra saída também seria alguns pais se unirem voluntariamente e pagarem um professor para ensinar aos seus filhos, em fim são diversas as saídas que fogem do modelo de ensino da escola tradicional.”

Alana Cipriano salienta ainda que homeschooling talvez não seja para todos como muitos dizem, mas ela alega que o motivo não seja a falta de capital para investir, e sim que nem todos os pais ou famílias, tem a mesma paciência de lidar com esse modo de ensino, devido as adversidades do dia a dia, ou até mesmo uma falta de paciência.

Nota- se um desempenho melhor no processo de aprendizagem das garotas nesse ano de ensino domiciliar?

Rodson“Sim, já podemos ver uma grande diferença, as garotas que antes sentiam um pouco de preguiça de estudar, hoje com a autonomia de estudarem do modo que mais lhe agradam, sentem prazer e facilidade em aprender, buscam os próprios interesses e treinam suas próprias habilidades” 

como funciona a socialização das garotas

Rodson“Elas possuem uma vida normal como outras pessoas, essa a principal crítica quanto ao ensino domiciliar, mas creio que parta pela falta de conhecimento sobre a prática, Beatriz frequenta um curso de inglês, vai a igreja (participa de um grupo de jovens que ela é líder), tem amigos, como qualquer outra adolescente, Sophia tem também uma vida normal como outra criança, ela em especial que gosta mais do homeschooling pois, por gostar de coisas diferentes que não condiziam com o coletivo escolar, ela acabava sendo excluída, o oposto do que as propagandas sobre o modelo de ensino tradicional propõe” 

Como isso virou um processo jurídico

Rodson“Beatriz estudava na rede estadual e Sophia na rede municipal, nós tiramos elas das suas respectivas escolas, e tivemos 3 duros contatos com o estado, o primeiro veio por causa de um programa da rede municipal que a minha filha mais nova Sophia estudava que chama- se “apoia”, onde a criança ao passar 7 dias sem ir à escola o conselho tutelar liga para os pais para saberem o que está havendo, da escola da minha filha mais velha não fui questionado. O segundo contato com o estado foi quando o conselho municipal, ao perceberem que eu não iria colocar minhas filhas no ensino tradicional de novo, encaminharam uma denúncia a promotoria que ligaram para mim de forma arrogante afirmando que STF não tinha julgado a causa ainda, eu respondi a ela que quem cuida da educação dos meus filhos sou eu e não o estado. O terceiro contato com o estado deu se através de intimação, e se eu não aparecer no dia da audiência corremos risco de sermos presos e perder a guarda das nossas filhas, além de uma multa no valor de R$1000,00 que corre nos altos do processo, que já combinei com minha esposa que não pagarei, serão comprados exemplares do livro “Educação livre e compulsória” do autor Murray Rothbard e outros de livros do tema.”

O “crime” pelo qual respondem é “Abandono Intelectual”, Rodson diz que isso é algo absurdo, pois abandono seria largar as meninas na escola e deixar a escola se virar com elas.

Alguma consideração final? 

Rodson: “Quero agradecer muito aos seguidores do Twitter e Facebook, a página Ancapball, ao Vinícius Botti, ao Fhoer, ao Raphaël Lima e a vocês do Gazeta Libertária pelo espaço

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