Muitas pessoas acreditam que a evolução compromete a ética objetiva. Como podemos afirmar que os julgamentos éticos são verdadeiros ou falsos, se esses julgamentos decorrem da evolução por seleção natural? A evolução se preocupa apenas com o que aumenta o sucesso reprodutivo. Na medida em que os genes que levam a determinados comportamentos conferem uma vantagem seletiva aos seus portadores, eles tenderão a se disseminar pela população. Se isso explica por que agimos, parece não deixar espaço para explicar o comportamento ético por meio de sua conformidade com a verdade.

Uma maneira pela qual as pessoas que acreditam na ética objetiva podem responder a essa linha de pensamento é questionar se a evolução é suficiente para explicar a moralidade. Thomas Nagel é provavelmente o filósofo mais famoso que defende essa posição, e ele vai além. Na sua opinião, muitos filósofos têm um compromisso irracional com a evolução por seleção natural. (Ver sua obra Mind and Cosmos [Oxford University Press, 2012]). Concordo com Nagel, mas Robert Nozick certamente não concordava. Seria difícil encontrar um pensador mais dedicado à evolução do que Nozick, mas ele não abriu mão da objetividade ética.

A seguir, gostaria de examinar o que ele tem a dizer sobre o tema em sua obra-prima, Philosophical Explanations (Harvard University Press, 1981). O livro está repleto de uma quantidade impressionante de pontos interessantes, mas seu estilo labiríntico desagrada alguns filósofos que preferem um sistema dedutivo e desprezam o que não se conforma às suas exigências. O livro tem significado muito para mim desde que o li pela primeira vez em manuscrito, antes da publicação, e passei várias noites sem dormir devorando-o.

No livro, Nozick sugere que a ética objetiva pode resistir ao desafio evolutivo. Ele traça um paralelo com a capacidade de reconhecer verdades matemáticas:

Se o comportamento ético é adaptativo, se esse comportamento aumenta a aptidão inclusiva e tem base genética e é hereditário, ao longo das gerações ele se espalhará cada vez mais amplamente. Indivíduos com comportamento ético deixarão mais bisnetos ou (dada a seleção por parentesco) sobrinhos-netos e sobrinhas-netas com disposição semelhante. No entanto, a explicação da disseminação do comportamento ético… não diminui o (possível) papel dos fatos éticos na origem desse comportamento, ou no desempenho das gerações posteriores. Para entender esse ponto, suponha que o conhecimento de verdades rudimentares da teoria dos números tenha valor adaptativo, devido às vantagens que proporciona na guerra, na caça, nas atividades domésticas ou em qualquer outra área. Se a capacidade de reconhecer tais verdades e a predisposição para agir de acordo com elas tiverem base genética e forem hereditárias, essas capacidades se espalharão pela população, de modo que uma proporção maior desses organismos passará a levar em conta as verdades aritméticas em seu comportamento. Mas, embora a disseminação seja explicada “cegamente”, o comportamento de cada indivíduo não o é. Os primeiros indivíduos reconheceram que 2 + 2 = 4 e outros fatos semelhantes; para explicar seu comportamento e seu sucesso, precisamos introduzir o fato de que suas afirmações aritméticas são verdadeiras. Graças à vantagem que isso lhes conferiu, esses indivíduos deixaram mais descendentes com capacidades aritméticas semelhantes. Seu comportamento também deve ser explicado em termos de seu reconhecimento das verdades aritméticas.

Em seguida, Nozick aborda a ética. Por que o que se aplica à matemática não se aplicaria também à ética?

Se o comportamento ético aumenta a aptidão inclusiva, isso explicaria a disseminação desse comportamento na população. No entanto, o comportamento de cada indivíduo — seja ele antepassado ou descendente — pode ser explicado pelo fato de ele reconhecer certas verdades éticas e agir de acordo com elas… É compatível com uma explicação evolutiva que se trate de uma capacidade de detectar ou identificar algumas verdades.

Pode ser; mas isso não prova que seja esse o caso. Talvez o comportamento ético das pessoas possa ser explicado por suas crenças sobre ética, sem que seja necessário que essas crenças sejam verdadeiras. Nozick sugere, em primeiro lugar, que a explicação de seu comportamento ético sem fazer referência à veracidade das crenças seria incompleta:

É necessário introduzir a verdade? Não poderíamos explicar as crenças em termos dos fatos explicitamente não avaliativos que estão na base das verdades morais — aqueles em virtude dos quais as verdades morais (supervenientes) se mantêm —, sem incluir a verdade das crenças morais na explicação? Mas, nesse caso, o motivo pelo qual as pessoas passam a ter essa crença moral naquela situação factual ficaria sem explicação, como um fato bruto.

Nozick passa agora à ofensiva. É muito provável que as crenças das pessoas sejam verdadeiras:

A explicação de por que as crenças éticas são selecionadas, ou de por que o comportamento é adaptativo, levará em conta o fato de que essas crenças são verdadeiras? Seja qual for a forma como o comportamento aumenta a aptidão inclusiva, essa relação não seria independente da veracidade das crenças? O comportamento ético contribuirá para a aptidão inclusiva ao servir ou não prejudicar os outros, ao ajudar os próprios filhos e parentes, por meio de atos que os auxiliem a escapar de predadores e assim por diante; o fato de esse comportamento ser útil e não prejudicial não é alheio ao motivo pelo qual (na visão da maioria dos teóricos) ele é ético. O comportamento ético aumentará a aptidão inclusiva por meio dos próprios aspectos que o tornam ético, e não como um efeito colateral de características que apenas acidentalmente estão ligadas à ética.

Você poderia argumentar que as verdades mencionadas por Nozick não constituem a totalidade da ética. E o resto? Nozick responde que o caso é semelhante às verdades da aritmética. Uma vez que se tenha algumas delas, novas possibilidades se abrirão para serem descobertas:

A explicação da adequação das capacidades aritméticas provavelmente não revelará muito mais sobre a verdade das crenças aritméticas do que isso [ou seja, além das verdades elementares]… E, em ambos os casos — aritmético e ético —, as capacidades de reconhecimento selecionadas revelarão esplendores que vão além do útil… A capacidade de reconhecer verdades éticas revela estruturas, complexidades, refinamentos, modulações e assimetrias surpreendentes.

Espero que isso lhe dê uma ideia de como é o livro Philosohical Explanations , embora eu tenha omitido os detalhes técnicos e as complexidades. Agora imagine-se lendo 750 páginas disso!

Artigo publicado no site do Mises Institute e traduzido por Rodrigo


Anúncio
Shares:
2 Comments
  • sofones
    sofones
    abril 19, 2026 at 12:14 am

    Se somos espécies evoluídas, se derivamos do nada, se a vida não tem fim objetivo, é apenas acaso e estamos aqui apenas por evolução e sobrevivência, a ética não existe. Quem tem poder não deveria se preocupar com ética uma vez que não ia afetá-lo de forma alguma. Um ditador não pode ser considerado antiético por subjulgar arranhamentos cromossomiais, são apenas células organizadas que formam o que chamam de vida, e nada mais. A ética, nesse sentido, se torna válida apenas para se evitar conflitos, porém para um ditador máximo não há esse perigo, portanto q ética inexiste

    Reply
    • admin
      maio 15, 2026 at 10:38 pm

      Não me lembro de em nenhum momento o texto ter dado tal ideia. Sequer isso é um pensamento dominante entre biólogos evolucionistas. A teoria da evolução apenas explica como as espécies biológicas surgem. E a ética enquanto disciplina que visa buscar a conduta que leve o ser humano a excelência ou felicidade (eudaimonia) já era de interesse inclusive de filósofos naturalistas, como os epicuristas. Nossa espécie é capaz de agir de forma moral porque isso é necessário para nós. A moralidade é inseparável do bom desenvolvimentismo da espécie humana

      Reply
Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *