A TACE é uma teoria desenvolvida por Mises e uma das suas grandes contribuições ao entendimento econômico atual. No entanto, para entendermos o que essa teoria realmente é, devemos entender melhor o argumento marginalista que ele faz em “A Theory of Money and Credit”, que é o livro em que ele aplica os princípios marginalistas aos meios de troca e, para os que não estão familiarizados, precisamos primeiro explicar o que é essa teoria marginalista, que por sua vez vem da teoria do valor subjetivo.

Teoria do Valor Subjetivo (TVS)

   A TVS afirma que o valor de qualquer coisa, literalmente, depende de quem a valora, seja um produto ou serviço, seja um sentimento ou pensamento. Isto é, valor é determinado subjetivamente e portanto é subjetivo.

   Exemplo: se você colocar a escola austríaca em certos sites, por exemplo, e tentar defendê-la, você obterá diferentes resultados: no MI, a maioria irá concordar com você; já em um site de economia mainstream, a maioria vai discordar de você de forma burra e apaixonada; se você defender em um site comunista, eles vão atacar o Mises, o Bawerk, e o Menger pessoalmente, e demonstrarão completa ignorância no assunto.

   Outro exemplo elucida a importância da TVS à economia: trocas voluntárias só ocorrem quando o vendedor discorda da valoração do comprador: o vendedor acredita que o preço do produto vale mais que o produto, e o consumidor discorda, pois valora mais o produto à venda que seu preço. Seja P o produto e $ o preço, podemos modelar a valoração de forma ordenada para ambos:

Valoração do comprador: P > $
Valoração do vendedor: $ > P

   Por isso mesmo o vendedor está disposto a abrir mão do produto em troca do dinheiro e o comprador está disposto a abrir mão do dinheiro em troca do produto.

   No entanto, essa valoração é meramente ordinária, isto é, uma escala de preferências. Não é possível dizermos com certeza se P = 2$, por exemplo, na opinião do consumidor, se a tarja do preço não diz 2$. Só podemos saber como o consumidor se comportaria nesse caso se esse caso estivesse dado. E se colocarmos outros produtos, como S, os quais o consumidor preteriu em relação a $ e P, podemos dizer que:

   Valoração do comprador = (P, $, S)

Novamente, uma ordem apenas. Não sabemos se P > 2S só por esta ordenação de preferência.

Utilidade Marginal Decrescente (UMD) ou Diminuída

   Suponha agora que o consumidor esteja diante da oferta de P, já tendo colocado uma unidade de preço $ em seu cesto de compras. Ele valorou P > $, como sabemos. No entanto, isso não significa que 2P > 2$ – ele pode preferir não comprar duas unidades do produto, mas apenas uma, pois ele quer comprar Q de preço &. Assim, representamos sua preferência assim:

Valoração do comprador = (2$, P, $, Q, &, 2P)

   Como consumidores, nós mesmos nos pegamos fazendo muito isso: não compramos todo o estoque do supermercado do produto que fomos comprar, mas compramos a quantidade que julgamos ser adequada, isto é, valoramos 1P > 1$ mas nem sempre nP > n$ quando n cresce.

   Um exemplo deve ajudar. Suponha que você vá com sua esposa a uma loja de sapatos e lá ela escolha um salto alto vermelho verniz de R$ 300,00 – o fato de você acreditar que o sapato não vale isso tudo, mas comprar da mesma forma porque você valora a felicidade da sua esposa, prova que valor é subjetivo.

   A vendedora, animada com a compra, propõe que sua esposa leve dois pares do sapato que ela comprou. Sua espoa olha pra você, e responde a ela que não precisa de dois pares, pois só pode vestir um par de cada vez! Isso é utilidade marginal: o próximo par de sapatos não tem utilidade se você já está usando o mesmo modelo.

   A vendedora então lhe informa que o segundo sapato sai com desconto de 50%, e que esse modelo vai sair de linha no mês que vem. Essa oferta faz sua esposa repensar a resposta, tentada por levar por R$ 150,00 um sapato que pra você não vale tudo isso. Isso é utilidade marginal diminuída.

   Olhando pelo lado da indústria, vemos o quão importante o conceito de UMD é importante. Aumentar a produtividade da empresa, por exemplo, não é o melhor em todos os casos – uma empresa deve ter lucro, não meramente produtividade. Na antiga união soviética, produzia-se muitos pares de sapatos, mas eles tinham tamanho único, pois eram feitos para atender as metas plurianuais, não para gerar valor.

   Já um produtor de sapatos no capitalismo deve achar o ponto ideal de produtividade para que sua oferta esteja no ponto ótimo da lucratividade e, para cada sapato produzido além desse valor, a utilidade de produzi-lo diminui.

   Podemos ver isso também no setor de serviços: o investimento feito para ganhar um cliente para a empresa, de maneira geral, cresce – pois se os investimentos anteriores fossem suficientes, você não precisaria fazer novos investimentos pois esse cliente já teria sido ganho. Ao mesmo tempo, a rentabilidade de cada novo cliente é em geral menor. Novamente, UMD em ação.

UMD aplicada a meios de pagamento

   Uma das maiores contribuições de Mises ao pensamento econômico foi justamente pegar esse conceito de UMD e aplicá-lo aos meios de pagamento, mais especificamente dinheiro e crédito, para explicar, de forma teórica, o que se sabia na prática – que aumento da oferta dos meios de pagamento gera redução na utilidade marginal dos mesmos, fazendo-os perder valor e assim causando aumento de preços – e expandir para entender-se o problema da intervenção estatal no sistema monetário com a TACE.

   Basicamente, a ideia aqui é de que o dinheiro não é neutro, isto é, ele não entra na economia de forma homogênea afetando o preço de todas as coisas simultaneamente. Ele entra primeiro onde o governo o coloca primeiro, afetando ali a distribuição dos recursos e depois desce para o resto da economia.

   Isso porque os vendedores não comparam seus preços à quantidade de dinheiro, e sim à percepção de demanda de seus consumidores – isto é, oferta e demanda percebidas. Assim, os fornecedores de bens e serviços só ajustam seus preços depois que o novo dinheiro já foi usado para comprar o que eles oferecem.

   Isso quer dizer que, quanto mais próximos da nova soma de meios de pagamento forem os agentes, mais eles se beneficiarão pois podem disputar a compra de produtos e serviços antes de os vendedores perceberem a alteração da demanda e portanto antes de os preços subirem. Da mesma forma, quanto mais longe estão os agentes da nova fonte de meios de pagamento, mais prejudicados eles serão, pois os preços já terão subido antes de eles receberem aqueles!

Finalmente, a TACE

   No entanto, a injeção de novos meios de pagamento na economia geralmente se dá de forma concentrada: o governo imprime dinheiro ou cria crédito nos grandes bancos, que por sua vez tendo aparentemente maior lastro para fazer empréstimos colocam-no para tanto.

   Isso também significa que se o governo de alguma forma redistribuir dinheiro para um setor específico da economia, seus preços também serão distorcidos e não representarão corretamente as condições econômicas, causando um problema de cálculo econômico, que por sua vez causa má alocação de recursos, que por sua vez é insustentável, e a reorganização desses recursos aos seus usos mais econômicos só ocorrerá depois de os preços voltarem ao normal, isto é, depois de o novo dinheiro ou dinheiro direcionado já tiver se acomodado adequadamente à economia de forma menos heterogênea.

A Crise de 2008 e o TACE

   Um exemplo disso é o que aconteceu a partir de 1997, quando Bill Clinton executou um destrutivo sistema de incentivos: a Fannie Mae e a Freddie Mac, duas empresas patrocinadas pelo governo (GSEs, ou Government-Sponsored Entities), passaram a comprar quase todos os financiamentos imobiliários em perdas, para supostamente ajudar as pessoas a viverem o sonho americano de ter a casa própria.

   Isso significou que quase qualquer banco que fazia financiamento imobiliário direcionasse seus recursos para isso mesmo. Afinal, se o cliente pagasse o empréstimo, o banco saía no lucro e, se ficasse inadimplente, vendia-se para uma GSE e ele também saía no lucro!

   Uma vez que o governo criou esses incentivos, evidentemente que os bancos direcionaram suas ofertas de crédito para financiamentos imobiliários em uma intensidade maior que o que seria natural. Isso levou, por exemplo, a juros mais baixos – pois o risco aparente era zero -, o que por sua vez levou os consumidores a contraírem mais dívidas – pois o preço do crédito, os juros, estavam mais baixos. Da mesma forma, uma vez com juros mais baixos, o valor do principal disponível subiu.

   Isso por sua vez fez com que o preço de residências para financiamento aumentasse muito. Esse aumento de preço teve duas consequências principais: primeiro, levou a um aumento dos investimentos em construção residencial – pois muito mais dinheiro estava aparecendo a quem pudesse construir novas casas que em outros empreendimentos. Isso por sua vez elevou a taxa de remuneração de investimentos em fundo imobiliário – aqui no Brasil, conhecido como Letra de Crédito Imobiliário (LCI) – atraindo capital para tanto.

   Porque os preços estavam distorcidos, houve uma euforia que fez com que bancos emprestassem mais, mesmo a pessoas que não tinham condições de pagar. E mesmo aquelas que antes tinham endividavam-se mais do que outrora pois viam nesse crédito subsidiado indiretamente pelo governo uma oportunidade de ficar rico rápido, comprando imóveis que se valorizavam durante a euforia para vender depois, ou alugar.

   Na economia em geral, dinheiro que antes teria sido direcionado para outros fins deixou de ser alocado aos mesmos para ser investido em fundos imobiliários. Enquanto isso, certificadoras davam grau AAA a fundos de investimentos com lastro nesses créditos, mesmo que suas carteiras contivessem inadimplentes.

   Isso tudo era, afinal, insustentável, como se viu em 2007: uma hora, as pessoas não tem mais como se endividar. A euforia deu lugar a uma situação onde as pessoas não tinham mais como financiar a compra de mais casas, a despeito de a construção continuar – tirando recursos de outros setores da economia para este fim. Por outro lado, todo o sistema financeiro estava comprometido com fundos imobiliários que dependiam da rentabilidade desses financiamentos.

   Tudo em vão: a inadimplência em fundos AAA chegou a 15%, a desconfiança levou a uma corrida aos bancos para se retirar dinheiro. As pessoas devolviam as casas aos bancos por não conseguirem mais pagar por elas e, sendo bancos e não imobiliárias, e com a necessidade de darem retorno aos investimentos em fundo imobiliário, os bancos todos colocaram todas essas casas para vender, com preços baixíssimos – pois a oferta explodiu de súbito – mas quase ninguém comprava, pois a maioria dos interessados já estava endividada. A subida de juros do FED não ajudou também.

   Vieram então as casas vazias em condomínios antes pujantes, problemas de reputação para os bancos que fizeram suas ações despencarem, junto com seus ativos sem valor nenhum no mercado. O sistema financeiro que tinha participado dessa euforia agora estava em desespero, e o próprio Lehman Brothers fechou as portas pois não era mais capaz de honrar a remuneração devida a seus investidores.

   A crise de 2008 é um exemplo típico de como o governo, através da manipulação dos meios de pagamento, pode ser extremamente destrutivo. Desde 1997 com Clinton, já haviam economistas da escola austríaca prevendo o que ia acontecer, mas ninguém quis ouvir. Assim como em 27 Mises já previa a crise de 29. E hoje eles afirmam confiantemente que as “soluções” que o FED e a administração de 0bama deram geraram outra bolha que deve estourar em breve.