Levantamento feito pelo Data Folha revela que 87% dos moradores de favela no Rio de Janeiro aprovam a megaoperação policial contra o Comando Vermelho realizada nos complexos do Alemão e da Penha em 28 de outubro. A informação derruba a falsa ideia bastante propagada de que moradores de favela em geral são coniventes com o crime organizado.

Já no caso de moradores da cidade e da região metropolitana, a aprovação foi bem menor, sendo cerca de 57% aqueles que aprovam a megaoperação contra o Comando Vermelho. Já a nível nacional, a aprovação da megaoperação por moradores das favelas de outras cidades do país é de mais de 80%. Quanto à população geral que não mora em favelas, a aprovação cai para 51,8%.

Quem sente na pele entende

O fato de os moradores da favela serem em sua maioria favoráveis à megaoperação do BOPE no Rio de Janeiro não é difícil de entender, uma vez que eles são as principais vítimas de facções criminosas como o Comando Vermelho. Nos últimos anos, as facções vêm aumentando seu poder e terror sobre as populações das favelas, praticando extorsões e até mesmo monopolizando várias atividades, como fornecimento de internet e punindo quem optar por fornecedores concorrentes.

A execução de criminosos que espalhavam terror na população passa a ser vista como um alívio depois de todo o terror sofrido por parte dos criminosos.Tal aprovação por parte dos moradores de favela derruba o mito propagado por preconceituosos elitistas de que os moradores de favela em geral seriam coniventes com o crime organizado. Um mito propagado principalmente na internet por pessoas que se isolam em suas bolhas e câmaras de eco e ignoram a realidade daqueles que eles escolheram como bodes expiatórios das mazelas do país.

A questão da prioridade explica muito bem a disparidade da aprovação entre a população da favela e do restante do país. É perfeitamente compreensível que o restante da população, principalmente os mais ricos, em maior segurança e com maior escolaridade, esteja preocupada com outras questões relacionadas à megaoperação, como desrespeito ao devido processo legal (embora o BOPE tenha aberto fogo em legítima defesa aos ataques dos criminosos) e tal evento estar sendo instrumentalizado pela direita política para fins políticos.

No entanto, os moradores de favela não podem se dar ao luxo de se preocuparem com tais questões quando suas vidas e integridade física são ameaçadas constantemente por tais grupos criminosos. Isso não significa que não devamos ter um olhar mais crítico sobre esta questão.

Por que eles não se mudam?

Outra declaração feita pelos mesmos elitistas preconceituosos que acusam os moradores de favela de serem coniventes com o crime é a de que os moradores não querem sair de tal realidade porque se acomodaram a ela. Muitos até apontam para o fato de alguns poucos que conseguiram sair da favela como exemplo de que “qualquer um pode sair se quiser”.

O mais lamentável é o fato de isto já ter sido dito por supostos libertários que deveriam se lembrar de algo chamado individualismo metodológico e que é impossível fazer uma generalização a partir de casos particulares. Sem falar que tais casos são exceção, não a regra.

Os indivíduos que conseguiram sair da favela e prosperar fogem completamente do perfil da maior parte dos moradores de favela: a maioria ganha menos de um salário mínimo, apenas 2% declaram receber acima de 5 salários. Sobre o nível de escolaridade, menos de 10% têm nível superior e apenas 2% têm pós-graduação.

Além disso, mais de 40% dos participantes estão desempregados, 54% moram com 3 a 5 pessoas e mais da metade tem filhos, e 23% possuem atividade extra para complementar a renda. Este definitivamente não é o perfil da maioria que consegue sair da favela e prosperar. Creio que os mesmos preconceituosos elitistas realmente acreditem que somos o país das oportunidades; que basta “querer” ignorando, é claro, o fato de que temos uma das cargas tributárias mais altas, uma das maiores burocracias para se abrir e manter um negócio, uma das moedas que mais se desvaloriza, destruindo nosso poder de compra, além das leis trabalhistas mais rígidas, o que dificulta contratações.

Não. O Brasil não vive sob o laissez faire!

Além disso, toda a situação em que moradores de favela vivem é em grande parte devido a intervenções do estado, e isso começou na proclamação da Lei de Terras, que dificultou o acesso da grande maioria dos brasileiros à moradia e propriedade fundiária. Sem falar, é claro, de outros fatores, como a não indenização dos ex-escravos ancestrais de muitos destes moradores, bem como a destruição de cortiços sem compensação e zoneamento urbano que burocratizou e encareceu os custos de moradia no país.

É lamentável que até mesmo supostos libertários propositalmente ignorem tudo isso para reforçar preconceitos em troca de views e donates. Isso mostra a decadência em que o movimento se encontra no país.

Policiais estatais não são heróis

Embora os moradores das favelas estejam corretos em sua aprovação sobre a megaoperação do BOPE, é importante reforçar algo que infelizmente muitos libertários estão se esquecendo: policiais estatais não são heróis! A megaoperação é o mínimo que o estado poderia fazer, levando em conta tudo o que tirou destes moradores e de seus antepassados por séculos via impostos e inflação. Além de todas as medidas draconianas que prejudicaram estas mesmas pessoas.

Não caiam na tentação de se sentirem gratos pelo estado fazer menos que o mínimo. O estado sempre irá te dever. Lembre-se disso!

E policiais não são bons samaritanos em geral. Há exceções, mas a maioria não hesitaria diante de cada ordem estatal para atender a leis injustas e punir crimes sem vítima. O período do lockdown foi um exemplo disto.

E não nos esqueçamos: foi a insana guerra às drogas em nome do moralismo que afastou indivíduos pacíficos da produção e comércio de drogas menos danosas como a maconha (orgânica), removendo concorrentes e permitindo que este mercado com elevada demanda fosse dominado por criminosos inescrupulosos, violentos e que até pioraram a situação das drogas, adulterando-as e as substituindo por outras mais nocivas.

Se não fosse pela guerra às drogas, não haveria um Comando Vermelho para combater, em primeiro lugar.


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