Morreu aos 81 anos na última sexta-feira (23) em Paris, na França, o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, considerado um dos maiores do país. Junto de sua esposa, Lélia Wanick, Salgado reflorestou a região que ficava dentro da Fazenda Bulcão que herdou de sua família, recuperando a fauna e flora local e melhorando a vida dos produtores rurais locais. Com isso, Salgado e sua esposa fizeram mais pelo meio ambiente do que o estado brasileiro jamais fez.
O fotógrafo já havia revelado em entrevista ao The Guardian em 2024 que seus problemas de saúde foram um fator determinante para sua aposentadoria.
O projeto de reflorestamento
Tudo começou após o retorno de Salgado de uma temporada no exterior para a produção do projeto Êxodos. A ideia surgiu de sua esposa, Lélia Wanick, após o casal ficar chocado com a situação em que se encontrava a propriedade. A região estava praticamente árida devido a devastação da floresta nativa e mesmo as eventuais chuvas não amenizavam a situação. Grande parte da fauna e da flora havia sido perdida e os produtores rurais locais também eram bastante prejudicados pelas péssimas condições da região.
Com isso teve início o Instituto Terra fundado pelo casal com o objetivo de reflorestar toda a propriedade. No início, a equipe era composta apenas pelo casal, um engenheiro florestal e dois vaqueiros. Já hoje são 126 colaboradores e inúmeros doadores e patrocinadores. Mas de pessoas não os únicos novos moradores do local. O reflorestamento também trouxe volta várias espécies que haviam sumido da região procurando habitats em melhores condições.

Os animais que se alimentam diretamente dos vegetais – insetos, aves, pequenos mamíferos – foram os primeiros a voltar à ecofazenda. Com isso eles atraíram outros predadores, que por sua vez atraíram outros ainda maiores e, aos poucos, a cadeia alimentar foi se completando. É por isso que a comunidade festejou quando, em 2011, constataram que uma família de jaguatiricas estava vivendo na área da fazenda. Treze anos depois, a celebração se repetiu quando foram detectadas famílias de onças-pardas e lobos-guará. A presença de predadores de topo de cadeia indica um ecossistema complexo e auto suficiente.
Só de árvores, foram mais de 7 milhões de mudas que se transformaram numa “floresta criança”, como Wanick gosta de chamar. Salgado concordava com as analogias familiares para a mata que criaram.
Mas o mais impressionante foi que o reflorestamento dos 600 hectares trouxe de volta mais de 2 mil nascentes para a bacia do rio Doce. Eles haviam sumido porque os afloramentos de água precisam de condições delicadas para sobreviverem: sombra, solo protegido, vegetação nativa ao redor. Sem essas proteções, as pequenas nascentes não têm como competir com o sol de rachar mineiro.

O retorno dos corpos d’água ajudou as famílias da região, especialmente os pequenos produtores rurais, que também sofriam com a secura e a degradação do solo. Hoje, o Instituto Terra promove programas de educação ambiental para a comunidade local, com foco no desenvolvimento sustentável e agroecológico da região.
Em 2024, após os 700 hectares originais já terem sido quase totalmente restaurados, o Instituto Terra resolveu expandir seu território para mais de 2 mil hectares. Hoje, o Instituto também é responsável por programas de educação ambiental para todas as idades, pesquisas científicas, cultivo de mudas e abelhas nativas.
Feito maior do que o estado na proteção do meio ambiente
Enquanto o estado e seus defensores afirmam que somente ele é capaz de proteger o meio ambiente, um fotógrafo e sua esposa mostraram que proprietários de uma determinada área ambiental são as pessoas mais responsáveis por cuidar de tal recurso. Afinal, todo proprietário tem interesse de preservar o que é seu.
E todos os doadores que apoiaram o projeto mostram que os interessados em proteger o meio ambiente não precisam esperar que o estado faça algo. Eles mesmos podem ajudar doando para institutos que irão cuidar melhor da fauna e flora.
Sebastião Salgado e sua esposa Lélia Wanick fizeram muito mais pela fauna e flora de sua fazenda do que o estado vem fazendo por todos os biomas do Brasil, onde queimadas, caça predatória e desmatamento desenfreado fruto da falta de direitos de propriedade, acompanhada por sua respectiva responsabilidade, são totalmente ausentes.

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