Nesta terça-feira, a notícia de um suposto ataque de 51% ao Monero gerou pânico na comunidade cripto. Apesar da manchete “preço do Monero desaba com ataque de 51 por cento” ter sido amplamente divulgada em portais de notícias sobre criptomoedas, especialistas no assunto expõem a verdade e explicam que este está longe de ser o caso.

O que realmente aconteceu

Segundo o programador e especialista em cibersegurança que atende pela alcunha de Coffnix, um velho conhecido do submundo cripto chamado “come-from-beyond” (CFB), lançou a Qubic Pool com taxa zero para atrair hash de mineradores. Ele vendeu o XMR que capturava e anunciou que atacaria o Monero. No entanto, quando a comunidade hacker reagiu, a Qubic levou um forte ataque DDoS, o que resultou em uma queda de mais de 80% dos mineradores conectados.

O selfish mining (mineração egoísta)

O termo “selfish mining” (mineração egoísta) pode ser desconhecido para aqueles que não estão familiarizados com a tecnologia blockchain e a mineração de criptomoedas. No entanto, é uma estratégia que pode ter um impacto significativo na rede. Basicamente, o selfish mining ocorre quando um minerador ou pool com poder computacional relevante descobre blocos, mas não os transmite imediatamente para a rede. Em vez disso, mantém esses blocos em segredo enquanto continua minerando em cima da sua própria cadeia privada.

Quando a cadeia privada do minerador egoísta fica maior que a cadeia pública, ele divulga todos os blocos de uma vez, forçando a rede a reorganizar e descartar blocos válidos de outros mineradores que se tornam órfãos. Com isso, o minerador egoísta aumenta sua participação nas recompensas sem necessariamente possuir a maioria absoluta do hashrate. Estudos mostram que, acima de aproximadamente 15% do hashrate total da rede, essa prática já pode ser lucrativa.

Ataque de 51%?

Apesar da declaração do projeto Qubic, liderado por CFB, de ter sido bem-sucedido em um “ataque de 51 por cento” ao Monero, a análise real feita por pesquisadores como o BitMEX Research mostra que não é este o caso. Segundo o BitMEX Research, o Qubic tem no máximo 20% do hashrate sustentado e que teria eventualmente alugado poder de mineração adicional para chegar temporariamente a pouco acima de 30%. Isso é suficiente para tentar selfish mining, mas está longe de um controle de 51%.

Objetivos e consequências

Segundo Coffnix, o objetivo do Qubic é claro: o projeto possui um token próprio que pode se beneficiar se eles conseguirem publicidade e impacto no preço. A movimentação envolveu a venda de parte do XMR minerado para USD a fim de financiar aluguel de hashrate. O efeito imediato é gerar mais blocos órfãos e reorganizações curtas, sem colocar a rede sob risco direto de ataque pleno, mas criando instabilidade e desconfiança no ecossistema.

O desenvolvedor de Bitcoin, Peter Todd, um objetivo provável de CFB com seu pool Quibic seria o de “reduzir a renda de outros mineradores para encorajar ainda mais poder de hash a migrar para a pool dele. Ou desistir completamente.”

Análise da BitMex Research

A plataforma BitMex Research também comentou sobre o caso, informando que a rede Monero ($XMR) sofreu uma reorganização deliberada de 6 blocos, aparentemente originada pela pool de mineração Qubic. A reorganização foi pequena, considerando que o tempo alvo por bloco é de 2 minutos. Ela também informou que há evidências de que tenha havido um ataque de dupla despesa, mas sim uma possível tentativa de mineração egoísta para ganhar mais recompensas de bloco.

Segundo a BitMex, a Qubic parecia ter cerca de 20% do poder de hash do Monero e pode ter alugado poder de hash adicional para temporariamente ultrapassar 30%. Embora não tenha 51% do poder de hash, a Qubic pode ter ultrapassado o limite teórico de 33% para tornar a mineração egoísta lucrativa. A plataforma também afirma que o objetivo dq Quibic pode estar relacionado ao seu token $QUBIC.

Ainda de acordo com a BitMex, as exchanges que aceitam depósitos de Monero podem considerar aumentar o número de confirmações necessárias para um depósito, como medida de precaução. Até o momento, não há relatos de ataques de dupla despesa nas principais bolsas.

A pessoa por trás do suposto ataque

Em um post publicado no X, Coffnix também comenta sobre o histórico golpista de come-from-beyond, citando o caso do bytecoin, do qual a Monero surgiu como reação.

Segundo ele, O Come-From-Beyond é conhecido por sua participação no projeto Bytecoin, que foi criticado por ter mais de 80% da moeda pré-minerada antes de ser lançado publicamente. Essa prática foi considerada imoral e antiética pela comunidade cripto.

Ele diz que o Monero (XMR) nasceu como uma resposta a essa imoralidade, com um grupo de cypherpunks decidindo criar um projeto de verdade, sem pré-mineração, sem taxas para os desenvolvedores e sem controle centralizado. Agora, o Come-From-Beyond reapareceu com uma pool de mineração “gratuita” chamada Qubic, que atraiu vários mineradores devido à taxa zero. No entanto, sua intenção não é clara e pode ser apenas uma repetição do comportamento manipulador do passado.

Ele também comenta que a comunidade Monero não parece preocupada com as ações do Come-From-Beyond, pois ele não tem poder computacional suficiente para realizar um ataque de 51%. Além disso, o protocolo Monero pode mudar o código e atualizar a rede para evitar qualquer problema. A recomendação é ignorar o barulho e não dar atenção às ações do Come-From-Beyond.

Importância da descentralização

A aplicação clássica do selfish mining com hashrate limitado pode causar alguns blocos órfãos e uma reorganização de seis blocos, que por si só não compromete o funcionamento do Monero, mas serve como demonstração prática de que incentivos econômicos maliciosos podem explorar até fatias não majoritárias de hashrate para benefício próprio. Isso reforça a importância de descentralização e distribuição ampla de poder de mineração para minimizar o impacto de operações coordenadas como esta.


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