Desertores russos estão sendo devolvidos ao front em vez de serem enviados para a colônia penal, mesmo quando exigem um processo criminal — escreve a ‘Mediazona’, citando as palavras do segundo-tenente Anton Putyatov, de 37 anos.
O artigo refere-se a um acampamento com tendas na cidade de Verkhnyaya Pyshma, na região de Sverdlovsk. Conforme relatam os militares, são levados para lá aqueles suspeitos de tentativa de deserção (também conhecida como abandono não autorizado da unidade, caso ocorra fora do período de combates). Quase 200 pessoas, incluindo feridos, estão detidas em tendas com beliches de madeira. Ao mesmo tempo, a composição dos prisioneiros ‘muda constantemente’ porque as pessoas são enviadas para o front. Putyatov diz que eles são ‘enviados de volta’ para a guerra ‘em lotes de 80 a 90 pessoas’. Acampamentos semelhantes existem em muitas regiões da Federação Russa.

Putyatov é um ex-professor de inglês. Em 2022, ele se alistou na 43ª Brigada Independente de Ferrovias, onde seu amigo servia. O homem explica que tinha medo da ‘mobilização parcial’ anunciada por Putin e de ser enviado para o ataque, por isso tentou se ‘proteger’ com antecedência, entrando em uma unidade específica. No início, ele realmente não foi enviado para o ataque: é relatado que ele guardava equipamentos de escavação de trincheiras em Krasny Liman, trabalhava com logística em Svatovo e na construção de uma linha ferroviária em Luhansk. Ele chegou a receber permissão para ir para casa de licença para ver a família. Durante uma dessas licenças, sua esposa engravidou.
O homem tentou se desligar do exército (o que é proibido pelo decreto de Putin), mas foi transferido para outra unidade militar em Chebarkul, a 300 quilômetros de Ecaterimburgo. No final das contas, ele abandonou o posto sem autorização para poder acompanhar o parto da esposa. No momento de sua chegada, a esposa já havia dado à luz, mas eles pelo menos conseguiram se ver. Uma semana depois, em julho de 2024, Putyatov foi enviado para o front — em um destacamento de ataque perto de Novhorodivka, na direção de Pokrovsk. O ex-professor aguentou quatro meses, mas em outubro sofreu um ferimento por estilhaços na panturrilha. Eles se recusaram a operá-lo. Após um conflito com funcionários do governo e militares, ele conseguiu fazer o tratamento em Yugra. Depois disso, a junta médica militar atribuiu-lhe a categoria ‘temporariamente inapto, licença de 30 dias’ (G-30).
Putyatov retornou honestamente ao front, já como parte do 1435º Regimento de Infantaria Motorizada no vilarejo de Totskoye-2, na região de Orenburg. Os comandantes da unidade extorquiam o acesso aos cartões bancários dos subordinados e os ameaçavam de morte. Em janeiro de 2025, Putyatov fugiu. Cinco meses depois, ele foi capturado.
Putyatov esteve no acampamento duas vezes: em maio do ano passado, ele foi colocado lá pela primeira vez. Ele permaneceu lá até outubro. No outono, foi devolvido ao mesmo 1435º regimento. Ele fugiu novamente, foi capturado de novo e enviado para Verkhnyaya Pyshma em março deste ano. Putyatov gravou um apelo a Putin exigindo seu retorno à Rússia.
A estratégia de Putyatov consiste em responder a um processo criminal e ir para uma prisão russa comum. No entanto, os militares simplesmente se recusam a encaminhar os materiais para a promotoria e, em vez disso, devolvem os fugitivos ao exército.
Em agosto de 2025, Vitaly Pyankovsky, de 45 anos, da República Popular de Donetsk (DNR), foi parar no mesmo acampamento. Ele foi detido na região de Sverdlovsk como um ‘fugitivo da mobilização’. O Comitê de Investigação recusou-se a instaurar um processo criminal. O homem estava prestes a ser enviado para o front, mas, logo antes do embarque, teve problemas cardíacos e passou por uma cirurgia de ponte de safena. Outro militar, cujo nome não foi divulgado, foi parar no acampamento após fugir do front devido à extorsão por parte dos comandantes.
Matéria publicada no site SVTV e traduzida por Rodrigo






