Neste momento em que os estados do Irã e de Israel disputam a hegemonia no Oriente Médio enquanto atentam contra a vida de milhões de civis inocentes, é importante lembrar da desobediência ao estado que evitou uma catástrofe ainda maior a nível mundial. Stanislav Petrov, oficial soviético, resolveu desobedecer ao protocolo da URSS e não acionou o míssil em meio a meras suspeitas de um ataque americano à URSS.
A desobediência que salvou o mundo
Stanislav Petrov, que era então tenente-Coronel, era o oficial responsável pelo bunker Serpukhov-15, perto de Moscou, no dia 26 de setembro de 1983. A responsabilidade do Tenente-Coronel Petrov era monitorar a rede de alerta preventivo por satélites e notificar os seus superiores sobre qualquer possível ataque dos EUA com míssil nuclear contra a URSS. Caso isto acontecesse, a estratégia da União Soviética era seguir a doutrina da Destruição Mútua Assegurada e lançar imediatamente um contra-ataque nuclear maciço contra os Estados Unidos.
Pouco após a meia-noite, os computadores do bunker indicaram que um míssil estadunidense se movia em direção à União Soviética. O Tenente-Coronel Petrov deduziu que havia ocorrido um erro do computador, já que os Estados Unidos não lançariam apenas um míssil caso estivessem de fato atacando a União Soviética, e sim vários ao mesmo tempo. Além disso, a confiabilidade do sistema por satélite já havia sido questionada anteriormente. Por isso, Petrov considerou o alerta como um alarme falso, e concluiu que de fato não havia míssil lançado pelos EUA.

Não demorou muito para que os computadores indicassem. Um segundo míssil lançado em direção à URSS, e a seguir dum terceiro, um quarto e um quinto. Mesmo diante disso, Petrov ainda acreditava que o sistema computadorizado estava errado, porém, ele não tinha mais outras fontes de informação para poder confirmar as suas suspeitas. O radar terrestre da União Soviética não tinha capacidade para detectar mísseis além do horizonte, então, quando o radar terrestre pudesse positivamente identificar a ameaça, já seria tarde demais.

Mesmo sabendo que, se estivesse equivocado, mísseis nucleares logo estariam a chover sobre a URSS, Petrov decidiu ainda assim confiar na sua intuição e declarou as indicações do sistema como alarme falso. Petrov sabia que, caso fosse um alarme falso, o lançamento do míssil contra Washington como era orientado pelo regime soviético, iria ceifar a vida de milhões de civis americanos inocentes. Sem falar que isso levaria a um contra-ataque dos EUA, o que desencadearia uma guerra nuclear que colocaria em risco grande parte da humanidade.
Após 13 minutos, o radar confirmou que Petrov estava correto: não havia nenhum ataque. Nenhum míssil ou destruição. Havia ficado claro que seu instinto estava certo. Apesar de tal momento crítico ter lhe causado grande pressão e muito nervosismo, Petrov perseverou em sua decisão. Graças a isso, uma guerra nuclear de escala total tinha sido evitada.

Um herói desconhecido
Pela sua decisão correta, Petrov merecia ser reconhecido como herói por ter evitado um desastre mundial, mas inrelizmente não foi o que aconteceu. Pelo menos não de imediato. A URSS não queria expor a falha de seu sistema de defesa, então os militares soviéticos abafaram o caso.
Petrov foi repreendido pelos seus superiores por não seguir o protocolo oficial e foi submetido a longos interrogatórios, porém não foi punido — seria complicado justificar a punição de alguém por salvar o mundo. Ainda assim, ele não foi reconhecido como herói. O sistema militar soviético era bastante rígido e protocolar, e não abria espaço para o que considerava subjetividades. Além disso, o regime temia que a desobediência de Petrov inspirasse outros oficiais a questionar suas políticas.

Em 1984, ele deixou o serviço militar e começou a trabalhar no instituto de pesquisa que havia desenvolvido o sistema de alerta de mísseis do exército soviético. Após a morte da esposa, em 1997, aposentou-se.
Enfim, o reconhecimento
Apenas 20 anos após o episódio é que o mundo tomaria conhecimento do homem que evitou o que poderia ter sido o fim de grande parte da humanidade. Em 2004, Petrov recebeu da organização californiana Association of World Citizens o prêmio World Citizen Award, onde recebeu um troféu e 1.000 dólares como agradecimento por ter evitado a catástrofe. Stanislav Petrov morreu em 19 de maio de 2017, aos 77 anos.

Petrov nunca teve o reconhecimento que de fato merecia, mas nada disso diminui seu heroísmo. Sua atitude corajosa deve nos servir de inspiração e exemplo de como a perseverança em fazer o que é certo em detrimento das arbitrariedades estatais é o caminho para sairmos da condição de escravidão sob a tirania para a paz e liberdade.

O conteúdo deste artigo está livre de restrições de direitos autorais e de direitos conexos. Sinta-se livre para copiar, modificar, distribuir e executar o trabalho, mesmo para fins comerciais, tudo sem pedir permissão.





